Ambientalista aponta contribuição da agropecuária na degradação que levou ao semiárido

“Semiaridez da região, portanto, não é natural. Ela foi produzida pela própria atividade que se valeu dos recursos naturais”

A mudança da classificação climática para semiárida em 22 municípios do Norte e Noroeste Fluminense, debatida na PL 1440/19, segue em discussão no meio político como uma compensação aos produtores rurais. Para o ambientalista e historiador Aristides Arthur Soffiati a agropecuária no Norte/Noroeste Fluminense contribuiu muito para esta alteração do clima na região.

“A regiões Norte e Noroeste Fluminense não são naturalmente semiáridas. Elas se situam no domínio da Mata Atlântica. Havia florestas densas, pujantes e úmidas nas margens do Paraíba do Sul e muitas lagoas em seu trecho final. O Norte Fluminense era a região mais úmida do Estado do Rio de Janeiro com suas incontáveis lagoas. No Noroeste Fluminense, dominavam extensas florestas”, destaca Soffiati.

Ele conta que ao longo de três séculos, as florestas foram senso suprimidas pelo corte ou simplesmente pelo fogo para abrir espaço à lavoura e a pastagens.
“Foi um processo lento e até elogiado por representar o avanço da civilização sobre a natureza selvagem. Também as lagoas foram drenadas para conquistar terras sob as águas e destiná-las à cana”, ressalta.

Ainda segundo o ambientalista, a agropecuária contribuiu para o lançamento de carbono na atmosfera e para o efeito-estufa com o desmatamento, embora ainda não se tenha mensurado esta colaboração.

“Este estudo deveria ser feito pelas Universidades para sabermos qual foi a contribuição da região para as mudanças climática. A semiaridez da região, portanto, não é natural. Ela foi produzida pela própria atividade que se valeu dos recursos naturais. Não se trata de condenar o passado, pois desmatar e drenar eram atividades vistas com bons olhos por toda a sociedade. Não se pensava também que as atividades econômicas fossem provocar mudanças na atmosfera”, comenta o historiador.

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Soffiati defende que fundo destinado à recuperação de florestas e lagoas

Com o PL 1440/19, a proposta é que seja criado um Fundo de Desenvolvimento, a ser constituído por recursos privados a partir de doações, contribuições, financiamentos e investimentos para o desenvolvimento da Agricultura, além do Fundo Garantia-Safra, de natureza financeira, para proteger agricultores familiares prejudicados pela estiagem.
Porém, para Soffiati seria justificável um fundo que pudesse atender provisoriamente os produtores rurais, ao lado da restauração e da revitalização de florestas e lagoas.

“Este projeto de lei é uma visão retrógrada. As lideranças políticas regionais são muito atrasadas. O mundo mudou. Vivemos uma crise ambiental sem precedentes. O mais correto seria criar um fundo destinado à recuperação de florestas e lagoas. Não se trata de ocupar as terras altas da região com matas, como no passado, mas reflorestar margens de rios, topos de morro, encostas íngremes e áreas de recarga (por onde a água da chuva se infiltra no lençol freático)”, salienta o ambientalista.

Como exemplo de ações que poderiam minimizar os impactos do clima na região, Soffiati a proteção e recuperação de lagoas, que poderiam ser usadas como reservatórios de águas de enchentes.
“Algumas lagoas da planície deveriam ser recriadas, como as lagoas de Dentro, da Ribeira, da Piabanha, pelo menos”, completa o ambientalista.

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