Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

O tráfico de escravos na zona costeira da ecorregião de São Tomé (Rio de Janeiro e Espírito)

A paisagem do Sertão de São João da Barra, hoje município de São Francisco de Itabapoana, já tinha consideravelmente se modificado quando Jacob Tschudi passou por ela no final da década de 1850 proveniente do Espírito Santo. Depois de marchar quatro horas por uma trilha na mata virgem, em meados do século XIX, ele assinalou que ela não era mais tão virgem como no tempo de seus antecessores europeus que por ali passaram. Cá e lá, encontrava-se uma ou outra fazenda. Ele pousou na fazenda São Pedro, do traficante de escravos André Gonçalves da Graça, e observou as marcas externas de seu enriquecimento com o tráfico já considerado ilegal àquela época. Chamou a atenção para o intenso extrativismo vegetal, salientando que o comércio madeireiro parecia render fabulosos lucros, além das facilidades de transporte, pois que as florestas não ficavam muito distantes da costa, onde eram embarcadas as madeiras para exportação. Mas lamenta que a síndrome do desperdício elimine madeiras nobres junto com as comuns usando o fogo para abrir espaço destinado à lavoura e à criação de animais (Viagem às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1980).

Antiga sede da fazenda de São Pedro, hoje não mais existente. Foto de Dina Lerner (1992)

Fugindo ao risco de desembarcar escravos contrabandeados nos portos de Gargaú ou de São João da Barra, na foz do rio Paraíba do Sul, ou no porto de São Sebastião do Itabapoana, na foz do rio Itabapoana, André Gonçalves da Graça e outros traficantes escolhiam as praias entre Manguinhos e Itapemirim, onde havia condições favoráveis à ancoragem de barcos com maior calado. O comendador Gonçalves da Graça era proprietário da Fazenda São Pedro de Alcântara ou Cobiça, uma enorme propriedade rural. Os escravos introduzidos ilegalmente no país ou ficavam trabalhando na fazenda ou eram logo vendidos para outros proprietários regionais. Os que morriam em terra eram sepultados num local em que recentemente o mar novamente desenterrou inúmeras ossadas.

É ilustrativo seguir um pouco a carreira de José de Sousa Velho, grande contrabandista português que manteve negócios com André Gonçalves da Graça. Velho movimentava-se com bastante intimidade no norte da província do Rio de Janeiro e sul da província do Espírito Santo. Em janeiro de 1856, o juiz municipal de São João da Barra informava o presidente da província do Rio de Janeiro sobre a presença de Velho hospedado na casa de André da Graça e em sua fazenda em Manguinhos. Na mesma correspondência, o juiz acompanha os passos do contrabandista lusitano por Itabapoana e Itapemirim, à procura de porto seguro para um desembarque que tencionava fazer. Ainda em janeiro de 1856, o chefe de polícia do Espírito Santo oficiou ao vice-presidente da província alertando sobre a descoberta de indícios de preparativos para desembarque de africanos nas barreiras do Ceri e em Marobá.

Aspecto da praia de Manguinhos. Foto do autor

Num relatório de março de 1856, o conselheiro Josino do Nascimento e Silva, secretário do Ministério dos Negócios da Justiça, propôs a substituição do comandante do destacamento de Manguinhos ou Itabapoana, por já estar muito relacionado com André da Graça, e encarece a necessidade de saber o nome do proprietário da fazenda do Largo, “ponto famoso para desembarques”. Em setembro de 1856, o presidente da província do Rio de Janeiro advertia ao ministro José Thomaz Nabuco d’Araujo quanto à iminência de um desembarque clandestino de escravos na praia de Bonsucesso, em Macaé.

Outro grande traficante de escravos com base no trecho da ecorregião de São Tomé (entre os rios Itapemirim e Macaé) foi o comendador Joaquim Thomaz de Faria, proprietário das imensas fazendas de Sant’Ana, do Campo Alegre e da Floresta, com engenhos e muitos escravos (OSCAR, João. Escravidão e Engenhos: Campos, São João da Barra, Macaé, São Fidélis. Rio de Janeiro: Achiamé, 1985).

Sobre o mesmo assunto, Norbertino Bahiense levanta a hipótese segundo a qual o lugar denominado de Quartéis, nome também de uma lagoa do sul do Espírito Santo, deve-se à construção de vários pequenos quartéis nos pontos de desembarque de escravos traficados (Domingos Martins e a Revolução Pernambucana de 1817. Vitória: Littera Maciel, 1974). Atribui-se o nome de Quartéis a um destacamento militar instalado em Boa Vista para proteger os viajantes do ataque de índios. Dele deram notícia Wied-Neuwied e Saint-Hilaire, que lá buscaram abrigo em suas excursões científicas pela costa (WIED-NEUWIED, Maximiliano. Viagem ao Brasil. São Paulo: Edusp, 1989; e SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1974).

Pela contribuição destes dois autores, nota-se como o norte da província do Rio de Janeiro estava ainda bastante ligado ao sul do Espírito Santo, podendo-se levantar a ilação de que esse vínculo seria resultado de uma certa unidade e continuidade geológica e de uma mesma estrutura econômica e política subjacente às fronteiras político-administrativas separando o Rio de Janeiro do Espírito Santo, em caráter definitivo apenas em 1832. Na verdade, até o presente, esta continuidade geográfica e econômica continua existindo.

É interessante notar que vários topônimos mencionados por João Oscar e Norbertino Bahiense vinculam-se às bacias hídricas entre os rios Itapemirim e Paraíba do Sul. Itapemirim era vila situada à margem do rio do mesmo nome que optou subordinar-se a Campos quando do pleito desta cidade em se tornar sede de uma nova província do Império (SOFFIATI, Arthur. O movimento político de Campos em 1855. Campos dos Goytacazes: Instituto Federal Fluminense, 2012). Ceri refere-se à lagoa do Siri. A lagoa dos Quartéis e Marobá continuam com esses nomes. A fazenda do Largo certamente alude à bacia do Largo ou de Tatagiba. A ponta de Buena, situada pouco abaixo de sua foz, criou uma reentrância na costa que permitia o fundeamento de navios. Manguinhos foi mais conhecido no século XIX que nos dias correntes graças à sua posição estratégica no tráfico de escravos e à fazenda do poderoso André Gonçalves da Graça. As fazendas de Cobiça e de Floresta referem-se a afluentes do rio Guaxindiba, hoje transformados em vastos brejos em consequência de interferências antrópicas profundas.

Conclui-se que não apenas a praia de Manguinhos era ponto de escravos traficados, mas o trecho entre ele e Itapemirim onde pesquisas arqueológicas devem ser efetuadas. Esse trecho costeiro da ecorregião de São Tomé era, ainda na primeira metade do século XX, bastante ermo e desconhecido, apresentando condições para o atracamento de barcos de razoável calado.

Mapa da Ecorregião de São Tomé. A linha em vermelho assinala a área de desembarque de escravos traficados
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