A atuação intensa do lobby da indústria petroquímica e de plásticos influenciou diretamente a posição adotada pelo governo brasileiro durante as negociações do tratado global contra a poluição plástica, encerradas recentemente sem acordo em Genebra, na Suíça. É o que revela uma análise realizada pelo Repórter Brasil, com base em dados da plataforma Agenda Transparente, desenvolvida pela organização Fiquem Sabendo.
Segundo o levantamento, entre junho de 2019 e junho de 2025, ocorreram 87 reuniões entre autoridades federais e diversos setores sobre o tema plástico. Em 56% desses encontros, havia representantes da indústria, como ABIQUIM (Associação Brasileira da Indústria Química), ABIPLAST (Associação Brasileira da Indústria do Plástico) e entidades de setores como alimentos, bebidas e tintas.
Por outro lado, organizações da sociedade civil que defendem a redução da produção de plástico e o banimento de certos produtos plásticos participaram de apenas cinco reuniões, representando apenas 6% do total.
Mudança de postura nas negociações
Inicialmente, o Brasil demonstrava alinhamento com países que defendem metas obrigatórias para redução da produção de plásticos. Porém, ao longo das negociações, passou a adotar um discurso mais próximo ao de países produtores de petróleo, que preferem um acordo centrado apenas em gestão de resíduos, sem metas de corte na produção.
A mudança gerou críticas por parte de redes e especialistas ambientais. A Coalizão Vida Sem Plástico, que reúne organizações da sociedade civil no Brasil, classificou a postura brasileira como decepcionante:
“A sociedade civil e a comunidade internacional esperavam muito mais do país que sediará, agora em novembro, a COP30”, declarou a coalizão à Repórter Brasil.
Impacto nas negociações climáticas
A postura brasileira no tratado do plástico acendeu um alerta para o que pode ocorrer nas negociações climáticas da COP30, que será realizada em Belém (PA). Segundo Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, os mesmos países que bloquearam o avanço do tratado plástico atuam para frear decisões sobre combustíveis fósseis nas COPs.
“A falta de consenso nesse tratado é um péssimo indicativo para a COP30”, afirmou Astrini ao jornal Estadão.


