Durante negociações da Organização das Nações Unidas (ONU) em Genebra, o Brasil surpreendeu ao recuar em sua posição anterior sobre o combate à poluição plástica. Em vez de apoiar propostas de banimento de plásticos problemáticos, como fizera em rodadas anteriores, a delegação brasileira optou por uma postura mais alinhada com produtores de petróleo, defendendo metas voluntárias e condicionadas a financiamento.
O evento marca a quinta rodada de negociações do Comitê Intergovernamental de Negociação sobre Plásticos (INC), que busca estabelecer um tratado internacional vinculante para enfrentar a crise global causada pelo uso excessivo e descarte inadequado de plásticos.

Brasil abandona lista de banimentos e causa reação de ONGs
Na rodada anterior, realizada em Busan, Coreia do Sul, o Brasil chegou a apresentar uma proposta de banimento de plásticos perigosos — posteriormente barrada por um representante ligado à indústria química. Apesar disso, o país aderiu ao final da conferência a uma proposta conjunta do México e da Suíça, com apoio de 95 países.
Agora, em Genebra, mesmo com mais de 100 signatários apoiando propostas de controle de produção e proibição de plásticos descartáveis, o Brasil não se uniu ao grupo e não apresentou propostas claras de regulação.
Organizações da sociedade civil reagiram com veemência. A Coalizão Vida Sem Plástico, que reúne 15 entidades brasileiras, publicou nota criticando a omissão do país:
“A delegação brasileira até agora não se comprometeu com propostas claras, deixando dúvidas quanto ao seu posicionamento e enfraquecendo os esforços por um tratado global efetivo”, afirma o documento.
Por que isso é preocupante?
A poluição plástica contamina ecossistemas marinhos e terrestres, afetando animais e seres humanos.
Microplásticos já foram encontrados no ar, na água potável e até no leite materno, levantando sérias preocupações sobre impactos à saúde.
Um tratado forte pode representar oportunidades econômicas sustentáveis, com incentivos à reutilização, refil e design circular de produtos.
Alinhamento com países petroleiros e defesa do consenso
A delegação brasileira passou a incluir representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), que ampliaram sua influência nas negociações. Três integrantes da pasta agora compõem a equipe, defendendo uma abordagem que prioriza a economia e a autonomia nacional nas decisões sobre plásticos.
Entre os principais pontos defendidos pelo Brasil:
1- Metas voluntárias — Cada país definiria sua forma e ritmo de implementação.
2- Modelo de decisão por consenso, em vez de votação — posição idêntica à de Arábia Saudita, Rússia e Estados Unidos.
3- Condicionalidade à implementação, subordinando ações à existência de financiamento internacional — argumento também adotado pelos grandes exportadores de petróleo.
Negociadores de outros países ouvidos pela reportagem da Agência Pública revelaram preocupação com o alinhamento do Brasil ao bloco petroleiro, e relataram dificuldade em compreender os objetivos da delegação brasileira.
Diplomacia confusa gera críticas e vira piada nos bastidores
Ambientalistas e diplomatas relataram que a atuação brasileira tem sido marcada por falta de clareza e sinais contraditórios. Segundo a ONG ACT Promoção da Saúde, o Brasil já foi protagonista em tratados ambientais e sanitários, como na quebra de patentes para medicamentos contra o HIV e na Convenção para o Controle do Tabaco.
“É decepcionante que o Brasil não assuma seu papel de liderança nesse tema”, afirmou Paula Johns, diretora da organização.
Nos bastidores da ONU, a indecisão virou até piada. Membros da High Ambition Coalition — grupo de países com posturas mais rígidas contra o plástico — apelidaram o Brasil de “Psyduck”, personagem do Pokémon conhecido por viver confuso e com dor de cabeça.

Ambientalistas defendem tratado como oportunidade econômica
Para a ONG Oceana, representada por Lara Iwanicki, reduzir o uso de plásticos problemáticos não é apenas uma ação ambiental, mas uma chance econômica.
“O tratado pode impulsionar negócios de reuso, criar empregos e tornar o Brasil competitivo num mundo que já exige soluções sustentáveis”, afirmou.
Atualmente, muitos produtos plásticos descartáveis já estão banidos em países da Europa, Ásia e América Latina, o que torna ainda mais relevante a definição da postura brasileira neste debate global.
O que diz o governo brasileiro?
Em nota oficial, o Itamaraty alegou que o Brasil busca atuar como mediador em um cenário polarizado, buscando consenso entre países que defendem limites rígidos à produção de plástico e outros que priorizam investimentos em infraestrutura de resíduos e tecnologia de reciclagem.


