Em uma operação de alto risco em um penhasco na Ilha Robinson Crusoé, guardas florestais e botânicos asseguram material genético da Dendroseris neriifolia para evitar extinção iminente.
O destino de uma espécie inteira de árvore está, literalmente, por um fio — ou melhor, por algumas cordas de escalada. Botânicos e guardas florestais chilenos uniram forças com o Jardim Botânico Real de Kew, na Inglaterra, em uma missão cirúrgica para salvar a Dendroseris neriifolia. Trata-se de uma das plantas mais raras e ameaçadas do planeta, da qual resta apenas um único indivíduo sobrevivente em ambiente selvagem.
Nativa das Ilhas Juan Fernández — um arquipélago vulcânico isolado a 673 quilômetros da costa do Chile —, a espécie foi dizimada ao longo dos últimos dois séculos por um efeito cascata de degradação: desmatamento histórico, erosão do solo, incêndios e a introdução de animais de pastoreio e espécies invasoras.

O fluxo do resgate: Da rocha vulcânica ao laboratório
A operação de salvamento genético da Dendroseris neriifolia seguiu uma logística internacional complexa dividida em quatro etapas críticas:
- A expedição ao penhasco – Como o arquipélago não possui estradas acessíveis para veículos, os guardas da CONAF (Agência Florestal Nacional do Chile) enfrentam uma jornada de quatro horas de deslocamento e mais duas horas de escalada vertical para alcançar o último exemplar, que vive pendurado em um penhasco íngreme e precisa ser sustentado por cabos de segurança para não despencar no abismo.
- A coleta cirúrgica – Todo mês de março, no ápice da maturação, os alpinistas sobem pelo tronco para alcançar a copa florida, posicionando redes especiais para capturar as sementes no exato momento em que se desprendem dos galhos.
- Triagem por Raios-X – O lote coletado foi enviado ao renomado Banco de Sementes do Milênio (Millennium Seed Bank), em West Sussex, na Inglaterra. Lá, análises de imagem por raios-X comprovaram que 25 das 29 sementes selecionadas eram potencialmente viáveis para a reprodução.
- Incubação controlada – O laboratório quebrou a dormência biológica do material e conseguiu, de forma inédita, fazer com que sete mudas criassem raízes e começassem a crescer em ambiente protegido.
O gargalo genético e os santuários invisíveis
O declínio da D. neriifolia vem sendo documentado desde a década de 1830, quando o botânico italiano Carlo Bertero descreveu a planta. Embora uma expedição de campo em 1980 ainda tenha localizado sete indivíduos com até cinco metros de altura, a degradação severa reduziu o ecossistema a este último sobrevivente solitário.
Mesmo com o sucesso da germinação em laboratório na Inglaterra, os ecologistas alertam para as barreiras biológicas da espécie. Por ser o último indivíduo, os cruzamentos futuros sofrem com um estreito gargalo genético, alta taxa de endogamia (cruzamento entre parentes) e baixa fertilidade natural. Embora a planta consiga se autopolinizar, a escassez de ramos floridos limita a produção de sementes na natureza.
Bancos de sementes como apólices de seguro ecológico
A engenharia de conservação ex-situ (fora do habitat natural) atua, neste caso, como uma apólice de seguro contra a extinção definitiva.
“A conservação de sementes oferece uma garantia — se algo acontecer com a planta na natureza, existem sementes armazenadas no banco que sabemos como germinar, então a espécie não se perde”, explicou Alice Hudson, responsável pelas parcerias do Banco de Sementes do Milênio em Kew Wakehurst.
O armazenamento de longo prazo em temperaturas controladas dá tempo para que os cientistas desvendem os requisitos complexos de dormência e germinação do gênero Dendroseris (que possui outras 11 espécies, todas em declínio). O objetivo final é fazer com que as sete mudas cultivadas na Inglaterra atinjam a maturidade de floração, gerem novos lotes de sementes limpas e permitam que os cientistas chilenos desenvolvam protocolos robustos para reintroduzir a espécie em áreas protegidas e reflorestadas do Chile nos próximos anos.
Fonte: Live Science




