
Publicada na capa da revista Science Advances, iniciativa global liderada por cientistas e artistas aposta na força da narrativa e da cultura para engajar o público na preservação dos oceanos, tendo o professor Fabiano Thompson (UFRJ) entre os coautores.
Diante dos desafios urgentes impostos pelas mudanças climáticas, a ciência e a arte encontram novos caminhos para tocar tanto os corações quanto as mentes da sociedade. É com essa premissa que surge o Coral Art Science Consortium, um consórcio internacional que reúne cientistas e artistas de diversas nações com um objetivo claro: proteger os recifes de coral por meio da narrativa, da colaboração e da conscientização ambiental.
A iniciativa ganhou projeção mundial ao estrelar a capa da prestigiada revista Science Advances, no início de julho, com o artigo “Communicating Coral: art and science for global reef action” (“Comunicando Corais: arte e ciência para a ação global nos recifes”, em tradução livre). O estudo conta com a coautoria do professor Fabiano Thompson, do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IB/UFRJ), sendo o único brasileiro a integrar o grupo de pesquisadores.
Recifes como sentinelas do planeta
Atualmente entre os ecossistemas mais ameaçados da Terra — vítimas não apenas do aquecimento global, mas também da sobrepesca, da poluição e do desenvolvimento costeiro desordenado —, os recifes de coral funcionam como verdadeiras sentinelas climáticas. Eles alertam sobre as transformações planetárias e revelam as consequências da crise ecológica antes mesmo que seus efeitos se manifestem por completo.
Eventos de branqueamento em massa, antes raros, tornaram-se frequentes e globais, deixando os ecossistemas degradados e sem capacidade de recuperação natural. Para reverter esse cenário, o artigo aponta que a ciência fornece dados e estratégias técnicas, enquanto a arte e o design criam narrativas acessíveis que transcendem jargões científicos e barreiras políticas.
O poder da experiência e da narrativa visual
Para ilustrar o sucesso de abordagens que conectam crises abstratas a experiências imediatas e tangíveis, os autores citam projetos emblemáticos, como o Ice Watch — iniciativa do artista islandês-dinamarquês Olafur Eliasson em parceria com o geólogo Minik Rosing. Na ocasião, blocos de gelo glacial resgatados do oceano foram instalados em cidades europeias, como Londres, permitindo que o público interagisse e testemunhasse o derretimento em tempo real como demonstração física das mudanças climáticas.
Seguindo essa mesma linha de engajamento, o consórcio aposta em instalações de arte inspiradas em corais, unindo dados científicos, design interativo e chamadas claras à ação para ampliar a conscientização pública. O movimento prevê desdobramentos globais, como eventos sincronizados, festivais temáticos, exposições virtuais e projetos participativos.
Para o professor Fabiano Thompson, a arte possui um potencial transformador único para sensibilizar a população. O pesquisador destaca que o Brasil, e em especial o Rio de Janeiro, possui uma vocação natural para aliar cultura e engajamento coletivo:
“O nosso exemplo mais icônico é o Carnaval. No Rio, as festividades ocorrem trazendo à tona a história, o debate político e a irreverência”, pontua.
Diálogo local e soluções multifacetadas
O estudo ressalta ainda que os esforços de conservação e restauração dos recifes — fundamentais para garantir a segurança alimentar, a proteção costeira e a subsistência de centenas de milhões de pessoas — exigem soluções multifacetadas.
Os autores enfatizam que as iniciativas devem evitar modelos impostos de “cima para baixo”, priorizando o envolvimento de vozes locais e a consulta às comunidades afetadas para assegurar a legitimidade e a equidade das ações. Afinal, mobilizar a sociedade em prol da saúde dos oceanos é um passo indispensável para garantir o futuro da vida na Terra.
Fonte: UFRJ




