Aquecimento anômalo do Pacífico enfraquece ressurgência de nutrientes, impacta a maior pescaria do mundo e eleva o risco de branqueamento em massa de corais, alertam cientistas.
As consequências da rápida evolução do El Niño no segundo semestre de 2026 começam muito antes de seus efeitos meteorológicos tocarem o solo: elas se manifestam na hidrodinâmica dos oceanos. Um relatório emitido por especialistas do World Resources Institute (WRI) adverte que o fortalecimento do fenômeno causará perturbações severas nos ecossistemas marinhos, em um momento crítico em que os oceanos globais já operam em patamares recordes de temperatura devido às mudanças climáticas antropogênicas.
Modelos da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) apontam para uma probabilidade de 81% de que o evento atinja a categoria “muito forte” na reta final do ano. Embora o termo comercial “Super El Niño” seja frequentemente utilizado na mídia, cientistas e órgãos operacionais como a OMM mantêm a classificação técnica de evento “forte” ou “muito forte” para parametrizar seus relatórios. Independentemente da nomenclatura, a intensidade projetada acende o alerta para a ocorrência de ondas de calor marinhas extremas, capazes de degradar florestas de algas e desestabilizar a base da vida no mar.
O efeito cascata do aquecimento marinho na economia
A quebra do equilíbrio térmico nas águas do Pacífico Equatorial gera um impacto sistêmico que migra da biologia marinha para a mesa do consumidor através de quatro etapas interdependentes:
- O enfraquecimento da ressurgência (Upwelling) – O principal impacto físico do El Niño forte é desacelerar o mecanismo oceanográfico que traz as águas profundas, frias e ricas em nitratos e fosfatos para a superfície. Sem essa injeção de nutrientes, a produtividade do plâncton despenca, desabastecendo a base alimentícia de centenas de espécies de peixes comerciais.
- O colapso das pescarias globais – O exemplo biológico mais expressivo ocorre na população de anchovetas do Peru — considerada a maior pescaria do planeta em volume. Sob estresse térmico, os cardumes diminuem drasticamente ou migram para latitudes mais frias, paralisando frotas pesqueiras e estrangulando o mercado internacional de farinha de peixe, insumo essencial para a produção de ração animal na agropecuária.
- O branqueamento de corais e perda de habitat – A permanência de águas aquecidas dispara o branqueamento em massa dos recifes de coral, repetindo os desastres ecológicos observados nos ciclos de 1997-1998 e 2015-2016. A morte dos corais destrói os berçários da biodiversidade, impacta o turismo subaquático e elimina a barreira física natural que protege as comunidades litorâneas contra a erosão e a ressaca marítima.
- A crise de segurança alimentar e renda – A escassez de pescado e a alteração nas rotas de migração de grandes pelágicos, como o atum, atingem diretamente a subsistência de pescadores artesanais e pequenas nações insulares. O choque ecológico traduz-se em inflação de alimentos, perda de postos de trabalho e severa vulnerabilidade nutricional para populações costeiras.
Um cenário de oressões acumuladas
O grande diferencial do evento atual em relação aos registros históricos iniciados em 1950 é o ponto de partida do planeta. O El Niño encontra oceanos estruturalmente fragilizados por uma década consecutiva de calor recorde na atmosfera.
De acordo com Tom Pickerell, diretor global do Programa de Oceanos do WRI, e a pesquisadora Liz Saccoccia, os sistemas de produção de alimentos terrestres e marítimos já operam sob estresse extremo devido a conflitos geopolíticos e ao encarecimento de insumos energéticos. A sobreposição de um choque térmico no Pacífico pode tornar os impactos sobre as receitas governamentais e a resiliência das comunidades costeiras muito mais persistentes e difíceis de reverter.
Como o fenômeno pode ser monitorado com meses de antecedência, o WRI defende que governos utilizem esse intervalo para implementar planos de adaptação baseados no manejo sustentável de cotas de pesca, no fortalecimento da infraestrutura costeira e, fundamentalmente, na aceleração do corte global de emissões de gases de efeito estufa.
Fontes:
- World Resources Institute (WRI) | Relatório Especial do Programa de Oceanos (Performance Trimestral).
- National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) | Centro de Previsão Climática (Projeções de Intensidade).
- Dados Históricos de Eventos de Branqueamento de Corais e Dinâmica de Ressurgência.




