Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

A fauna nativa de São Francisco de Itabapoana

Não se pode falar numa fauna nativa restrita ao município de São Francisco de Itabapoana, porque os animais não reconhecem limites traçados por seres humanos. Pode-se, isto sim, reconhecer que as matas estacionais, a vegetação nativa de restinga e os manguezais existentes no território que hoje corresponde ao município de São Francisco de Itabapoana abrigaram, antes da chegada dos europeus, uma rica diversidade faunística, ainda encontrada no século XIX pelos naturalistas europeus. Atualmente, representantes dessa fauna aparecem afastados dos seus habitats, capturados e aprisionados em quintais e ainda atropelados. Os animais terrestres e alados, principalmente, transitavam com certa liberdade entre as três formações vegetais nativas que revestiam o solo do futuro município.

Já em 1785, o cartógrafo militar Manoel Martins do Couto Reis lamentava, em famoso relatório, que “A irregularidade e disposição que notamos neste terreno, composto de tantos montes, vales, muitos brejais, imensas águas e extensas campinas, concorreu muito em outro tempo a fazê-lo fertilíssimo de animais silvestres de muitas espécies das do Brasil; porém os sucessivos divertimentos dos homens, aplicados ao exercício das caçadas inventadas, e praticadas de vários modos (nota de margem: Armam espingardas por um estilo bem simples, e deixando-as no lugar, retiram-se até que a caça as desarme. Fazem jogos de várias qualidades nos caminhos, por onde se presume passa mais caça. Os negros são mais cheios de astúcia para isto parece, que adquirida nas suas terras com o muito exercício): e também os indispensáveis alaridos do povo, os estrondos dos tiros de espingarda, as derrubadas de madeiras, que formam nas concavidades das montanhas formidáveis ecos, e a frequência de jogos, vieram a destruí-los em muita parte, e os que restavam, se reconcentraram às entranhas dos sertões mais distantes, aonde procriam; porém ainda assim em certos tempos com conjunções da lua aparecem muitos nos arredores dos lugares povoados.”

Embora a lista de animais feita por Couto Reis seja bastante detalhada, não havia a preocupação, na época, de inserir as espécies em seu contexto. As primeiras informações acerca da fauna silvestre relacionada aos seus ecossistemas, no norte fluminense, parecem fornecidas pelo naturalista alemão Maximiliano de Wied-Neuwied, em sua viagem do Rio de Janeiro a Salvador, empreendida em 1815. Ao cruzar o rio Paraíba do Sul, no manguezal de sua foz, rumo ao norte, ele registrou uma legião de jacarés-de-papo-amarelo (Caiman latirostris).

Jacaré-de-papo-amarelo em desenho de Maximiliano de Wied-Neuwied (1815)

Avistou também, nesta travessia, grande número de martins-pescadores azulados (Megaceryle torquata) e de aves parecidas com o corvo marinho europeu, que, segundo Olivério Pinto, correspondem ao biguá (Phalacrocorax olivaceus olivaceus). Junto à praia, ele encontrou batuíras e maçaricos, observando a presença de muitas conchas.

Mergulhando no interior da sombria e imponente mata estacional, Maximiliano deparou com dois homens escuros e inteiramente nus carregando dois lagartos teiú (Tupinambis teguixin) mortos. Este é o maior dos lagartos brasileiros e até hoje apreciado como iguaria, notadamente a carne de sua cauda. Em direção à fazenda Muribeca, às margens do rio Itabapoana, o príncipe naturalista escreveu uma página que nos inspira saudade do sertão, destruído antes de ser devidamente estudado e cantado: “Na escura e imponente mata virgem achamos bonitas plantas, e o soberbo Convolvulus de flores azul-celeste enlaçava-se nos arbustos, até grande altura. O pio forte e grave do ‘juó’, em três ou quatro notas, é ouvido nessas matas imensas, em todas horas do dia e mesmo à meia-noite.” Olivério Pinto explica tratar-se do jaó (Crypturellus noctivagus noctivagus), ave muito procurada e caçada no Brasil.

Lagarto teiú, ainda existente em São Francisco de Itabapoana

Na fazenda Muribeca, o príncipe e sua comitiva encontraram o pato almiscarado (Cairina moschata), o ipecutiri (Nettion brasiliensis), a marreca viúva (Dendrocygna viduata), a garça branca (Casmerodius albus egretta), a garça branca pequena (Leucophoyx thula thula) e a graça real (Pilherodius pileatus). Relata Maximiliano que, “Num passeio rio acima, os Srs. Freyreiss e Sellow se divertiram com o espetáculo de um grande bando de lontras (Lutra brasiliensis), caçando na água, adiante deles, sem o menor sinal de alarma.” Freyreiss e Sellow foram dois renomados naturalistas alemães que acompanharam Wied-Neuwied. A lontra de que fala o naturalista e da qual ele encontrou um indivíduo morto com o corpo completamente íntegro, parece tratar-se da ariranha, segundo pensa Olivério Pinto, corroborado por Ronaldo Fernandes Oliveira, mediante informação pessoal, em vista de seus hábitos diurnos. Neste caso, em vez da Lutra longicaudis, os naturalistas estariam diante da Pteronura brasiliensis. Um pequeno trabalho escrito por Julio C. Dalponte trata da lontra na foz do rio Itabapoana. A ariranha desapareceu regionalmente.
Mais ainda observou Maximiliano às margens do Itabapoana: a presença do macaco roncador ou barbado (Alouatta fusca), do sauí-açu (Callicebus personatus), do pica-pau (Leuconerpes candidus) e, no lado capixaba, da anta (Tapirus terrestris) e veados através de rastros.

Anta, animal muito frequente no Norte Fluminense no passado. Hoje, extinto regionalmente

Outro naturalista europeu famoso a passar por terras do atual município de São Francisco de Itabapoana, em 1818, foi Auguste de Saint-Hilaire, mas ele nada registrou sobre fauna nativa. Embora especialista em batráquios, Johann Jakob von Tschudi também nada escreveu sobre fauna em sua breve passagem pela região em meados do século XIX.

Bem recentemente, Norma Crud Maciel chamou a atenção para o risco que corre o molusco Cochlorina navicula, que só ocorre na vegetação de restinga entre São João da Barra e a praia de Marobá. Também por proposta dela, foi incluída na lista oficial das espécies ameaçadas do Estado do Rio de Janeiro o gongolo Rhinocricus padbergi, cujo habitat se situa na Mata do Carvão, atualmente protegida pela Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba. Um pequeno levantamento de Manrique Prada apontou a ocorrência, na praia de Marobá, margem esquerda do rio Itabapoana, de lobinho (Cerdocyon thous), guaxinim (Procyon cancrivorous), lontra (Lutra longicaudis), tapeti (Sylvilagus brasilienses), gambá (didelphis aurita) e macaco-prego (Cebus apella), todas estas espécies certamente também sendo encontradas em São Francisco de Itabapoana.

Gongolo diplopode, com dois pés em cada segmento do corpo. Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba

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