Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Siribeira

O botânico campista Alberto José de Sampaio recusou-se, em sua Fitogeografia do Brasil (3ª edição revista e aumentada. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1945), a considerar os manguezais como um ecossistema exclusivo da América. Em grande parte, o ilustre botânico tinha razão. A origem dos manguezais situa-se há cerca de 60 milhões de anos, numa região que futuramente constituiria a península do Sudeste Asiático. Desse ponto, as sementes (propágulos) das plantas de manguezal navegaram milênios a fio até colonizarem a região intertropical da Ásia, África, América e Oceania. É claro que, nesse longo e lento percurso, novas espécies foram se originando. Enquanto a vegetação nativa costeira dos continentes provém do interior, a vegetação típica dos manguezais chega dos mares, como os navegadores.

Um gênero exclusivo de manguezal é próspero e mundial. Trata-se do gênero Avicennia, batizada por Lineu com este nome em homenagem ao grande sábio persa muçulmano Avicena ou Ibn-Sina (980-1037). No Brasil, as plantas desse gênero são conhecidas popularmente como mangue preto, siriúba e siribeira. Ele conta com espécies em todo o mundo intertropical. São elas Avicennia alba, Avicennia bicolor, Avicennia eucalyptifolia, Avicennia germinans, Avicennia integra, Avicennia marina, Avicennia nitida, Avicennia officinalis, Avicennia rumphiana, Avicennia schaueriana e Avicennia tomentosa, além de subespécies.

A anatomia estrutural das espécies de Avicennia é basicamente a mesma:
1- raízes alimentadoras, como em qualquer outra espécie angiosperma, apresentam geotropismo positivo, dirigindo-se para o fundo da terra em busca de nutrientes;
2- Raízes respiradoras (pneumatóforos), com geotropismo negativo: são raízes que crescem de baixo para cima num substrato compactado e pobre de oxigênio;
3- Pneumatóforos: células nas compridas e finas raízes que colhem oxigênio para a planta quando a maré baixa deixa-as emersas e que se fecham quando a maré alta as submerge.
4- Resistência à salinidade: as espécies de Avicennia podem suportar altas salinidades;
5- Secreção do excesso de sal por uma ou pelas duas faces da folha, como mecanismo de eliminar o excesso de sal absorvido.

Pneumatóforos em A. marina
Excreção de sal por folha de A. marina

Na América, existem 11 espécies e 1 subespécie de plantas exclusivas de manguezal (SÁNCHEZ, Beatriz Lopez. Ecología de manglares: biogeografía, estructura y zonación. Caracas:Instituto Venezolano de Investigaciones Científicas, 2006):
1- Rhizophora mangle (com ocorrência entre Bermudas e Santa Catarina e entre México e rio Tumbes, no Peru);
2- Rhizophora harrisonii (ocorrência entre Nicarágua e Brasil, como também no Equador);
3- Rhizophora racemosa (entre Nicarágua e Brasil e entre Panamá e Equador);
4- Rhizophora samoensis (entre Panamá e Equador);
5- Avicennia germinans (entre Bermudas e Brasil e México e Peru);
6- Avicennia schaueriana (entre Caribe e Brasil);
7- Avicennia bicolor (restrita à costa do Pacífico da América Central);
8- Avicennia tonduzii (restrita à costa do Pacífico da América Central);
9- Pelliciera rhizophorae (entre Nicarágua e Costa Rica e Colômbia e Equador);
10- Laguncularia racemosa (entre Estados Unidos e Brasil e México e Peru);
11- Conocarpus erectus (entre Estados Unidos e Brasil e México e Peru)
12- Conocarpus erectus sericeus (endêmica do norte do Caribe)

Nikolaus Joseph von Jacquin (1727–1817) foi o segundo naturalista a usar a nomenclatura binária de Lineu, sendo seu criador o primeiro. Em seu livro em dois volumes sobre a Colômbia e o Caribe, ele registrou a Avicennia germinans (JOCQUIM, Nikolaus Joseph von. Relato de uma seleção de plantas da América, 2 vols. Viena, 1763). O botânico holandês descreveu a espécie com o nome científico de A. tomentosa. Jacquin foi o primeiro naturalista a descrever esta espécie, deixando dela uma estampa.

 

Avicennia germinans em Relato de uma seleção de plantas da América

Uma das mais elevadas condições de um nobre era então dedicar-se ao estudo das ciências, notadamente ser naturalista, como o príncipe alemão Maximiliano de Wied-Neuwied.

No século XIX, von Martius referiu-se a duas espécies do gênero Avicennia: A. tomentosa e A. nitida, hoje renomeadas como A. schaueriana e A. germinans, respectivamente. O naturalista alemão delimitou a área geográfica de distribuição da A. nitida (A. germinans) entre a Flórida e a Bahia (MARTIUS, Carolus Fridericus Philippus de e Eichler, Augustus Guilielmus (Urban, Ignatius, iisque defunctis successor). Flora Brasiliensis Enumeratio Plantarum in Brasilia Hactenus Detectarum. S/l: s/d.)

Em 1919, Luederwaldt, seguindo os passos de von Martius, disse que a A. tomentosa era típica da América meridional tropical. Dando crédito a Loefgren e Everett, ele procurou em vão a A. nitida nos manguezais de Santos (LUEDERWALDT, Hermann. Os manguezais de Santos. Revista do Museu Paulista tomo XI. São Paulo, Diário Oficial, 1919).

Por muito tempo, o limite sul da Avicennia germinans foi fixado no Espírito Santo (JIMENEZ, Jorge A. e LUGO, Ariel E. Avicennia germinans (L) L. Black mangrove. United State Forest Service Silviculture, n. 4, p. 1-6, 1985). Em 1980, as biólogas Dorothy Sue Dunn de Araujo e Norma Crud encontraram-na medrando na foz dos rios Itabapoana e Paraíba do Sul, no Estado do Rio de Janeiro (FEEMA. Relatório técnico sobre manguezal. RT 1123. Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente: Rio de Janeiro, 1980). O segundo rio passou, então, a constituir o seu limite meridional de distribuição. Mesmo assim, a espécie continuou, na literatura, com sua geografia limitada ao Espírito Santo como seu ponto mais austral de ocorrência. Em 1987, Flávia Mochel registrou o gênero na foz do rio Macaé, mas não determinou a espécie, recomendando estudos neste sentido (REBELO, Flávia Cavalcanti. Relatório Técnico sobre o Manguezal de Macaé, RJ. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica, 1987). Dez anos depois, minhas andanças em manguezais, para fins de estudo, revelaram uma população significativa de A. germinans na foz deste rio, o que me levou a registrar o fato (SOFFIATI, Arthur. Entre Câncer e Capricórnio: argumentos em defesa dos manguezais do norte do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Xérox do Brasil, 1997).

Juntamente com Norma Crud, dei notícia da nova área de distribuição num trabalho científico (MACIEL, Norma Crud; SOFFIATI NETTO, Aristides Arthur. Novos limites para a distribuição geográfica de Avicennia germinans (L.) Stern − Avicenniaceae e Montrichardia arborecens (L.) Schott − Araceae, no Rio de Janeiro, Brasil. In: SIMPÓSIO DE ECOSSISTEMAS BRASILEIROS, 4., Águas de Lindóia, São Paulo, 02 a 07 de abril de 1998. Anais… Águas de Lindóia, SP: Aciesp, 1998. v. 4.). Em 1998, incursionando pelos rios das Ostras e São João, acreditei ter deparado com uma população muito jovem de A. germinans no segundo, não contando com elementos seguros para identificá-la. Era um grupo extremamente novo de plantas, tudo indicando ter origem numa leva de sementes flutuantes, já que não foi encontrada nenhuma árvore-mãe da espécie no manguezal. Retornando ao local um ano depois, verifiquei tratar-se de Avicennia schaueriana.

Cabem as perguntas: de longa data, a espécie está presente nesses pontos, sem ter sido registrada pelos especialistas ou está navegando rumo ao sul? Neste segundo caso, a dispersão estaria ocorrendo naturalmente ou por interferência humana? Tornam-se necessárias mais pesquisas para responder a estas questões com segurança, além de buscar-se também os possíveis fatores limitantes a estabelecerem sua área geográfica.

Até o momento, o limite meridional de distribuição de Avicennia germinans é o rio Macaé. A partir de rio das Ostras, ocorre apenas Avicennia schaueriana. Cabe registrar, por outro lado, que Avicennia schaueriana se distribui por área muito maior, ao lado de A. germinans. Enquanto aquela ocorre do Caribe a Santa Catarina, ou seja, nos limites setentrional e meridional dos manguezais na América Atlântica, esta estaciona no rio Macaé até o momento.

Embora resistente a estressores, o gênero Avicennia pode desenvolver mecanismo de adaptação a impactos. Na Guerra do Golfo, em 1991, O Iraque lançou petróleo no mar como arma de guerra contra os Estados Unidos. Os manguezais foram atingidos. Avicennia marina desenvolveu raízes anômalas para resistir ao entupimento das lenticelas. Raízes alimentadoras foram lançadas acima do nível da maré mais alta, partindo delas pneumatóforos com lenticelas livres para a troca de gazes (BÖER, Benno. Anomalous pneumatophores and adventitious roots of Avicennia marina (Forssk.) Vierh. Mangroves two years after the 1991 Gulf War oil spill. Marine Pollution Bulletin nº. 27. Saudi Arabia. 1993).

No estuário do rio Macaé, foi identificado fenômeno semelhante em exemplares de Avicennia germinans. Raízes adventícias anômalas partiam do caule até a altura de 5,5 metros, emergindo dela pneumatóforos livres de submersão pela maré cheia. O manguezal é bastante afetado por esgoto, que pode poluir o ambiente, mas não exigir das plantas de mangue qualquer forma de adaptação. Contudo, o óleo lançado pelo aeroporto, por garagens de ônibus e pelas embarcações a motor pode causar impacto subletal ao manguezal, exigindo o desenvolvimento de formas adaptativas de sobrevivência (MACIEL, Norma Crud e SOFFIATI NETTO, Aristides Arthur. “Raízes aéreas em Avicennia germinans (L.) Stern. – Avicenniaceae, com emissão de sub-pneumatóforos. Rio Macaé, Macaé, RJ, Brasil. In: Anais do IV Simpósio de Ecossistemas Brasileiros vol. IV. São Paulo: Academia de Ciências do Estado de São Paulo, 1998).

Exemplar de Avicennia germinans com raízes anômalas no estuário do rio Macaé (RJ)

Em quase todos os aspectos anatômicos, Avicennia schaueriana e Avicennia germinans se assemelham: fuste geralmente retilíneo e elegante, raízes respiratórias finas e compridas; flor branca com forte odor de mel e folhas que excretam sal. O naturalista holandês Guilherme Piso informou, no século XVII, que, no Nordeste, pessoas pobres do litoral costumavam lançar três folhas de siribeira em caldos para salgá-los (PISO, Guilherme. História natural e médica da Índia Ocidental. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1957).

É na folha que se encontra a diferença mais perceptível entre as duas espécies. A folha de Avicennia schaueriana é larga e de verde fosco. Nela, o sal é excretado apenas pela face superior da folha. Já a folha de Avicennia germinans é fina e longa, de verde nítido e brilhante. A excreção de sal é efetuada pelas duas faces da folha.

Avicennia germinans
Avicennia schaueriana

O leigo em botânica pode aprender alguns segredos do manguezal mergulhando os pés na lama e estudando.

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