Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

São Fidélis - Campos: estrada ecológica

Quando o príncipe naturalista alemão Maximiliano de Wied-Neuwied, indo do Rio de Janeiro para Salvador, em 1815, há exatos duzentos anos, passou por Campos e foi a São Fidélis, não havia estada de ferro nem de rodagem. Existia apenas uma caminho de terra com algumas pontes em meio a uma natureza luxuriante e encantadora. O príncipe registrou seu encantamento pelo trajeto em seu diário de viagem do qual comprei a primeira edição de 1820-21 em dois volumes só pelo prazer de sentir o peso da ciência que emana da obra e o cheiro de antiguidade que exala de suas páginas, embora tenha a edição brasileira e não leia em alemão.

O engenheiro Henrique Luiz de Bellegarde Niemeyer percorreu esta trilha e deu, em 1837, informações preciosas sobre seu estado de conservação e as obras necessárias a serem feitas para melhorar seu trânsito. Desde tempos muito antigos, esta estrada é usada para a circulação entre litoral e interior, do Rio de Janeiro, de Campos, de Friburgo para a zona de Minas Gerais. Em meados do século XIX, Hermann Burmeister, outro naturalista alemão, veio do Rio de Janeiro em direção a Mariana, passando por Friburgo e subindo a estrada que levava ao interior pela margem esquerda do Rio Pomba. Esta viagem merecerá um artigo futuro.

Embora muito adulterada nos dois séculos após a excursão científica de Maximiliano, a estrada entre São Fidélis e Campos ainda conserva seus encantos, reconhecidos pelos que passam por ela em tempos de cheias e estiagens. Houve desmatamento, erosão, assoreamento e poluição. Aproveitando a trilha, primeiro construiu-se a ferrovia. Mais tarde, a estrada foi asfaltada e se transformou na RJ 158.

Rio Paraíba do Sul visto da estrada São Fidélis-Campos
Rio Paraíba do Sul visto da estrada São Fidélis-Campos

Quem sai de São Fidélis rumo a Campos já encontra na cidade monumentos naturais e culturais dignos de apreciação. Chamam a atenção pilares da antiga ponte, a ponte ferroviária, a antiga ponte rodoviária, a Igreja Matriz, o solar do Barão de Vila Flor, o Paço Municipal, o prédio da Vila Libanesa e o Mercado Municipal.

Pilares da antiga ponte
Pilares da antiga ponte
Ponte ferroviária
Ponte ferroviária
Antiga ponte rodoviária
Antiga ponte rodoviária
Igreja Matriz
Igreja Matriz
Solar do Barão de Vila Flor
Solar do Barão de Vila Flor
Paço Municipal
Solar do Barão de Vila Flor
Vila Libanesa
Vila Libanesa
Mercado Municipal
Mercado Municipal

Tomando a rodovia, que acompanha a margem direita do Rio Paraíba do Sul, do início ao fim, o viajante encontra belas paisagens naturais que convidam à contemplação. Nesse trecho final, o Paraíba do Sul corre ainda na zona serrana até a localidade de Itereré. Daí em diante, seu curso se bifurca em quatro braços, formando um delta. Dos quatro, apenas dois restaram: o canal principal do rio, que desemboca no Oceano Atlântico, em Atafona, e os canais que correm para a Lagoa Feia.

Paisagem à margem do Rio Paraíba do Sul
Paisagem à margem do Rio Paraíba do Sul

Ao longo de RJ-158, o viajante corta os Rios Pedra d’Água e do Colégio, além de diminutos ecossistemas aquáticos.

Foz do Rio do Colégio no Paraíba do Sul
Foz do Rio do Colégio no Paraíba do Sul
Rio Pedra d'Água nas proximidades da rodovia
Rio Pedra d'Água nas proximidades da rodovia

No âmbito da zona serrana, outras belezas cênicas surpreendem o viajante, como a Serra do Sapateiro e o Morro Peito de Moça. Já na planície, estão a bela Fazenda da Pedra, a sede da desativada Usina Santa Cruz e alguns prédios mais.

Serra do Sapateiro
Serra do Sapateiro
Morro Peito de Moça
Morro Peito de Moça
Usina de Santa Cruz
Usina de Santa Cruz
Usina de Santa Cruz 2
Usina de Santa Cruz

Com uma ferrovia e uma rodovia cortando tão belas paisagens, o trecho do Rio Paraíba do Sul entre São Fidélis e Campos bem merece receber proteção especial. Esta proteção não seria especificamente para a RJ-158, mas para o conjunto do rio, da ferrovia e da rodovia. A figura do Parque não é a melhor porque ele exige a proteção integral de certas partes. Nesse conjunto, parece não haver mais trechos inteiramente preservados, pois o desmatamento foi inclemente. A ele, seguiu-se forte erosão e assoreamento. Além do mais, a poluição assola o rio quase da nascente à foz. Embora um pequeno desnível em São Fidélis e outros acidentes geográficos aerem as águas, nesse trecho, elas estão inseridas na classe 2, numa escala que vai de 1 a 4.

Pelas características das três vias (fluvial, ferroviária e rodoviária), parece que sua proteção deveria ser feita por alguma figura da categoria de Unidades de Uso Sustentável, e não pela categoria de Unidades de Proteção Integral. A Área de Proteção Ambiental (APA) se ajustaria bem ao conjunto, por estar ele já muito alterado e por não exigir desapropriações. Situando-se em dois municípios, a criação da APA caberia ao Estado do Rio de Janeiro, assim como reflorestamento de nascentes e de margens dos cursos d’água em seu interior ou que se dirijam a ele, a reativação da linha ferroviária de São Fidélis-Campos-São Fidélis, melhorias na rodovia RJ-158, com mirantes em elevações adequadas e outros investimentos mais.

Ficam em suspenso duas questões: 1- o pedágio a ser cobrado pelo Estado nesse trecho, já que não seria justo cobrar pedágio de pessoas que se deslocam entre as duas cidades a trabalho ou por motivos frequentes. Quanto ao trem, sem dúvida, ele teria suas passagens cobradas. 2- a APA do Baixo Paraíba seria o primeiro passo para um conjunto maior que incluiria a RJ-216 (Campos-Farol), a BR-356 (no trecho Campos-São João da Barra), a RJ-196 (seção São Francisco de Itabapoana) e o antigo curso da ES-060. O conjunto receberia a denominação de “Caminhos de Wied-Neuwied” por ter o príncipe naturalista transitado por caminhos substituídos pelas estradas mencionadas, mas bem próximas às trilhas seguidas pelo nobre alemão. Esse conjunto também faria parte do Geoparque Costões e Lagunas do Rio de Janeiro.

5 respostas para “São Fidélis – Campos: estrada ecológica”

  1. Que bela Reportagem! Uma viagem nas lembranças, agora com o entendimento que nosso Soffiati nos proporciona! Fotos lindas! Grata amigo por nos socializar seu saber!!!!!

    1. como foi prazeroso conhece um pouco mais da estória de minha cidade Natal terra que amo muito muito obrigado pela grande matéria sobre minha cidade

  2. O autor encanta o leitor com riqueza de detalhes preciosos. Impossível passar por essas estradas, depois desta leitura, sem reparar esse conjunto patrimonial de suma importância para nossa identidade cultural. Parabéns, querido Arthur Soffiati!

    1. Que maravilha de texto.
      Que histórias lindas a contar.
      Que bom tudo estar registrado.
      Que valor temos nessas informações preciosas que enriquecem nosso saber, cultura, história…

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