O Brasil corre o risco de “sujar” severamente sua matriz elétrica nos próximos anos. O Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), promovido recentemente pelo Governo Federal, contratou termelétricas a gás, carvão e diesel que podem emitir até 40 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e) anualmente. Para se ter uma ideia da magnitude, esse volume se aproxima das emissões totais do estado de Santa Catarina em 2024.
Os dados, que constam na 5ª edição do Boletim de Leilões do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), apontam que o pico de poluição deve ocorrer entre 2031 e 2036. O impacto real dependerá do nível de acionamento dessas usinas, mas o cenário de alta utilização coloca em xeque as metas climáticas do país.
Novas usinas: Mais tempo e mais poluição
Um ponto crítico levantado pelo IEMA é que as novas usinas representam 56% da capacidade contratada. Por serem projetos recém-saídos do papel, elas operarão por muito mais tempo do que as plantas já existentes. No cenário mais conservador, essas novas unidades devem emitir 50% a mais do que o parque térmico atual.
“As emissões anuais dependerão do nível de acionamento, que é influenciado pela gestão das renováveis e pelas condições dos reservatórios”, explica Raissa Gomes, pesquisadora do IEMA.
Zonas de sacrifício: Impacto localizado
A distribuição geográfica dessas térmicas acende outro alerta: a concentração em polos específicos do litoral do Nordeste (Caucaia-CE, Ipojuca-PE e Barra dos Coqueiros-SE) e no estado do Rio de Janeiro (Macaé).
- Sobrecarga ambiental: Municípios como Caucaia e Barra dos Coqueiros receberam, sozinhos, cerca de 4 GW adicionais.
- Estresse hídrico: Muitas dessas áreas já sofrem com escassez de água e má qualidade do ar, problemas que tendem a ser agravados pelo funcionamento das usinas.
Segurança energética ou oportunidade perdida?
Embora o governo justifique as contratações como necessárias para a “segurança do sistema”, especialistas criticam a falta de modernização. O gargalo do setor elétrico brasileiro hoje não é a falta de geração bruta, mas a dificuldade em lidar com o excedente de energia renovável e a variabilidade de fontes como eólica e solar.
Para Ricardo Baitelo, gerente de projetos do IEMA, o leilão perdeu a chance de investir em soluções do século XXI: “Contratou-se um volume excessivo de térmicas, ignorando alternativas como o armazenamento de energia (baterias) e a modernização da rede”. O resultado é um modelo que ignora a urgência da transição energética em troca de uma falsa sensação de segurança baseada em combustíveis fósseis — uma estratégia que a recente instabilidade geopolítica global já provou ser arriscada e cara.
Fonte: Canal Solar, Canal Energia.


