Pesquisa aponta que a escassez de alimentos em áreas protegidas ameaça transformar a Mata Atlântica no primeiro bioma do mundo a perder seu predador de topo.
Além da perda de habitat e da caça direta, a onça-pintada (Panthera onca) enfrenta um desafio crítico para sua sobrevivência na Mata Atlântica: a falta de alimento. Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros identificou que a disponibilidade de presas naturais está reduzida a níveis alarmantes, inclusive dentro de unidades de conservação.
O levantamento revela que espécies fundamentais na dieta do felino, como queixadas, catetos e veados, estão em declínio devido à pressão da caça humana. Atualmente, a Mata Atlântica — que ocupa cerca de 15% do território brasileiro — abriga menos de 300 onças-pintadas. Caso a base alimentar não seja recuperada, o bioma corre o risco de perder permanentemente seu maior predador.

Pressão humana e baixa biomassa
O estudo, apoiado pela FAPESP e publicado na revista Global Ecology and Conservation, utilizou armadilhas fotográficas em nove áreas protegidas para estimar a abundância de presas. A diferença entre as regiões analisadas foi drástica:
- Corredor verde: Apresentou uma biomassa de presas de 638 kg, sustentando populações viáveis de onças devido ao difícil acesso humano e maior conectividade florestal.
- Regiões costeiras (como a Serra do Mar): A biomassa despencou para apenas 8,2 kg. Nestas áreas, a proximidade com grandes centros urbanos facilita o acesso de caçadores, resultando na ausência ou em densidades baixas do felino.
“Observamos que a baixa disponibilidade de presas está diretamente ligada ao aumento do acesso humano às áreas protegidas”, explica Katia Ferraz, professora da ESALQ-USP e coordenadora do estudo.
Oásis de conservação: O exemplo de Iguaçu
O Parque Nacional do Iguaçu destacou-se como um dos raros refúgios com populações saudáveis tanto de predadores quanto de presas. O sucesso é atribuído a fatores ecológicos, como a baixa altitude, e ao trabalho do Projeto Onça-Pintada do Iguaçu, focado em três frentes:
- Pesquisa: Monitoramento constante e estudos sobre ecologia alimentar.
- Engajamento: Transformar o medo das comunidades em compreensão e fascínio pela espécie.
- Coexistência: Orientação aos produtores rurais sobre manejo de gado para evitar ataques e mortes retaliatórias.
Graças a esses esforços e ao combate rigoroso à caça ilegal, a população de onças na região do parque quase dobrou nos últimos 15 anos. Atualmente, o projeto trabalha na criação de uma rede trinacional com Paraguai e Argentina para replicar este modelo de coexistência.
Desafio para a gestão ambiental
O cenário reforça a necessidade urgente de ações integradas que vão além da demarcação de parques. Para evitar o desaparecimento da onça-pintada na Mata Atlântica, a gestão ambiental deve focar no controle rigoroso da caça e na recuperação das populações de vida selvagem que servem de alimento ao felino.
Fonte: Global Ecology and Conservation / Agência FAPESP / ESALQ-USP. Artigo original: A perda da base alimentar pode levar a onça-pintada à extinção na Mata Atlântica.



