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Povos pioneiros do norte-noroeste fluminense: a história de um extermínio (II)

Do bom ao mau selvagem: o mito do índio goitacá

Desde o século XVI, o povo goitacá vem sendo cercado de uma aura mítica, como, de resto, todas as etnias pioneiras da América. Até fins do século XVIII, visto como o mais hediondo dos povos da Terra, o mais cruel, o mais bárbaro  mas também o mais destemido entre todas as nações indígenas do Brasil , a partir do século XIX, o goitacá começou a ganhar a roupagem de herói e de mito, sobretudo pelos historiadores historicistas e positivistas. Ao longo de quase cinco séculos, os autores que trataram dos povos pioneiros que habitavam o território compreendido entre os rios Itapemirim e Macaé adotaram, na maior parte dos casos, uma atitude mitogênica, ainda mais que nada restou de sua língua e que apenas um documento iconográfico acerca dele foi encontrada até o momento.

 

 
Índios coroado e coropó Segundo J. M. Rugendas

O mau selvagem

Talvez o primeiro europeu a falar dos goitacás tenha sido Jean de Léry, que não travou com eles contato direto. Suas informações foram colhidas de um intérprete normando, quando sua embarcação navegava as costas da Capitania de São Tomé. Os uetacá, nome que Léry registra, eram considerados índios tão ferozes que não podiam viver em paz com os vizinhos  nativos ou europeus. Extremamente velozes, mostravam capacidade não só de escapar do inimigo mas também de persegui-lo a pé. Tal velocidade lhes permitia capturar, na carreira, animais como veados. Usando “diabólicos”, “invencíveis” e “antropófagos” como adjetivos, Léry pintou um nativo tido como o mais cruel de toda a Índia Ocidental, com traços que lhe conferiam a condição de um enclave cultural em meio aos tupis (LÉRY, Jean de. “História de uma viagem à terra do Brasil”. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1926).

Em 1587, Gabriel Soares de Sousa endossou Léry quanto às singularidades culturais desse povo, inclusive ressaltando suas diferenças físicas, e atribuiu ao goitacás o fracasso de Pero de Góis à frente da Capitania de São Tomé (SOUSA, Gabriel Soares de. “Tratado descriptivo do Brasil em 1587”. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938). De fato, numa das cartas do donatário ao rei de Portugal, já abandonada a capitania, Pero de Góis revelou que teve um olho vazado em escaramuças com os nativos (SOFFIATI, Arthur. “O norte do Rio de Janeiro no século XVI à luz da história mundial e da eco-história”. Rio de Janeiro: Autografia, 2019). No entanto, nunca os classificou de indomáveis.
Gabriel Soares de Sousa insistiu também em considerá-los muito bárbaros, pouco amigos da agricultura, exímios pescadores, caçadores e guerreiros, mas não apreciadores de carne humana. Seu destemor era tanto que capturavam tubarões oferecendo o próprio corpo como isca. Primitivos ao extremo, dormiam em folhas amontoadas no chão, desconhecendo redes. Ainda mais um europeu deu testemunho dos “waytaquazes” ou “wataquazes” no século XVI. Foi Anthony Knivet, que os chamou de canibais e aos quais fez guerra ao lado de Gonçalo Correia. Segundo sua descrição, repleta do maravilhoso, ele conviveu entre os índios puris por bom tempo, estes habitantes das matas situadas entre os rios Itabapoana e Pomba, alastrando-se para o norte (KNIVET, Anthony. “As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony Knivet”. Rio de Janeiro: Zahar, 2007).

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No século XVII, o jesuíta Simão de Vasconcelos, com fortes dotes mitogênicos, traçou um perfil dos goitacás que é utilizado até os dias atuais. Em suas palavras, os Campos dos Goitacases assemelhavam-se aos Campos Elíseos, tais a sua beleza, fertilidade e quantidade de água. Todavia, esse valioso território estava protegido, por um lado, pela natureza hostil e, por outro, pelos ferozes goitacás e outros bárbaros. Antropófagos, esses nativos tinham por mais predileta iguaria a carne de seus inimigos. Divididos em três grupos – goitacá guaçu, goitacá mopi e goitacá jacoritó , diferenciavam-se, porém, dos outros povos em redor por vários costumes. Um deles era morar em casinholas, que mal comportavam uma pessoa, construídas sobre um único esteio de madeira no interior das numerosas lagoas da região. Ferais e silvestres, acumulavam as ossadas dos inimigos abatidos e devorados (VASCONCELOS, Simão de. “A vida do padre João de Almeida, da Companhia de Jesus”. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943).

O relato dos Sete Capitães, que, em 1627, requereram, a título de sesmarias, as terras da devolvida Capitania de São Tomé, desenhou outro retrato dos goitacás. Prevenidos da ferocidade desse grupo indígena, os sete fidalgos, suas famílias e seus agregados, pisaram suas terras com os dedos nos gatilhos de suas armas. Entretanto, foram bem recebidos por ele, que lhes supriu de pesca e caça em abundância. Os sesmeiros encontraram náufragos europeus vivendo entre “a mais bárbara nação do mundo”. Contudo, um dos náufragos advertiu-os de que os violentos goitacás haviam se passado para a margem esquerda do rio Paraíba do Sul, para a tranquilidade de todos. Transferiam-se, assim, o perigo e o mito para outro espaço (GABRIEL, Adelmo Henrique Daumas e LUZ, Margareth da (orgs.); FREITAS, Carlos Roberto B.; SANTOS, Fabiano Vilaça dos; KNAUS, Paulo; SOFFIATI, Arthur (notas explicativas) e GOMES, Marcelo Abreu. “Roteiro dos Sete Capitães”. Macaé: Funemac Livros, 2012).

Ainda no século XVII, Frei Vicente do Salvador e André Martins da Palma informaram que os “intrépidos” goitacás já estavam em processo de desintegração cultural e de extinção física. Salvador, não obstante alertar desconhecer alguém que tivesse mantido contato com os goitacás e retornado com vida, fala de uma “cruel doença de bexigas, que os obrigou a nos irem buscar e ser nossos amigos…” (SALVADOR, Vicente do. “História do Brasil (1500-1627)”. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1982). Palma, numa representação enviada ao rei de Portugal, deu notícia de que dominou o “gentio” e o submeteu como vassalo de Sua Majestade (Representação sobre os meios de promover a povoação e o desenvolvimento dos campos dos Goitacases em 1657. “Revista Trimensal do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil” tomo XLVII, parte I. Rio de Janeiro: Laemmert, 1884).

 

 
Índios Puris segundo J. M. Rugendas

O bom selvagem

Na segunda metade do século XVIII, a imagem dos habitantes indígenas do Distrito dos Campos Goitacás começou a mudar. Manoel Martins do Couto Reis, em seu minucioso relatório de 1785, lançou um olhar marcado pela piedade com os remanescentes dos indígenas (COUTO REIS, Manoel Martins do. “Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reis – 1785: Descrição geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos Goitacazes”. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima; Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2011).

Entretanto, coube ao bispo José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho, nascido em Guarus, iniciar outro desenho para o mito goitacá. Representante do Iluminismo português, Azeredo Coutinho fez uma leitura inversa à de Montesquieu, contestando seu pensamento. A seu juízo, a humanidade é a mesma em todo o tempo e lugar. Só que, ao contrário do que sustentava Montesquieu, o bispo tomou o clima tropical não como um fator de debilidade de plantas, animais e humanos, mas como de fortalecimento de sua compleição. As organizações sociais europeias apontadas por Montesquieu como sinônimo de força, aos olhos de Azeredo Coutinho, parecem manifestações de fraqueza. Fortes são as plantas e os animais africanos e americanos, os negros e os índios, pois o clima tórrido tempera-lhes o corpo e o espírito, levando-os ao individualismo. Partindo dessa concepção, o bispo campista propôs que os índios fossem integrados à civilização européia não através da agricultura, da pecuária e da indústria, mas por meio das atividades em que eram exímios, como o corte e o falquejo de madeiras e a pesca (AZEREDO COUTINHO, José Joaquim da Cunha de. Ensaio sobre o comércio de Portugal e suas colônias. In:  “Obras Econômicas de J. J. da Cunha de Azeredo Coutinho (1794-1804)”. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1966).

O mito do bom selvagem goitacá chegou ao clímax no século XIX. Num longo e minucioso trabalho, Joaquim Norberto de Souza Silva condenou o fracasso dos aldeamentos indígenas na Província do Rio de Janeiro, sempre fundados por religiosos caridosos que não contaram com continuidade (SILVA, Joaquim Norberto de Souza. “Memória histórica e documentada das aldeias de índios da Província do Rio de Janeiro”. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, 3a série, no 14. Rio de Janeiro: 2o trimestre de 1854). Augusto de Carvalho foi complacente com os índios em sua revisão da história de Campos (CARVALHO, Augusto de. “Apontamentos para a História da Capitania de São Tomé”. Campos: Tip. e Lit. de Silva, Carneiro e Comp., 1888). Todavia, nenhum deles superou o positivista e anticlerical Julio Feydit. Debateu ele com Frei Vicente do Salvador, Anthony Knivet, Simão de Vasconcelos e Gabriel Soares de Souza no empenho de demonstrar que os goitacás “… não tinham a ferocidade que diversos autores lhes emprestaram: eles não faziam mais que defender a terra que lhes pertencia e da qual os queriam espoliar (…) Esta tribo, valente até a temeridade, teve por primeiros exploradores os criminosos que fugiam das justiças do Rio de Janeiro e os escravos, que procuravam nas florestas virgens a liberdade que lhes era negada nos povoados! (…) era a humanidade ainda na infância.” (FEYDIT, Júlio. “Subsídios para a história dos Campos dos Goitacases”, 2ª ed. Rio de Janeiro: Esquilo, 1979).

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Recorrendo a Lombroso, Feydit refutou as acusações de que os goitacás eram cruéis por praticarem a antropofagia, de que eram ladrões, alcoólatras e sem religião, ao mesmo tempo em que acusou os europeus por seus bárbaros costumes. Em grande parte, essa defesa tinha por base o humanismo na sua versão positivista e as impressões deixadas pelos viajantes europeus do século XIX. Também o Romantismo deve ser invocado, pois José de Alencar, em “O Guarani”, colocou um índio goitacá como personagem principal do livro.

O século XX tem em Alberto Ribeiro Lamego um grande criador de mitos. Em 1930, ele escreveu um opúsculo em que a luta contra as águas, as florestas, os animais e os índios fez a grandeza do campista (LAMEGO, Alberto Ribeiro. “Campos capital do estado do Rio de Janeiro”. Sem indi¬cação de lugar e de editora, novembro de 1930). Em “O homem e o brejo”, Lamego sustenta a tese de que a planície, entrecortada de lagoas, levou os goitacás a um desenvolvimento diferenciado dos outros povos indígenas brasileiros. O meio produziu uma nação individualista, assim como individualista será o colono que vai sucedê-lo na ocupação do espaço. Retomando Simão de Vasconcelos, ele exclama: “A própria originalidade das suas casas plantadas sobre um só esteio deve ter nascido do refúgio arbóreo nas enchentes bruscas, que afogavam a planície. A árvore com seus galhos acolhedores, salvando-lhes consecutivamente a vida em repetidas cheias, teria feito germinar a idéia de cabanas sustentadas por um tronco, e a arte de construí-las evolveria com o tempo. Daí a transportá-las para o meio das lagoas, com alimento em volta e ao abrigo dos contrários, era um passo a dar (…) Eis a primeira função social do brejo em Campos. Reagindo sobre o índio, compele-o a melhorar-se. Dando-lhe com as inundações a idéia do pouso sobre esteios, leva-o à construção de aldeias lacustres. E estas desenvolvem-lhe faculdades construtivas, um maior senso de poderio e segurança, e com a repressão parcial do nomadismo, o primeiro passo para a fixação à terra, porque a casa já não é tão fácil de fazer. E o isolamento em pequenas cabanas solidifica a estabilidade de família e restringe a poligamia (LAMEGO, Alberto Ribeiro. “O homem e o brejo”, 2º ed. Rio de Janeiro: Lidador, 1974).

Mais recentemente, jornalistas dedicados a estudar a história de Campos, como Osório Peixoto Silva (SILVA, Osório Peixoto. “Os momentos decisivos da história dos Campos dos Goitacazes”. Rio de Janeiro: Petrobrás, 1984) e Hervé Salgado Rodrigues (RODRIGUES, Hervé Salgado. “Campos: na taba dos goytacazes”. Niterói: Imprensa Oficial, 1988), reforçam o mito do índio goitacá como indômito.

 

 
Moritz Rugendas: pescaria
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