Estudo publicado na Scientific Reports identifica clones capazes de produzir até 32% mais sementes mesmo sob o ataque do fungo “lagartão” e em solos de baixa fertilidade.
A vassoura-de-bruxa, doença devastadora causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa, ficou historicamente conhecida por dizimar as plantações de cacau no sul da Bahia na década de 1990. No entanto, o patógeno permanece ativo e desafiador na região amazônica, onde o clima quente e úmido atua como o ambiente ideal para a sua reprodução. Para mitigar esse cenário, uma pesquisa multidisciplinar publicada na revista Scientific Reports revelou uma estratégia sustentável que promete blindar o cacau amazônico, reduzindo drasticamente a dependência de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos.
Conduzido com o apoio da FAPESP na Estação Experimental Frederico Afonso (CEPLAC), em Rondônia, o estudo foi coordenado pelo professor Renato de Mello Prado, da FCAV/UNESP de Jaboticabal. O projeto uniu os esforços científicos da UNESP, da Embrapa Rondônia (Porto Velho), da Universidade Federal de Rondônia (UNIR – Rolim de Moura) e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM – Humaitá).
O diferencial científico: Resolvendo o “dilema de energia” da planta
Tradicionalmente, os programas de manejo tratavam a genética e a adubação como caixas isoladas. A grande inovação deste estudo foi integrar, pela primeira vez, os dados de melhoramento genético ao equilíbrio metabólico e nutricional do cacaueiro.
“Quando atacada por um fungo, a planta enfrenta um dilema biológico: investir energia para crescer e gerar frutos ou gastar essa energia para ativar seus mecanismos de resistência. Mas se ela possuir a genética correta combinada a uma nutrição sob medida, ela supera essa limitação e consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo”, explica o professor Renato de Mello Prado.
Passo a passo: A estratégia dos clones EEOP 63 e EEOP 65
A equipe de cientistas avaliou detalhadamente 25 cultivares de cacau sob o estresse do fungo (conhecido localmente na Amazônia como “lagartão”) e em solos intemperizados. O processo de seleção que identificou os clones EEOP 63 e EEOP 65 seguiu três critérios fundamentais de desempenho:
- Passo 1: Eficiência na absorção mineral – Os dois clones selecionados demonstraram uma capacidade superior de extrair e metabolizar nutrientes essenciais mesmo em solos ácidos e pobres. Eles se destacaram por manter altas concentrações de Fósforo ($P$), Potássio ($K$), Cálcio ($Ca$) e Magnésio ($Mg$).
- Passo 2: Correção do déficit de boro – A pesquisa identificou que a maioria das amostras de solo amazônico sofria com a falta crônica de boro, um micronutriente negligenciado, mas vital para a integridade da parede celular e para a frutificação do cacau. Os clones selecionados otimizam o uso do boro para blindar as células contra a penetração do fungo.
- Passo 3: Controle do excesso de nitrogênio – Solos desequilibrados acumulam nitrogênio não metabolizado nas folhas, gerando aminoácidos livres que servem de alimento direto para o fungo prosperar. As duas variedades identificadas conseguem sintetizar esse nitrogênio rapidamente, “esfomeando” o patógeno.
- Passo 4: Salto de produtividade – Como resultado desse equilíbrio mecânico e genético, as duas cultivares registraram um aumento de produtividade de até 32% na colheita de sementes quando comparadas às variedades comerciais mais suscetíveis da região.
Caminho aberto para a agricultura de baixo carbono
Para a pesquisadora Edilaine Istéfani Franklin Traspadini, bolsista de pós-doutorado da FAPESP, a descoberta confirma que a tolerância a patógenos na Amazônia não deve ser buscada como uma característica genética isolada, mas sim modulada pela saúde nutricional da planta. Ao fortalecer o sistema imunológico vegetal através de minerais equilibrados, abre-se uma rota barata e eficiente para a transição agroecológica na floresta.
Os autores enfatizam que a diversidade de clones dentro de uma mesma propriedade é o segredo de longo prazo para garantir a resiliência econômica dos agricultores locais, oferecendo barreiras variadas contra as mutações do fungo e impulsionando a bioeconomia da Amazônia de forma duradoura.
Fonte: FAPESP



