A disputa global por elementos de terras raras — essenciais para baterias de carros elétricos, smartphones e turbinas eólicas — está ganhando um aliado inesperado: a biologia. Enquanto nações como os EUA e a China competem por depósitos minerais, cientistas na Áustria e no Texas provam que esses materiais valiosos estão “escondidos à vista de todos” em pilhas de lixo e solos contaminados.

O poder do “mycomining” (mineração micológica)
Na Universidade de Viena, pesquisadores estão utilizando o micélio (a rede de raízes dos fungos) para extrair minerais. Diferente das plantas, os fungos crescem rápido, no escuro e são extremamente resistentes.
- Como funciona: O fungo absorve as terras raras do solo ou de resíduos eletrônicos. Depois, a biomassa é colhida, processada para gerar biogás (combustível) e as terras raras são recuperadas das cinzas restantes.
- Biorremediação: Além de obter o minério, o processo limpa terrenos industriais contaminados, unindo lucro e recuperação ambiental.


O tesouro escondido nas pilhas de rejeitos
Não são apenas os fungos que estão no jogo. Especialistas afirmam que os Estados Unidos e outros países desenvolvidos podem alcançar a autossuficiência apenas processando o que hoje é considerado “lixo”.
- Cinzas de carvão e lama vermelha: Somente nos depósitos de cinzas de carvão dos EUA, estima-se que existam US$ 8,4 bilhões em terras raras. A “lama vermelha” (rejeito do alumínio) possui concentrações desses metais até 20 vezes maiores que as encontradas na crosta terrestre.
- Flash Joule (aquecimento instantâneo): Na Universidade Rice, um novo método usa pulsos elétricos para aquecer resíduos a milhares de graus, transformando as terras raras em vapor para serem capturadas. É um processo portátil, que pode ser levado em caminhões até as montanhas de lixo.
O desafio econômico

O grande entrave atual não é a tecnologia, mas o preço. Historicamente, tem sido mais barato cavar a terra do que filtrar resíduos. No entanto, o cenário está mudando por dois motivos:
- Estratégia nacional: Países querem reduzir a dependência de 90% da China no processamento desses materiais.
- Simbiose industrial: Ao extrair terras raras do lixo, as empresas também realizam a limpeza ambiental (remediação), reduzindo custos de manutenção de barragens de rejeitos e criando subprodutos valiosos, como carbono para filtros de água.
“Se olharmos para o lixo com outros olhos, veremos um panorama diferente entre escassez e abundância”, resume a pesquisadora Julie Klinger. O futuro da mineração sustentável parece ser, literalmente, uma questão de perspectiva.
Fonte: BBC News



