Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Manguezal enclausurado da lagoa dos Ossos

Especialistas identificam três feições de manguezais. Três tipos fisiográficos. O mangue ribeirinho é o mais comum. Trata-se daquele bosque que se desenvolve no estuário de rios da zona intertropical, onde o encontro de água doce e salgada cria ambiente propício para o crescimento de espécies de mangue. O segundo é o mangue de bacia, que cresce em depressões em margens de rios perto da foz no mar, sempre na região intertropical. O substrato dessas depressões raramente fica exposto com o recuo das marés. A água acumulada em seu interior acaba selecionando as espécies de mangue mais resistentes a lâminas d’água estabilizadas. O terceiro tipo é o mangue de borda ou franja. Trata-se de bosques que se desenvolvem em praias sem a necessidade de água doce em sua retaguarda.

Em Búzios, na Região dos Lagos, existem mangues ribeirinhos e de franja. Entre os poucos ribeirinhos, podemos reconhecer os manguezais do rio Una e de dois córregos na praia de Manguinhos. Alguns mais devem ter existido no passado. Os de franja são o Mangue de Pedra e os mangues da Ponta da Sapata e da Praia da Foca. Ressalve-se que o Mangue de Pedra conta com uma fonte de água doce na falésia situada em sua retaguarda. Ela acumula água de chuva que verte por sua base e se mistura com a água do mar. Existem depressões no território municipal de Búzios, mas elas não são alcançadas pelas marés para a formação de mangues de bacia.

Nas minhas andanças pelos territórios fluminense e capixaba para o estudo de manguezais, encontrei uma feição que parecia não se enquadrar nas três existentes. Os bosques cresciam em lagoas alongadas junto à costa, sugerindo antigos rios com a foz barrada por ação natural ou antrópica. Pareciam rios com foz no mar que formavam estuários e que apresentavam condições propícias para o desenvolvimento de manguezais ribeirinhos. Com o fechamento da foz de forma permanente ou periódica, as marés não entravam mais nos rios. Eles se tornaram, assim, lagoas alongadas. Com a abertura natural ou antrópica pelo acúmulo de água no seu interior ou por força do mar, as barras voltam a abrir.

Nessas condições, o manguezal deve se adaptar ou morrer. As espécies de mangue são plásticas e podem se moldar à nova realidade. Na lagoa do Siri, no sul do Espírito Santo, a estabilização da lâmina d’água eliminou quase totalmente o mangue branco e a siribeira por deixar suas raízes respiratórias afogadas por longo período. O mangue vermelho passou a ser dominante porque as lenticelas (estruturas nas raízes e no caule que ajudam a planta a respirar) foram afogadas por longos períodos. O mangue vermelho resistiu porque as lenticelas se deslocaram para a parte emersa das ramificações do caule.

Bosque de mangue vermelho na lagoa do Siri (ES). Foto do autor

Em outras lagoas do sul do Espírito Santo, a acumulação de água doce favorece a invasão de plantas que competem com as espécies exclusivas de mangue. A estabilização da lâmina d’água pode ainda exigir mudanças adaptativas estruturais de espécies exclusivas. O sul do Espírito Santo é um laboratório vivo sobre manguezais enclausurados. Neles, as folhas das plantas não são exportadas logo para o mar em forma de partículas, mas já dissolvidas quando a comunicação com o mar se restabelece naturalmente ou por ação humana. Esses manguezais se situam entre os ribeirinhos e os de bacia.

Mangue misturado com plantas invasoras na lagoa das Pitas (ES). Foto do autor

Em Búzios, existe um mangue que passa despercebido para as pessoas leigas. Ele se desenvolveu na lagoa dos Ossos e está muito reduzido pelas condições adversas. A lagoa situa-se bem próxima da costa. Um fluxo de água doce, talvez um antigo córrego, desce da parte alta e alimenta a lagoa. Hoje, esse pequeno curso está muito poluído e oculto sob as ruas. Ele corre por bueiros.

Por outro lado, informação fornecida por Osmane Simas de Araújo, nascido e criado em Búzios, a lagoa se comunicava com o mar por meio de um canal. As marés entravam nele e chegavam à lagoa, transportando sementes (propágulos) das espécies de mangue encontradas em Búzios: mangue branco (Laguncularia racemosa), mangue vermelho (Rhizophora mangle) e siribeira (Avicennia schaueriana). Esse canal, que comunicava a lagoa ao mar, está fechado. Restou dele apenas uma grade na boca de um bueiro na margem da lagoa.

Vista geral da lagoa dos Ossos. Foto Carolina Mazieri

Por um lado, a lagoa foi cercada pela cidade. Por outro, existe vegetação nativa e espontânea. É grande a quantidade de lixo numa das margens. Das três, só foi encontrado o mangue branco. Há vários exemplares dele na lagoa. Como nos manguezais de Manguinhos, Porto da Barra e Sapata, as árvores de mangue branco crescem muito, com troncos retos e grossos. Na lagoa dos Ossos, eles não mostram mais raízes respiratórias, mas sim raízes que partem do tronco, como nas árvores das matas de igapó, na Amazônia, sugerindo inundações frequentes e submersão das bases das árvores. É mangue branco, mas não se comporta como tal.

Exemplares de mangue branco na lagoa dos Ossos. Foto do autor

Há também espécies associadas ou invasoras de mangue perturbado ou degradado, como samambaia-do-brejo (Acrostichum aureum), a mais frequente, mololô (Annona glabra), algodeiro da praia (Hibiscus pernambucensis) e aroeira (Schinus terebinthifolia). Na parte mais alta da margem não ocupada por ruas, estacionamento e construções, a mata de restinga predomina. Na margem oposta, há calçamento e bancos. Uma placa indica o nome da lagoa e outra anuncia que ela está passando ou passará por processo de revitalização. As condições ambientais parecem precárias, mas tocas de guaiamum, aves aquáticas e pequenos mamíferos frequentam a lagoa e suas margens.

Samambaia do brejo e mololô na lagoa dos Ossos
Samambaia do brejo e mololô na lagoa dos Ossos

A lagoa merece não apenas ser revitalizada como ser mais estudada. Em termos de revitalização, caberia eliminar o esgoto despejado nela pelo córrego sob ruas que a alimenta com água doce, além das chuvas e do lençol freático. Todo o lixo deve ser retirado de suas margens, proibindo-se que ele seja novamente lançado.

Principalmente, um canal de comunicação com o mar deve ser aberto, apesar de toda a urbanização consolidada que a separa da praia.

Tocas de guaiamum na margem da lagoa dos Ossos. Foto: Carolina Mazieri

Assim recuperada, a lagoa poderá propiciar um comportamento normal aos exemplares de mangue branco e a entrada de sementes das duas outras espécies. O desenvolvimento de espécies associadas indica que a água da lagoa agora é doce. É preciso medir a salinidade. Cabe permitir que a lagoa volte a ser tipicamente costeira de novo com a entrada de água salgada.

Canalização do córrego alimentador da lagoa dos Ossos. Foto: Carolina Mazieri
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