Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Manguezais da Região dos Lagos: uma atualização

Distingo duas regiões dos lagos. A grande se estende da serra do Inoã ao rio Macaé. A partir deste, a costa apresenta outra configuração: é nova, baixa e desprovida de pedras. A pequena é a que se conhece mesmo como Região dos Lagos, estendendo-se da serra do Inoã ao rio Una. Não importa aqui considerar a zona costeira de cada município dela porque as divisões administrativas não acompanham necessariamente a realidade natural.

De todos os ecossistemas vegetais nativos, o manguezal é um dos poucos que não depende da flora continental, pois é constituído de espécies vegetais provenientes de outros lugares. Elas se enraízam em ambientes costeiros propícios, como estuários e praias calmas. Daí, emitem sementes (propágulos) que caem na água e são transportadas para outros pontos também favoráveis ao enraizamento pelas marés e correntes marítimas.

Podemos distinguir, na pequena Região dos Lagos, dois ambientes para a formação de manguezais. O primeiro é a enseada que se forma entre o rio Una e a Ponta da Sapata. Cabo Frio e Búzios dividem esse território, cabendo a Búzios a maior parte. Com salinidade e energia marinha atenuadas, existem na enseada condições favoráveis à formação de manguezais de franja ou borda, um tipo fisiográfico que não depende necessariamente de estuários, que pressupõem rios.

O segundo ambiente se estende do final da Ponta da Sapata à serra de Inoã, onde domina o mar aberto, com grande energia, e lagoas com salinidade variável. De um lado, o mar aberto é um fator limitante para o enraizamento de plantas de mangue. De outro, a salinidade e o semi-fechamento das lagoas também dificultam o crescimento de manguezais.

Enseada de Búzios

O maior rio da pequena Região dos Lagos desemboca na enseada de Búzios. Trata-se do rio Una. Embora com cerca de 40 quilômetros de extensão apenas, sua dimensão longitudinal só foi possível por ele correr na direção oeste-leste, acima das lagoas e paralelo ao rio São João, desembocando no mar. Os outros rios da região correm de norte para sul, sendo logo interceptados por lagoas. Nas visitas feitas à foz do Una, entre 2004 e 2014, sua foz fazia uma curva em direção ao sul, revelando a direção da corrente marinha predominante. Com a canalização de sua bacia pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento, a partir da década de 1940, houve redução de vazão. Voltando à região em fins de 2021, notou-se que a foz desemboca agora de maneira perpendicular à praia com o mangue mais interiorizado no estuário. Trata-se de um típico manguezal ribeirinho com três das seis espécies da costa brasileira.

Essa mudança no trecho final do seu curso pode indicar aumento de vazão do rio. Existem suspeitas de que uma das concessionárias de água e esgoto da Região dos Lagos esteja lançando efluentes de esgoto tratado nos três principais afluentes do rio aumentando o volume fluvial. Nota-se que, a partir do Una, existe a tendência de se formar manguezais de franja ou de borda. Resquícios de um manguezal desse tipo ainda são vistos na margem direita do Una. Sendo um típico mangue ribeirinho, o do Una conta com as três espécies encontradas ao sul do rio das Ostras: mangue vermelho (Rhizophora mangle), mangue preto ou siribeira (Avicennia schaueriana) e mangue branco (Laguncularia racemosa), além de espécies concorrentes não-exclusivas de manguezal.

Foz do rio Una em 2021

Logo abaixo do rio, existe agora um curso hídrico diminuto cuja origem não se pôde detectar. Nele, ainda não houve o enraizamento de espécies de mangue, mas as condições são propícias para tanto.

Novo curso hídrico, paralelo ao rio Una

Ao sul do rio Una, localiza-se o primeiro manguezal tipicamente de borda, embora, na sua retaguarda situe-se uma colina com falésias que acumula água de chuva e funciona como uma cisterna. A água doce verte para o mar e atenua a salinidade, criando ambiente adequado para o famoso Mangue de Pedra. É de se supor que esse mangue poderia se desenvolver naquela praia coberta de pedregulhos se não houvesse o aporte de água doce. Existem manguezais de franja em vários lugares do mundo em condições bastante adversas, crescendo em meio a pedras e a formações coralígenas. Esse bosque de mangue era formado por siribeira e mangue branco. Agora, um exemplar de mangue vermelho fixou-se nele, já tendo alcançado a fase jovem. Ele pode indicar a redução da salinidade da água ou simplesmente um exemplar da espécie que conseguiu de enraizar entre as pedras da praia.

Mangue de Pedra em 2021

Ao sul do Mangue de Pedra, existia o rio Trapiche, aproveitado para a instalação da Marina de Búzios. Agora, excessivamente ampliada para os lados pelo projeto Aretê. No final da marina, junto à estrade de acesso a Búzios, foi instalada agora um bueiro de metal que permite escoar as águas do que sobrou do rio Trapiche, principalmente em tempos de enchente. O estuário recuou para o fim da marina e permitiu o enraizamento de alguns exemplares de mangue branco. A montante da rodovia, é nítida a presença do rio Trapiche, por mais adulterado que se apresente. Em direção a sua nascente, não muito distante da estrada, existem banhados ameaçados pela urbanização. Eles deveriam ser protegidos pelo poder público com recursos do projeto Aretê, na forma de compensação ambiental. Da mesma maneira, a criação de áreas planas e baixas no fim da marina ajudariam a formação de um bosque de mangue.

Rio Trapiche a montante da marina em 2021

Em direção ao centro da cidade de Búzios, encontra-se o pequeno manguezal de Manguinhos, um reduzido curso d’água acossado pela urbanização e pela poluição orgânica.

Córrego de Manguinhos com altos exemplares de mangue branco, Foto: Carolina Mazieri

Junto ao Porto da Barra, nome nunca associado à pequena barra de um córrego, cresceu também um mangue ribeirinho. O córrego acabou sendo transformado em vala de esgoto. Houve transformações profundas. O córrego foi desviado para a direita e continua servindo como vala de esgoto que contamina a praia de Manguinhos. O antigo leito foi transformado num lago, ao lado do qual instalou-se um restaurante que preservou os altos e lenhosos exemplares de mangue branco. A margem desse lago junto à praia foi alteada para que as marés não invadam o lago, cuja água é renovada por bombeamento de água do mar. O estuário foi antropicamente alterado. Alguns exemplares de mangue vermelho já crescem nele, mas é preciso recriar a foz e o estuário.

Aspecto da lagoa no Porto da Barra em 2021: siribeira (E) mangue branco (D)

Em direção à Ponta da Sapata, existe ainda um pequeno mangue de franja com exemplares de mangue branco e de siribeira. O isolamento parece concorrer para a sua proteção. Talvez ele seja fragmento de um manguezal de franja mas extenso no passado e que foi fragmentado.

Pequeno bosque de mangue próximo da Ponta da Sapata (2021)

A enseada de Búzios finda na Ponta da Sapata. O maior manguezal de Búzios se encontra aí. Seu tipo fisiográfico é também de borda. Em parte, a praia é recoberta de pedras. A diversificação vegetal também aumentou. As três espécies exclusivas são encontradas aí. Antes, só havia altos exemplares de mangue branco e de siribeira. Agora, enraizaram-se alguns exemplares de mangue vermelho. Esse bosque termina no ponto em que as águas tranquilas da enseada se encontram com as fortes ondas do mar aberto, o que parece ser indicado com a redução do tamanho das plantas e o fim da ocorrência delas.

Visão de conjunto do mangue da Ponta da Sapata (2021)

Na face do mar aberto, cumpre registrar o enraizamento de um exemplar de siribeira e um de mangue branco na Praia Brava. O primeiro apresenta grande resistência à salinidade, mas o segundo não. Ambos já alcançaram a fase adulta e podem povoar a praia, criando nela um pequeno manguezal.

Exemplar florido de siribeira na Praia Brava, em Búzios (2021)

Na praia de Foca, a pequena população de siribeira detectada nas visitas anteriores ganhou estatura e se mostra bastante sadia, florescendo e produzindo muitos propágulos.

Pequeno bosque monoespecífico de siribeira com flores e propágulos na Praia da Foca, Búzios (2021)

Uma busca rigorosa pode localizar manguezais em outras praias de Búzios, já que os casos das praias Brava e da Foca não parecem propícias, à primeira vista, para a fixação de plantas de mangue. No entanto, elas estão lá, crescendo na areia.

Lagoas

Ao entrar nos complexos lagunares de Araruama, Saquarema e Maricá, espécies de mangue serão encontradas dependendo do grau de salinidade. Sabe-se que a lagoa de Araruama é hipersalina. Logo na entrada do canal de Itajuru, que a comunica com o mar, encontra-se a ilha do Japonês, onde pequenas populações de mangue se desenvolveram. Pouco adiante, na margem esquerda do canal, na planície de Ogiva, mais agrupamentos de mangue aparecem. As espécies mais frequentes são a siribeira (Avicennia schaueriana) e o mangue-de-botão (Conocarpus erectus). Ambos apresentam grande resistência à salinidade, embora o mangue-de-botão não seja uma espécie exclusiva de manguezal.

Pequeno bosque de siribeira em Ogiva com espécies invasoras. Cabo Frio

Os dois serão encontrados nas bordas da lagoa de Araruama em vários pontos. Também nos pequenos rios que desembocam nela, como o pequeno rio Salgado.

Exemplares de siribeira na lagoa de Araruama
Mangue-de-botão na lagoa de Araruama
Rio Salgado junto à foz, na lagoa de Araruama

No conjunto lagunar de Saquarema, a salinidade parece reduzir-se, permitindo o desenvolvimento, aqui e acolá, do mangue branco. Nenhum exemplar de mangue vermelho foi avistado. Espécies concorrentes halo-tolerantes, como a samambaia-do-brejo (Achrostichum aureum) invadem os bosques, bem como espécies exóticas, como a amendoeira e a casuarina. A ocorrência de taboa (Thypha domingensis) indica a existência de água doce.

População de taboa junto a plantas de mangue no sistema lagunar de Saquarema

Em direção ao complexo lagunar de Maricá, parece que a salinidade diminui mais ainda. Nos locais visitados, existem bosques com a predominância de mangue branco, o mais comum nos manguezais. Em vários pontos das margens, existem colinas erodidas, na base das quais, formam-se pequenas planícies que sofrem influência das marés, já que o sistema de cinco lagoas se liga ao mar. É nessas planícies que crescem as plantas de mangue e outras oportunistas, como a samambaia-do-brejo. A presença de trepadeiras indica ou a degradação do manguezal ou a proximidade de outras formações vegetais. Os mangues nas planícies junto a colinas se confundem com outros tipos de vegetação, embora mangue não suba morro. Ele cresce em terras atingidas por marés.

Bosque de manguezal em estreita planície do complexo lagunar de Maricá

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