Para celebrar o Dia Mundial do Meio Ambiente (05/06), “Cyber PANC e Só Zé” convida o público infantojuvenil a transformar a ansiedade climática em ação coletiva e tecnologias de baixo impacto.
À medida que o Dia Mundial do Meio Ambiente se aproxima, a necessidade de criar novas narrativas para dialogar com as próximas gerações sobre a emergência climática se torna urgente. Longe dos discursos puramente catastróficos ou das falsas promessas de salvamento tecnológico de alta complexidade, o livro “Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um poder pifado e outras caraminholas” (selo Escarlate, Companhia das Letras, 2026) surge como um respiro e um convite prático à ação.
Escrito pela premiada pesquisadora e roteirista Mariana Brecht e ilustrado com a sensibilidade bem-humorada de Lumina Pirilampus (dupla finalista do Prêmio Jabuti por A Menina com os Pés no Chão), a obra de 216 páginas constrói uma São Paulo futurista onde o colapso ambiental não deu origem a uma distopia sem saída, mas sim a uma reorganização profunda baseada no apoio mútuo, no manejo da terra e na cultura do cuidado comunitário.
O enredo: A crise climática pelos olhos de quem vai herdar o mundo
No universo de 2070 idealizado por Mariana, a crise climática deixou de ser uma abstração de relatórios e passou a ser a experiência cotidiana. Ali, as soluções dependem de tecnologias low-tech (baixa tecnologia) e gestão inteligente de resíduos. A história cruza os caminhos de dois protagonistas cativantes:
- Cyber PANC: Uma menina extrovertida criada em uma fazenda agroecológica que carrega um dom extraordinário — a capacidade de fazer plantas brotarem com as próprias mãos. Porém, após sofrer o luto pela perda de sua tia na capital, seu poder entra em curto-circuito e ela decide fugir de casa rumo à cidade.
- Só Zé: Um garoto tímido, recluso e diagnosticado com ansiedade climática. Ele vive na comunidade urbana de Minhoquinha e frequenta uma escola adaptada aos novos tempos, com disciplinas voltadas para a sobrevivência e resiliência biológica, como Gambiarra Avançada, Territórios Além-Bairro e Preparação Física para Manejo Agroflorestal.
Para desvendar os mistérios da cidade e recuperar o poder adormecido de Cyber PANC, os dois iniciam uma jornada dividida em três partes geográficas distintas. Eles cruzam o Composto das Yata’is (onde vivem pessoas meio-gente-meio-abelha), encontram o Povo da Laje (uma comunidade quase ciborgue que vive no topo de um arranha-céu com pavor de descer ao solo) e aprendem, no Jardim das Esfinges, uma lição fundamental da biologia: na natureza não existem pragas, apenas desequilíbrios ecossistêmicos.
Das páginas para a terra: O conceito de solastalgia e os cadernos práticos
A obra se diferencia por não deixar o leitor na passividade da leitura. Mariana Brecht traz para a linguagem infantojuvenil o conceito de solastalgia — a dor e a angústia causadas pela transformação e degradação do território que amamos.
“Por mais que seja um tema duro, é uma realidade percebida pelas crianças e jovens, que precisam de meios, recursos e maneiras de exprimi-la”, pontua a autora, que também usou sua própria experiência com a ansiedade para construir a personalidade de Só Zé.
O guia prático ao fim do volume
Como um verdadeiro manual de transição ecológica para os jovens, o livro encerra com cadernos de apoio imersivos que transformam a leitura em experimentação real no quintal de casa ou do apartamento. O volume inclui:
- Receitas Sustentáveis: Focadas em PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais);
- Jogos e Cartilhas: Dinâmicas que ensinam sobre gestão de resíduos e compostagem;
- Glossário Ecológico: Um minidicionário de termos científicos e ambientais traduzidos para o público infantojuvenil.
Sobre a autora: Uma narradora multimídia do colapso climático
Nascida em São Roque (SP), zona de transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado, Mariana Brecht é escritora, roteirista e narrative designer de jogos digitais. Mestra pela Université de Toulouse e pesquisadora da ECA-USP, sua produção é fortemente influenciada por grandes pensadores da ecologia profunda e da antropologia contemporânea, como Ailton Krenak, Donna Haraway, Bruno Latour e Antônio Bispo.
Mariana é uma voz de destaque na convergência entre arte, tecnologia e meio ambiente. Ela foi co-roteirista e narrative designer de “A Linha”, jogo em realidade virtual vencedor de um Primetime Emmy Award e premiado no Festival de Veneza. Além da literatura e dos games, ela integra o projeto musical Intraterrestres, focado em performances e canções que provocam a reflexão sobre o impacto humano na biosfera.
“Cyber PANC e Só Zé”, é uma leitura essencial para este Dia do Meio Ambiente, reforçando a mensagem central da obra: a crise climática é grande demais para ser enfrentada individualmente, mas ganha novos horizontes quando combatida por redes de afeto, amizade e mãos conectadas à terra.
Ficha Técnica do Lançamento:
- Título: Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um poder pifado e outras caraminholas (2026)
- Autora: Mariana Brecht | Ilustrações: Lumina Pirilampus
- Editora: Companhia das Letras (Selo Escarlate) | Páginas: 216
- Apoio: Fomento da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB)



