Pesquisadores alertam para os riscos do herbicida diquat, substância amplamente usada como substituta do glifosato nos Estados Unidos. De acordo com uma nova análise científica apresentada pelo The Guardian, o diquat tem potencial para causar sérios danos à microbiota intestinal e a diversos órgãos humanos, incluindo fígado, rins e pulmões.
A substância, já banida pela União Europeia, Reino Unido, China e outros países, continua em uso nos EUA — inclusive em produtos como o herbicida Roundup. A decisão da Agência de Proteção Ambiental (EPA) de manter o produto liberado, mesmo com indícios de sua alta toxicidade, vem sendo criticada por especialistas e ambientalistas.
Dano silencioso ao corpo humano
O estudo aponta que o diquat age principalmente por meio de estresse oxidativo, desencadeado pela liberação de espécies reativas de oxigênio (ERO). Esse processo provoca inflamação generalizada, enfraquece a barreira intestinal e compromete a produção de proteínas essenciais para a proteção do trato digestivo. Como consequência, toxinas e patógenos passam a circular na corrente sanguínea, agravando o quadro inflamatório e sobrecarregando o organismo.
Além do intestino, o diquat interfere na absorção de nutrientes, no metabolismo energético e atinge estruturas sensíveis como fígado, rins e pulmões, podendo provocar disfunções orgânicas irreversíveis. Segundo os autores, há risco de desenvolvimento da síndrome de disfunção de múltiplos órgãos em casos de exposição contínua à substância.
Substituição perigosa
O uso crescente do diquat está relacionado à tentativa de substituir produtos como o glifosato e o paraquat, cada vez mais limitados por regulações internacionais. No entanto, dados da EPA analisados pela organização Friends of the Earth revelam que o diquat pode ser até 200 vezes mais tóxico que o glifosato em exposições crônicas.
“O diquat representa um retrocesso no combate aos agrotóxicos tóxicos. É um substituto lamentável, tolerado por uma estrutura regulatória ultrapassada”, criticou Nathan Donley, diretor científico do Centro para Diversidade Biológica.
Falta de regulamentação nos EUA
Apesar da crescente preocupação científica, o diquat ainda não está sendo revisado pela EPA, e poucas organizações pressionam por sua proibição. Especialistas apontam que a negligência em relação a esse herbicida se deve ao foco em outros compostos como o paraquat e o glifosato, cujos riscos à saúde já são amplamente reconhecidos.
“Enquanto a Europa venceu essa batalha há 20 anos, os EUA ainda travam discussões básicas sobre o tema”, disse Donley.
Novas investigações são urgentes
Os autores do estudo destacam a necessidade de mais pesquisas sobre os efeitos da exposição prolongada a pequenas quantidades de diquat. Com o crescimento do uso desse químico na agricultura, há risco de impactos silenciosos à saúde pública e ao meio ambiente.


