Estudo apoiado pela ONU confirma contaminação por metais pesados em solo e recifes; munições da Segunda Guerra Mundial agora ameaçam a saúde infantil e a segurança alimentar local.
Um estudo inédito realizado em parceria com as Nações Unidas trouxe evidências científicas para uma suspeita de décadas dos habitantes das ilhas do Pacífico Sul: a presença de um legado tóxico persistente. A pesquisa confirmou a contaminação por metais pesados como chumbo, arsênio e cádmio, além de resíduos de explosivos, decorrentes da corrosão de munições não detonadas (conhecidas como UXO) que fazem parte do cotidiano da região.
Financiado pelo Governo do Japão e apoiado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o estudo foi liderado pela Dra. Stacey Pizzino, da Universidade de Queensland. Segundo a pesquisadora, o risco para a população está em ascensão devido à interação constante, muitas vezes acidental, com esses artefatos históricos.
Perigo no cotidiano e impactos na infância
A presença das munições é onipresente: são vistas nos recifes durante trajetos de barco e até utilizadas como âncoras para canoas. O relato mais alarmante envolve crianças que interagem regularmente com os dispositivos, chegando a retirar explosivos de dentro deles para criar fogos de artifício improvisados.
Os impactos na saúde já são observados na ponta:
- Irritações e úlceras: Relatos frequentes de irritação ocular e erupções cutâneas.
- Contaminação via amamentação: Bebês desenvolveram furúnculos e úlceras bucais após as mães consumirem frutos do mar de áreas suspeitas.
- Danos cerebrais: Testes em poeira de munições confiscadas revelaram níveis extremos de chumbo. “Não existe nível seguro de chumbo para crianças; isso impacta diretamente o desenvolvimento cerebral”, alerta a Dra. Pizzino.
Ameaça à cadeia alimentar e aos ecossistemas
As amostras coletadas em locais como Lever’s Point revelaram altas concentrações de compostos explosivos, como TNT e PETN, no solo e em organismos marinhos, incluindo moluscos. Essa contaminação química vaza gradualmente para o ambiente, comprometendo a biodiversidade dos recifes e a base da alimentação das comunidades costeiras.

O desafio da desativação e o futuro das ilhas
Tornar o terreno seguro novamente é um processo lento e de alta complexidade. Para as comunidades locais, a atuação das unidades de desativação de explosivos representa a possibilidade de retomar atividades básicas de subsistência com segurança. “Quando sabemos que a área está limpa, podemos plantar e não nos preocupamos com as crianças”, afirma Fred, agricultor da ilha de Gavatu.
O PNUD reforça que o tempo é um fator crítico. “Produtos químicos perigosos continuam vazando, prejudicando a vida marinha e as comunidades”, afirma Raluca Eddon, representante do órgão. Embora o estudo não estabeleça uma relação causal definitiva em todo o país, a combinação de evidências ambientais e padrões de saúde aponta para um risco crível e crescente que exige remoção urgente e ações de descontaminação.
Fonte: ONU News




