Um peixe rivulus de mangue. Crédito: Vassil, CC0, via Wikimedia Commons
Um peixe rivulus de mangue. Crédito: Vassil, CC0, via Wikimedia Commons

Efeito calmante: Composto de cogumelos mágicos reduz agressividade em peixe

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Estudo inovador com peixes-do-mangue revela que a psilocibina atenua comportamentos violentos e de alto gasto energético, abrindo portas para entender a sinalização neural em vertebrados.

A psilocibina — o composto químico e psicoativo presente em mais de 200 espécies de cogumelos, principalmente do gênero Psilocybe — é amplamente estudada por sua capacidade de se ligar aos receptores de serotonina no cérebro de mamíferos, alterando o humor, o apetite e as emoções. No entanto, o seu impacto detalhado sobre o comportamento social e a agressividade dos animais ainda era um território pouco explorado pela ciência.

Agora, um estudo publicado na revista científica Frontiers in Behavioral Neuroscience por pesquisadores do Canadá trouxe respostas fascinantes utilizando um modelo animal incomum: o peixe-do-mangue (Kryptolebias marmoratus). Os resultados mostram que a substância, quando dissolvida na água, atua como um potente modulador comportamental, tornando os indivíduos menos agressivos.

O modelo perfeito: O peixe-do-mangue

O peixe-do-mangue foi escolhido cirurgicamente para o experimento por duas razões biológicas fundamentais:

  1. Agressividade inerente: Eles são territorialistas e naturalmente agressivos quando colocados diante de outros indivíduos, tornando qualquer sutil mudança de comportamento fácil de ser detectada.
  2. Clones naturais: Esta espécie é autofecundável, gerando embriões geneticamente idênticos. Isso garante ao robô analítico dos cientistas que qualquer alteração comportamental seja efeito exclusivo da psilocibina, e não de variações genéticas entre os peixes.

Menos ataques, mesma socialização

Durante os testes conduzidos na Universidade Acadia e na Universidade da Colúmbia Britânica, os peixes focais foram expostos a uma dose baixa e aguda de psilocibina por 20 minutos antes de interagirem com seus pares. O monitoramento das reações revelou uma modulação seletiva surpreendente:

  • Redução de comportamentos de alta energia: Os peixes tratados apresentaram uma queda drástica nas chamadas “rajadas de natação” — que são os comportamentos de ataque e investidas violentas sem contato físico direto.
  • Preservação da comunicação social: Curiosamente, comportamentos de menor gasto energético, como as exibições frontais (usadas pelos peixes para comunicação e avaliação social mútua), permaneceram intactos.
  • Ritmo preguiçoso: Os peixes sob o efeito do composto também reduziram o tempo total gasto em movimento, adotando uma postura mais calma e poupadora de energia.

“O efeito calmante da psilocibina parece reduzir seletivamente conflitos sociais exacerbados e energeticamente dispendiosos, em vez de interromper completamente a interação ou o comportamento social do animal”, explicou Dayna Forsyth, pesquisadora associada do estudo.

O futuro da pesquisa terapêutica

Embora a equipe reforce que os resultados obtidos em peixes não possam ser diretamente extrapolados para tratamentos clínicos em seres humanos, o sucesso do modelo abre caminhos valiosos para a neurociência de longo prazo.

Em experimentos de triagem de medicamentos, modelos de vertebrados não humanos permitem mapear quais vias de serotonina são ativadas e como a substância altera a sinalização neural. São perguntas complexas cujas respostas seriam impossíveis ou antiéticas de se obter diretamente em humanos em fases iniciais de testes. O pequeno peixe-do-mangue prova que a chave para desvendar distúrbios de agressividade e comportamento pode estar na simbiose entre a química dos fungos e os segredos da biologia aquática.

Fonte: Frontiers

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