Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Breve nota sobre uma espécie rara de mangue

À memória de Tania Mara Simões do Carmo

Existem nove espécies de mangue nas costas atlântica e pacífica da América do Sul: Rhizophora mangle, R. racemosa, R. harrisonii, Avicennia germinans, A. schaueriana, A. bicolor, Laguncularia racemosa, Conocarpus erectus e Pelliciera rhizophorae. O oceano Índico é bem mais próspero em espécies. Os gêneros Rhizophora e Avicennia são os mais bem representados no mundo dos manguezais. O gênero Laguncularia conta apenas com uma espécie. O gênero Conocarpus também. Pode-se encontrar o Conocarpus erectus fora de áreas de manguezal, mas ele tem grande resistência à salinidade, podendo ser encontrado em ambientes hipersalinos, como as lagoas de Araruama e Salgada, no estado do Rio de Janeiro. No meu entendimento de leigo, considero o Conocarpus erectus uma espécie de mangue que pode aparecer eventualmente desgarrada de bosques de manguezal, assim como já encontrei Laguncularia racemosa num costão rochoso em meio a plantas não exclusivas de mangue.

Das oito espécies, não conheço a Pelliciera rhizophorae. Foi a saudosa professora Tania Mara Simões do Carmo quem a apresentou a mim por fotos. Trata-se de uma espécie exclusiva de manguezal. Sua distribuição limita-se à América Central atlântica e pacífica, sendo uma espécie rara e ameaçada de extinção.

Em vermelho, a área de distribuição de Pelliciera rhizophorae

Descrita por Jules Émile Planchon e José Jerónimo Triana pela primeira vez em 1862, a espécie passou a ser conhecida como mangue-chá porque suas folhas contêm tanino e outras substâncias encontradas nas folhas do chá. Sua distribuição era mais ampla há 20 milhões de anos. Mas sua área reduziu-se significativamente depois por ação natural. Ela é encontrada entre o Golfo de Nicoya, na Costa Rica, e o rio Esmeraldas, no Equador, pela costa do Pacífico, e do Golfo do México ao mar do Caribe até a Venezuela, na costa atlântica da América. Talvez tenha existido na costa norte do Brasil.

A configuração da América mudou na história geológica da Terra. O istmo do Panamá não existia, permitindo ampla comunicação do Atlântico com o Pacífico. Ao criar-se a estreita faixa de terra entre Américas do Norte e do Sul, o isolamento da América do Sul, com sua estupenda fauna de herbívoros, chegou ao fim. Pelo istmo do Panamá, uma agressiva fauna proveniente da América do Norte invadiu a América do Sul, pondo fim ao chamado Esplêndido Isolamento. A comunicação entre os dois oceanos foi interrompida até a abertura do Canal do Panamá, no início do século XX. Mas as espécies de mangue navegaram livremente antes do fechamento e mesmo depois, pelo canal. Levanta-se a hipótese segundo a qual o mangue-chá retraiu-se diante de mudanças de salinidade no solo no âmbito dos bosques de mangue, das oscilações do nível do mar e do aumento da competição com Rhizophora.

Como as demais espécies de mangue, Pelliciera rhizophorae cresce em estuários e em praias protegidas. Enquanto as plantas do gênero Rhizophora emitem ramificações caulinares separadas, os exemplares de Pelliciera desenvolvem conjuntos maciços de raízes em torno do caule que lhes dão o aspecto de árvores das matas inundadas da Amazônia.

Bosque de mangue-chá em maré baixa, com caule característico

A Pelliciera rhizophorae guarda semelhança com as espécies de Rhizophora, mas se integra na família Tetrameristacea, com apenas cinco representantes distribuídos em três gêneros. O gênero Pelliciera conta com apenas uma espécie. Tal como Rhizophora, Avicennia e Laguncularia, a Pelliciera rhizophorae tem lenticelas, poros que permitem à planta respirar quando da maré baixa. Nas raízes compactas que brotam do caule antes de chegar ao solo, há um sistema que consegue bloquear o excesso de sal e de poluentes. Como no mangue vermelho, os contrafortes radiculares conferem estabilidade à árvore. Esses contrafortes não costumam passar de um metro de altura e 80 a 100 cm de largura. Eles não penetram profundamente no solo e não substituem as raízes nutridoras da planta. Embora de família distinta, Pelliciera rhizophorae lança em torno de si pneumatóforos, raízes que vem à tona (geotropismo negativo) para respirar, como as espécies de Avicennia e como Laguncularia racemosa.

Lenticelas de Pelliciera rhizophorae
Pneumatóforos de Pelliciera rhizophorae

As folhas da Pelliciera rhizophorae são coriáceas e dispostas em espiral. Têm comprimento de 20 cm ou pouco mais, com largura de 5 cm. São lisas em ambas as faces com alguns pelos nas bordas. Existem duas glândulas em cada folha que secretam substância adocicada apreciada por formigas, que defendem essa secreção de outros invertebrados. Assim como as folhas das espécies de Avicennia secretam sal, as de Pelliciera secretam substância adocicada. Essas folhas ganham coloração amarelada ao envelhecerem. O sal e os poluentes não retidos pelo caule acabam nas folhas envelhecidas.

Folhas de Pelliciera rhizophorae

As flores do mangue-chá são brancas, crescendo no final dos ramos entre as folhas. No seu desenvolvimento, essas flores, quando novas, apresentam-se fechadas e protegidas por bracteolas de cor branca a vermelho escuro. Ao abrir-se, a flor mostra-se plena, com suave perfume. Elas atingem até 13 cm de diâmetro. O curioso é que as folhas e as flores dos exemplares da Pelliciera rhizophorae do Pacífico e do Atlântico, mesmo contíguas em área bastante restrita, apresentam diferenças. As folhas e flores começam a mostrar coloração distinta, como se estivessem em processo de diferenciação específica.

Flor de Pelliciera rhizophorae

Quanto ao fruto, quando maduro ele apresenta coloração marrom e alcança cerca de 10 cm de diâmetro, com tamanho de até 14 cm. Dentro dele, desenvolve-se uma semente vivípara pouco menor que o próprio fruto. É tipicamente uma espécie de mangue, já que a semente é, na verdade, um propágulo. Quando se desprende da árvore-mãe, sua ponta afilada com até 5 cm permite que ela se fixe no chão, a exemplo do propágulo do mangue vermelho. Desse propágulo, emerge um broto já bem desenvolvido. É uma nova plântula, que carrega as duas metades do propágulo. Essas metades fornecem à plântula energia e nutrientes até por12 meses. Nesse aspecto, o propágulo se parece com o do gênero Avicennia.

Propágulo de Pelliciera rhizophorae

A salinidade adequada para o mangue-chá não deve ultrapassar a 37%. Como já se disse, acredita-se que salinidades altas foram responsáveis pela redução da área ocupada por Pelliciera rhizophorae. A poluição da zona costeira é outro fator a ameaçar a espécie. No máximo, ela suporta teores baixos de poluição. A de natureza orgânica pode mesmo alimentá-la. Geralmente, uma árvore não ultrapassa 15 metros de altura.

Do ponto de vista econômico, ela deve ter sido usada para fornecer lenha, madeira e tanino. Atualmente, é vendida como planta ornamental de difícil desenvolvimento fora do seu meio.

Bosque de Pelliciera com maré alta

4 respostas para “Breve nota sobre uma espécie rara de mangue”

  1. Que texto fantástico e trabalho de pesquisa. Sou apaixonado e defensor dos manguezais desde que trabalhei com peixe boi marinho. E parabéns pelo blog. Vou acompanhar.

    @limpandomundoceara

  2. Que bela explicação!
    Agradeço a homenagem a grande Profª Tania Mara.
    Foi ela que abriu as portas da ciência para mim. Uma honra ter sido seu aluno e orientado! Tenho seguir seus passos.
    Saudações fraternas!

  3. Carissimo amigo Soffiati,
    Gostei demais da sua iniciativa, acompanhada de uma narrativa explicativa da presenca desse genero tao conspicuo, porem nao especifico do ambiente mais salino dos manguezais. Pelliciera costuma ser encontrada em aguas bem pouco salinas.
    Eu teria alguns comentarios referentes a presenca de Pelliciera do Golfo do Mexico aa Venezuela. Nao conheco em detalhe esse segmento costeiro caribenho, mas ateh o presente sabia que a presenca de Pelliciera eh bastante exclusiva em Cartagena e no Golfo de Uraba, na Colombia.
    Conheco Pelliciera na costa sul do Pacifico Colombiano em aguas praticamente sem sal.
    Seria interessante acompanhar as descricoes por referencias aas fontes consultadas, assim como elencar a lista das respectivas referencias consultadas.
    Saudacoes meu amigo, Yara

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