Arthur Soffiati

Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

A zona costeira de Itapemirim a Macaé

Nos guias turísticos, as praias da costa que se estendem do rio Itapemirim, no Espírito Santo, ao rio Macaé, no Rio de Janeiro, não são tão apreciadas quanto as praias que ficam acima do rio Itapemirim ou abaixo do rio Macaé. Elas não são tão procuradas quanto as praias de Guarapari e arredores ou as praias da Região dos Lagos.

As praias da costa que recortamos têm as suas águas barrentas e amareladas. Essa coloração é confundida com sujeira ou com feiura. Poluição até pode haver nelas, mas a coloração se deve à ausência de pedras. Que se percorra o litoral entre Itapemirim e Macaé em busca de pedras naturais na costa ou no mar. Elas não serão encontradas. Só aquelas lançadas por ação humana, como em Marataízes, Barra do Furado e Macaé. Agora, querem jogar pedras também em Atafona e Guaxindiba.

As pedras colocadas pela própria natureza servem para a fixação de organismos filtrantes que dão às águas coloração clara, muito embora elas possam estar poluídas. Não encontramos pedras naturais na costa que se estende do rio Itapemirim ao rio Macaé porque ela é muito nova. Do rio Itapemirim ao rio Guaxindiba, o mar subiu e desceu erodindo terrenos de tabuleiros e construindo falésias.

Falésia: formação costeira resultante do encontro do mar com os tabuleiros. Marataízes, sul do Espírito Santo

Do rio Guaxindiba ao rio Macaé, existem três restingas, terrenos arenosos mais extensos que uma praia. A primeira é pequena e fica na margem esquerda do rio Itabapoana. A segunda é cortada ao meio pelo rio Paraíba do Sul. Ela foi formada, em grande parte, por este rio nos últimos 2500 anos. Ela se liga por um estreito e elevado cordão arenoso, onde se ergueram Xexé e Farol de São Tomé, à restinga de Jurubatiba. Depois de Barra do Furado, ela se alarga. É a mais antiga restinga da região, com 120 mil anos. As duas restingas protegem uma planície aluvial, formada com sedimentos argilosos transportados da zona serrana depois da grande invasão do mar no continente, entre 7 e 5 mil anos. Trata-se da planície tão exaltada por Alberto Ribeiro Lamego. A planície que estimulou o desenvolvimento de Campos dos Goytacazes segundo ele.

Ao lado dessa planície, elevam-se duas unidades de tabuleiro: uma em Quissamã e outra na margem esquerda do rio Paraíba do Sul. A idade de ambas é estimada em 5 milhões de anos. Dois tabuleiros, uma planície aluvial e três restingas com idades diferentes, mas consideradas novas em termos geológicos, formam uma grande baixada adiante das montanhas, essas sim, muito antigas, com mais de 600 milhões de anos. Os rios Paraíba do Sul e Imbé foram os principais formadores desse grande aterro na frente da serra. O rio Imbé corre totalmente na zona serrana e desemboca na lagoa de Cima, também na zona serrana baixa. Dela, nasce o rio Ururaí, já na planície aluvial.

Em 1848, o estadista José Saturnino da Costa Pereira, num livro fundamental sobre a costa brasileira, escreveu que, do rio Macaé ao rio Benevente, um vasto terreno baixo afasta o mar da serra. Ele estendeu um pouco esse terreno baixo, pois ele não chega à foz do rio Benevente. De qualquer maneira, sua percepção foi mais aguçada que a do geólogo canadense Charles Frederick Hartt, para quem era a montanha que se afastava do mar.

Ao construir uma escada, um engenheiro começa pelo degrau mais baixo. Ele servirá de base para os degraus seguintes. Com a natureza, é diferente. O degrau mais antigo costuma ser o mais alto. Assim, as chamadas regiões norte-noroeste fluminense e sul-capixaba têm seu primeiro degrau na montanha. O segundo são os tabuleiros. O terceiro é a planície aluvial. O quarto são as três restingas, todas niveladas com a planície aluvial.

Restinga: braço principal do delta do Paraíba do Sul quase fechado. Atafona, em São João da Barra, fica na margem direita. Na marguem esquerda, fica o município de São Francisco de Itabapoana

Trata-se de uma configuração costeira bastante singular ao longo de todo o litoral brasileiro. Se tomarmos apenas os estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, partindo do sul fluminense, notaremos que, de Parati ao rio Macaé, o mar encosta na zona serrana baixa. Em toda a extensão desse primeiro segmento da costa, existem pedras nas praias e dentro do mar, na forma de ilhas. Do rio Macaé ao rio Itapemirim, um grande aterro afasta o mar das pedras serranas. Só existe uma ilha nesse trecho: a das Andorinhas, que foi formada por um pedaço dos tabuleiros erodidos pelo mar. Nela, não há uma pedra sequer. Depois do rio Itapemirim, o mar volta a encostar na zona serrana baixa. Daí, a singularidade da região.

Mas nem sempre foi assim. Esse aterro é novo, baixo e muito dinâmico, tendo sido formado há pouco tempo em termos geológicos. Basta dizer que há cinco mil anos, o terreno em que se ergue Atafona e Campos não existia. E o mar alcançava a lagoa de Cima. Mas essa é outra história a ser contada em breve.

Os terrenos formadores da costa entre os rios Itapemirim e Macaé: zona serrana, tabuleiros, planície aluvial e restingas

2 respostas para “A zona costeira de Itapemirim a Macaé”

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