O ano de 2024 marcou a primeira vez que a temperatura global cruzou a barreira de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais por um ano civil. Para o cientista climático Andy Reisinger, o momento não é de desespero, mas de clareza absoluta: a meta de 1,5°C não é mais uma “escolha”, mas um compromisso permanente que o planeta terá de perseguir, mesmo que após um período de superação (o chamado overshoot).
O fim da meta de 1,5°C?
Reisinger explica que, embora a média de longo prazo ainda esteja em 1,4°C, ultrapassaremos oficialmente o limite de 1,5°C nos próximos cinco a dez anos.
- O trem de carga: O sistema climático é pesado. Mesmo “pisando no freio” agora, as emissões acumuladas garantem pelo menos mais 0,3°C de aquecimento.
- A realidade das políticas: Se o mundo seguisse apenas as promessas políticas atuais, caminharíamos para 2,6°C. Para manter o aquecimento abaixo de 2°C, a redução de fósseis precisa ser imediata e drástica.
O fator geopolítico: Trump, Irã e a Venezuela
Sobre as recentes movimentações dos EUA e o retorno de políticas pró-combustíveis fósseis sob o governo Trump, Reisinger é categórico:
- Interesse próprio: A adoção de energias renováveis não depende mais apenas de altruísmo ambiental. Reduzir a dependência de fósseis significa menor volatilidade de preços, maior resiliência em conflitos (como o atual no Irã) e economia bilionária em saúde pública.
- O futuro da superpotência: “Não se pode governar uma superpotência mundial com carvão”, afirma o cientista, sugerindo que as ações atuais da Casa Branca são um desvio temporário, mas inviável a longo prazo.
“A transição é imparável porque atende aos interesses nacionais. A guerra no Irã deixou claro: a resiliência vem da independência energética, e os fósseis são voláteis demais.”
O desafio do resfriamento: 100 anos para 0,1°C
Reisinger alerta que reverter o aquecimento após o pico é um esforço hercúleo.
- Cálculo de resfriamento: Para cada 0,1°C que quisermos baixar na temperatura global, precisaríamos remover 220 gigatoneladas de CO2 da atmosfera.
- O limite do reflorestamento: Com as taxas atuais de plantio de árvores, levaríamos um século apenas para reduzir 0,1°C. Isso significa que, se deixarmos o planeta aquecer demais, a conta para as próximas gerações será impagável.
A Conferência de Santa Marta: Um farol de esperança
Questionado sobre a reunião de mais de 50 países na Colômbia (que ocorre agora, no final de abril), o pesquisador vê o evento como um marco simbólico fundamental. Ao discutir o fim dos fósseis sem as amarras do lobby petrolífero das COPs tradicionais, esses países preparam o terreno para uma transição justa.
O veredito de Reisinger: Um compromisso com o Século XXII
Ao final de sua análise, Andy Reisinger deixa claro que o debate climático não é mais sobre previsões abstratas, mas sobre a gestão de um risco existencial que já bate à porta. A ciência do IPCC é definitiva: 100% do aquecimento registrado nos últimos 150 anos foi causado pela atividade humana. Diante dessa constatação, o cientista aponta que o foco deve migrar da culpa para a ação estratégica, ancorado em três pilares fundamentais:
- A fragilidade dos gigantes: Ecossistemas vitais, como a Grande Barreira de Corais e a Corrente do Golfo, operam hoje em limiares perigosos. O colapso desses sistemas não seria apenas uma perda ecológica, mas um gatilho para mudanças irreversíveis na agricultura e na segurança global.
- A conta do resfriamento: O esforço para reduzir a temperatura após o “pico” é desproporcionalmente maior do que o esforço para preservá-la agora. Com a tecnologia atual, a remoção de carbono necessária para baixar meros 0,1°C exigiria um século de esforços ininterruptos de reflorestamento global.
- Justiça na transição: O caminho para um planeta mais frio deve ser pavimentado com equidade. Políticas de remoção de carbono não podem atropelar a segurança alimentar ou os direitos de comunidades locais; do contrário, a “cura” climática poderá aprofundar as desigualdades sociais.
Reisinger encerra com uma reflexão pessoal sobre o tempo. “Estes são os verões mais frios que viveremos. Todos os outros serão mais quentes”, afirma. Para ele, a maior motivação não está nos modelos computacionais que terminam em 2100, mas no fato de que as crianças de hoje estarão lá para ver se fomos capazes de mudar o rumo da história. A nossa geração não verá a recuperação do planeta, mas é a única que pode garantir que ela aconteça.
Leia a entrevista completa no Live Science.




