Em Colombo, capital do Sri Lanka, um movimento ambiental silencioso, porém poderoso, está transformando antigos terrenos baldios e poluídos em zonas úmidas cheias de vida. A iniciativa — impulsionada por cidadãos, instituições científicas e o governo — está reconstruindo as barreiras naturais contra enchentes, ao mesmo tempo que restaura a biodiversidade urbana e promove qualidade de vida.

O renascimento do Pantanal de Thalangama
O Pantanal de Thalangama, um mosaico vibrante de lagos, arrozais, canais e canaviais no coração de Colombo, é um símbolo dessa transformação. Há pouco mais de 15 anos, a área era um espaço degradado, dominado pelo lixo e pelo abandono.
“Estava muito sujo”, relembra Pay Drechsel, gerente interino do Instituto Internacional de Gestão da Água (IWMI). “Mas descobri que os moradores também se importavam. Só esperavam alguém começar.”
O começo foi comunitário: limpeza voluntária, remoção de jacintos-d’água invasores, organização de mutirões. Hoje, o grupo Thalangama Wetland Watch lidera a manutenção do espaço, com apoio de estudantes, caiaques e educação ambiental.
Zonas úmidas: aliadas naturais contra enchentes
Construída sobre uma vasta bacia hidrográfica, Colombo é naturalmente vulnerável a inundações. Com mais de 2 milhões de habitantes, a cidade encontrou nas zonas úmidas um aliado natural: elas absorvem 40% da água das enchentes, purificam o ar, regulam a temperatura e ainda capturam carbono.
“Com o aumento das chuvas irregulares e temperaturas extremas, as zonas úmidas ajudam a mitigar os efeitos das mudanças climáticas”, explica Chethika Gunasiri, cientista ambiental da Universidade de Tóquio.
A relevância ecológica rendeu à cidade, em 2018, o título de Cidade Ramsar, reconhecimento internacional a cidades comprometidas com a preservação de ecossistemas aquáticos.

Da negligência colonial à valorização moderna
A história dessas áreas remonta aos antigos reinos do Sri Lanka, que utilizavam os pântanos para transporte e produção de alimentos. Mas tudo mudou com o domínio britânico no século XVIII. A criação de canais artificiais de drenagem, a drenagem de pântanos para construção e o uso das áreas como depósitos de lixo destruíram ecossistemas inteiros.
Na década de 1980, montanhas de lixo surgiram em zonas como Meethotamulla, que atingiu 60 metros de altura antes de colapsar em 2017, matando 32 pessoas.
“Algumas áreas foram totalmente esquecidas. Em pesquisas, moradores diziam: ‘não conhecemos pântanos por aqui’”, relata o pesquisador Missaka Hettiarachchi, do WWF.

Mudança de rota: planejamento urbano e infraestrutura verde
Após enchentes devastadoras em 2010 — que atingiram 700 mil pessoas e até submergiram o parlamento — o governo adotou uma nova postura: reconhecer as zonas úmidas como infraestrutura natural essencial.
Em 2016, foi lançada a Estratégia de Gestão de Zonas Úmidas da Região Metropolitana de Colombo, focada em:
- Integrar zonas úmidas ao planejamento urbano;
- Impedir novas destruições;
- Restaurar áreas degradadas;
- Envolver a população na conservação.
A revitalização incluiu a construção de ciclovias, pistas de corrida, áreas de lazer e pontos de observação de pássaros. Espécies invasoras, como o jacinto-d’água, foram substituídas por vegetação nativa para atrair aves, peixes e répteis.
Hoje, Colombo conta com quatro grandes parques de zonas úmidas e diversas áreas interligadas, agora valorizadas como espaços públicos, educativos e recreativos.
“As pessoas agora se sentem donas desses espaços”, afirma Gunasiri. “Elas se preocupam com a poluição, observam a fauna e passam a valorizar o ambiente.”

Desafios persistem: urbanização e perda de áreas
Apesar dos avanços, a pressão urbana não cessa. Desde o fim da guerra civil em 2009, Colombo perdeu cerca de 2,12 km² de zonas úmidas, drenadas para construção de moradias e empreendimentos.
“Mesmo com os esforços de restauração, a perda geral ainda deixa a cidade mais exposta a enchentes”, alerta um estudo de 2024.
Um dos casos críticos é o Pântano de Kolonnawa, que perdeu 65% de sua área desde o século XIX. A substituição da vegetação alagada por arbustos comprometeu a retenção hídrica.
Educação ambiental e valorização econômica
Além de frear a degradação, a educação ambiental tem sido central para engajar a população.
“As pessoas agora entendem que zonas úmidas são essenciais para o bem-estar urbano”, afirma Radheeka Jirasinha, pesquisadora do IWMI.
Drechsel reforça outro aspecto: o valor imobiliário. Propriedades com vista para zonas úmidas podem valer o dobro. A valorização ajuda a criar incentivos econômicos para preservar e integrar essas áreas à malha urbana.
Segurança alimentar e ecossistemas produtivos
As zonas úmidas também são vistas como solução para insegurança alimentar urbana. Além da pesca, é possível utilizar áreas alagadas para cultivo de hortaliças sem irrigação, como mostra Hettiarachchi.
“Elas oferecem alimentos, lazer, proteção e bem-estar. São, literalmente, a alma verde da cidade.”
Fonte: BBC News


