As mudanças climáticas estão transformando profundamente a Amazônia, impactando comunidades locais e o setor turístico. A seca severa que atinge o Amazonas é um reflexo desse cenário, afetando diretamente a vida de ribeirinhos e indígenas que dependem do turismo e da pesca para sobreviver.
O desafio do turismo em tempos de seca
Em Manaus, guias turísticos enfrentam dificuldades com o baixo nível dos rios, que inviabilizam passeios tradicionais como o encontro das águas e atividades noturnas, como a focagem de jacarés. Rodrigo Amorim, capitão de lancha e guia turístico, descreve como a seca reduziu a navegabilidade dos rios, prejudicando tanto o transporte quanto as atividades econômicas locais.

Nas margens do Lago Janauari, indígenas do povo Tukano relatam o impacto direto na sua subsistência. Daniel Hanrori, líder de uma aldeia local, explica que o fluxo de turistas caiu drasticamente, de até 60 lanchas diárias para apenas duas durante o período de seca. “Dependemos do turismo e da venda de artesanato para sobreviver, mas a crise climática está mudando tudo”, comenta.

Impactos climáticos e o papel do turismo
A professora Isabel Grimm, especialista em meio ambiente, aponta que o setor turístico, além de sofrer os impactos climáticos, também contribui para eles. O transporte aéreo e o uso excessivo de recursos em destinos populares geram emissões significativas de gases de efeito estufa. “Precisamos repensar o modelo de turismo de massa e adotar práticas mais sustentáveis que minimizem os impactos nos ecossistemas”, destaca Grimm.

A especialista sugere valorizar destinos menos explorados e apoiar comunidades locais em iniciativas turísticas que respeitem os limites ambientais e culturais. Políticas públicas que incentivem a participação das comunidades e o turismo sustentável são essenciais para reduzir os danos.
Turismo de base comunitária: um modelo sustentável
Um exemplo promissor de turismo sustentável na Amazônia é o programa desenvolvido pelo Instituto Mamirauá, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no médio Solimões. Desde 1998, o instituto promove a Pousada Uacari, que oferece experiências imersivas, conectando turistas à cultura e ao meio ambiente local.
Pedro Nassar, coordenador do programa, ressalta que o turismo comunitário busca o equilíbrio entre conservação ambiental e benefícios socioeconômicos para os moradores. “Esse modelo permite que as comunidades sejam protagonistas, gerando renda e preservando recursos naturais”, afirma.
Além disso, o programa inclui a formação de multiplicadores, capacitando comunidades de outras regiões para implementar práticas similares. Esse trabalho é fundamental para disseminar o turismo sustentável em todo o país.

Iniciativas inspiradoras e preocupações locais
Inspirada pelo Instituto Mamirauá, Ilana Ribeiro Cardoso, artesã e empreendedora do Jalapão, aplica os aprendizados em sua comunidade. Ela organiza experiências autênticas que valorizam a cultura local, como trilhas históricas e oficinas de artesanato. No entanto, Ilana teme que o crescimento desordenado do turismo possa ameaçar o equilíbrio ambiental e social da região.
“A comunidade sabe cuidar do que é nosso. O turismo sustentável só funciona quando vem de baixo, das pessoas que vivem aqui”, enfatiza Ilana. Para ela, o respeito aos limites ambientais é essencial para evitar a degradação causada por práticas predatórias.

Um caminho para a sustentabilidade
Os desafios enfrentados pela Amazônia refletem a necessidade urgente de mudanças na abordagem do turismo. Modelos de base comunitária, como o desenvolvido pelo Instituto Mamirauá, mostram que é possível aliar preservação ambiental, valorização cultural e geração de renda.
Com a realização da COP30 em Belém, a importância da Amazônia no debate global sobre mudanças climáticas ganha destaque. Políticas públicas que promovam práticas sustentáveis e integrem as comunidades locais ao turismo podem ser um passo crucial para preservar o futuro da floresta e de seus povos.
Fonte: Agência Brasil


