Pesquisa revela mecanismos genéticos que protegem a espécie e podem inspirar avanços na medicina humana
O tubarão-da-Groenlândia (Somniosus microcephalus) é um dos animais mais longevos do planeta, podendo viver até 400 anos sem apresentar sinais de câncer. Cientistas japoneses agora acreditam ter encontrado a explicação para essa impressionante longevidade: um sofisticado mecanismo genético de reparo celular.
Os resultados da pesquisa foram publicados em um estudo preliminar na plataforma bioRxiv, em 22 de fevereiro de 2025. Apesar de ainda não revisadas por cientistas independentes, as descobertas sugerem que o genoma do tubarão-da-Groenlândia possui mecanismos naturais que protegem seu corpo contra doenças e processos degenerativos – uma pista valiosa para futuras pesquisas sobre longevidade e prevenção do câncer em humanos.
O que torna o tubarão-da-Groenlândia tão longevo?
Por muito tempo, os cientistas acreditaram que o hábitat gelado do tubarão-da-Groenlândia desempenhava um papel fundamental em sua vida longa, já que temperaturas baixas podem reduzir a taxa metabólica e retardar o envelhecimento. No entanto, as novas descobertas indicam que há outros fatores biológicos envolvidos.
Ao sequenciar o genoma da espécie, os pesquisadores identificaram que esses tubarões apresentam múltiplas cópias de genes específicos ligados à resistência celular, reparo do DNA e proteção contra inflamações. Um dos mecanismos mais notáveis envolve a ativação da proteína NF-kB, que regula inflamação, imunidade e sobrevivência celular.
Essa classe de genes parece estar presente em uma quantidade muito maior nos tubarões-da-Groenlândia do que em outras espécies de vida mais curta, o que pode ser um fator-chave para sua longevidade.
Resistência ao câncer e reparo celular
Outro achado importante foi a identificação de múltiplas cópias de 81 genes responsáveis pelo reparo do DNA, além de uma versão alterada do gene TP53, conhecido por seu papel na supressão de tumores. Essas características genéticas minimizam os danos celulares, prevenindo mutações que poderiam levar ao câncer.
“Como inflamações, respostas imunológicas e a formação de tumores afetam significativamente o envelhecimento e a expectativa de vida, a presença ampliada de genes envolvidos na sinalização NF-κB pode estar diretamente relacionada à longevidade do tubarão-da-Groenlândia”, explicou Shigeharu Kinoshita, coautor do estudo, ao portal New Scientist.
Outras espécies marinhas de vida longa, como o ouriço-do-mar-vermelho, também possuem múltiplas cópias desses genes, o que reforça a hipótese de que esse mecanismo pode estar associado a vidas extremamente longas.
Adaptações à vida nas profundezas
Além dos mecanismos de defesa imunológica e celular, os cientistas descobriram que o tubarão-da-Groenlândia possui adaptações específicas para viver no ambiente extremo das profundezas oceânicas.
Um exemplo é sua proteína rodopsina ocular, que apresenta mutações que tornam sua visão mais sensível à luz azul, permitindo que enxergue melhor em águas escuras e profundas.
Essas características ajudam a explicar como a espécie consegue sobreviver por séculos em um ambiente hostil, com pouca luz e baixa oferta de alimento.
O que isso significa para a ciência e a medicina?
Embora os seres humanos nunca alcancem a longevidade de um tubarão-da-Groenlândia, os cientistas acreditam que suas descobertas podem inspirar avanços médicos. O estudo do genoma desse animal pode ajudar a desenvolver novas terapias contra o câncer, tratamentos de reparo celular e estratégias para retardar o envelhecimento.
Pesquisas futuras devem aprofundar a análise do DNA da espécie e buscar formas de aplicar esses mecanismos genéticos na medicina humana. Os cientistas esperam que essas descobertas levem à criação de novos produtos farmacêuticos ou terapias genéticas que promovam o envelhecimento saudável e reduzam o risco de doenças degenerativas.
“O tubarão-da-Groenlândia pode conter segredos valiosos sobre a longevidade e a resistência ao câncer. Ao compreender esses mecanismos, podemos abrir caminho para novas abordagens terapêuticas no futuro”, conclui Kinoshita.


