Estudo revela que plano de neutralizar emissões do setor de combustíveis fósseis via reflorestamento exigiria área equivalente a 24,75 milhões de km² — e reforça urgência em reduzir o uso de petróleo, gás e carvão.
Um novo estudo publicado na revista Communications Earth & Environment, da Nature, revela a total inviabilidade prática, financeira e ecológica de compensar as emissões das grandes petroleiras com reflorestamento. A pesquisa calcula que seria necessário reflorestar uma área equivalente a cinco vezes o tamanho da Floresta Amazônica para neutralizar as emissões potenciais geradas pela queima das reservas fósseis das 200 maiores empresas do setor — cerca de 24,75 milhões de km².
Na prática, o estudo desmonta os argumentos de empresas que defendem o uso contínuo de petróleo, gás natural e carvão com a promessa de compensar suas emissões por meio de soluções como créditos de carbono, tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS) ou reflorestamento em larga escala.
Cálculo revela impasse logístico e ecológico
De acordo com os pesquisadores, se as reservas atuais dessas 200 empresas forem totalmente exploradas, serão lançadas na atmosfera 673 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e). Para neutralizar esse volume apenas com reflorestamento deliberado — ou seja, em áreas sem cobertura florestal prévia — seria necessário ocupar mais território do que o somatório das Américas do Norte e Central.
Além da escala impraticável, os cientistas alertam para impactos colaterais severos: deslocamento de comunidades, perda de terras agrícolas, alteração de habitats naturais e riscos aos ecossistemas já existentes.
“Mesmo que governos estejam dispostos a abrir mão de tamanha extensão territorial, os limites ecológicos tornam a proposta insustentável”, aponta o estudo.
Análise econômica: neutralizar é financeiramente inviável para a maioria das empresas
A pesquisa introduz o conceito de Avaliação Ambiental Líquida, que calcula o valor de mercado de cada empresa após subtrair os custos estimados para neutralizar suas emissões potenciais.
O reflorestamento aparece como a solução mais barata, com custo estimado em US$ 16 por tonelada de CO₂e, segundo a OCDE. Ainda assim, apenas 36% das empresas manteriam valor de mercado positivo após arcar com essa compensação. Quando a solução envolve créditos de carbono, com base no preço médio de US$ 83 por tonelada praticado no mercado europeu em 2022, o número de empresas viáveis despenca para apenas 5%.
E no caso da captura direta de carbono, com custo médio atual estimado em US$ 1.000 por tonelada, nenhuma empresa analisada conseguiria manter avaliação positiva.
Reduzir é mais viável do que compensar
O estudo reforça que a única alternativa viável — tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico — é deixar de queimar combustíveis fósseis. A neutralização de emissões em larga escala, como algumas corporações propõem, não se sustenta diante dos dados analisados.
A mensagem dos pesquisadores é clara: compensar não substitui a redução. A aposta em soluções de mercado ou em iniciativas de reflorestamento como justificativa para manter o modelo fóssil atual mascara a urgência de uma transição energética real, com foco na diminuição progressiva da exploração e uso de petróleo, carvão e gás natural.


