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Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Povos pioneiros do norte-noroeste fluminense: a história de um extermínio (I)

Freire e Malheiros explicam que Aryon Rodrigues reuniu vários povos nativos dos atuais Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo no tronco linguístico macro-jê, dividido em 23 línguas. Doze eram faladas no território correspondente ao Rio de Janeiro: Puri, Telikong ou Paqui (entre os vales do Itabapoana e Médio Paraíba do Sul e nas serras da Mantiqueira e das Frecheiras, entre os Rios Pomba e Muriaé; Coroado, em ramificações da Serra do Mar e nos vales do Paraíba do Sul, Pomba e Preto; Coropó, no vale do rio Pomba e na margem sul do alto vale do Paraíba do Sul; Goitacá, na planície fluviomarinha do norte fluminense, entre a lagoa Feia e a foz do Rio Paraíba do Sul; Guaru ou Guarulho, na Serra dos Órgãos e nas bacias dos rios Piabanha e Paraíba do Sul, incluído o seu afluente rio Muriaé, com ramificações em Minas Gerais e Espírito Santo; Pita, no vale do rio Bonito; Xumeto, na Serra da Mantiqueira; Bacunin, no vale do rio Preto e próximo à atual cidade de Valença; Bocayú, nos vales dos rios Preto e Pomba; Caxiné, na região entre os rios Preto e Paraíba do Sul; Sacaru, no vale do médio Paraíba do Sul; Paraíba, igualmente no médio curso do Paraíba do Sul. Os autores, ainda acompanhando estudiosos, apontam, como integrantes do tronco macro-jê, a família dos Botocudos, falando 38 dialetos, no Espírito Santo e Minas Gerais. No Rio de Janeiro, apontam o grupo Botocudo, Aimoré ou Batachoa, nos vales dos rios Itabapoana e Macacu. Por fim, a família Maxakali, com 27 línguas, das quais, no Rio de Janeiro, existe apenas referência à língua Maxakalí ou Mashakali, falada no vale do rio Carangola (FREIRE, José Ribamar Bessa e MALHEIROS, Márcia Fernanda. Aldeamentos indígenas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UERJ, 1977). Cabe notar que, no norte-noroeste fluminense, usa-se ainda, embora raramente, palavra maxacá para designar roceiro, capiau, ignorante, muito provavelmente derivada da palavra Maxakali.

As sociedades indígenas que se instalaram e se estruturaram na região norte-noroeste fluminense conseguiram construir modos de vida sintonizados com o ambiente, por mais que o tenham transformado. Os povos nativos chegaram à serra, ao tabuleiro e à planície fluviomarinha adaptando-se aos ecossistemas com um mínimo de interferência neles. Suas comunidades e sua tecnologia rudimentar não eram capazes de provocar grandes transformações à natureza, ao mesmo tempo em que sua visão de mundo encarava-a como uma entidade sagrada. Em lugar de moldarem os ecossistemas a seus estilos de vida, seus estilos de vida é que se amoldaram às peculiaridades do ambiente.

Poucos são os depoimentos confiáveis que nos legaram informantes dos séculos XVI, XVII e XVIII a respeito desses povos. Por eles, contudo, pode-se desenhar os contornos das sociedades pertencentes à nação goitacá, principalmente. Os outros integrantes do grande grupo linguístico macro-jê sobreviveram por mais tempo e mereceram a curiosidade e naturalistas e viajantes europeus. Como sua área de abrangência compreendia o sul de Minas Gerais, sul do Espírito Santo e norte-noroeste fluminense, foi possível aos estrangeiros fazerem contatos com eles, estudando suas línguas e seus costumes. Glossários e dicionários de suas línguas foram redigidos e legados a outros interessados. Na segunda metade do século XVIII e no século XIX, esses povos estavam em franco processo de declínio e de desagregação cultural. Tomando por base os relatos de Jean de Léry (Viagem à terra do Brasil. Primeira edição), de Gabriel Soares de Souza (Tratado descriptivo do Brasil em 1587. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938), o Roteiro dos Sete Capitães (GABRIEL, Adelmo Henrique Daumas e LUZ, Margareth da (Orgs.); FREITAS, Carlos Roberto B.; SANTOS, Fabiano Vilaça dos; KNAUS, Paulo; SOFFIATI, Arthur; GOMES, Marcelo Abreu. Macaé: Funemac Livros, 2012) e de Simão de Vasconcelos (A vida do Padre João de Almeida, da Companhia de Jesus. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943), podemos traçar minimamente o seguinte quadro acerca dos goitacás e de algumas nações do grupo macro-jê:

Área habitada: habitavam terra plana na extensão de 15 léguas (Léry), em sua maior parte na planície fluviomarinha, salpicada por uma infinidade de lagoas, separadas ou por campos ou por matas nativas, que Simão de Vasconcelos comparava aos Campos Elíseos. Os “mansos” viviam nas campinas do cabo de São Tomé e em suas cercanias, ao passo que os “bravos” localizavam-se na margem esquerda do rio Paraíba do Sul (Roteiro dos Sete Capitães).

Tipo físico: agigantados, corpulentos e fortes (Simão de Vasconcelos). Tinham a pele mais clara que os outros nativos (Souza).

Língua: falavam língua diferente das dos vizinhos (Souza), não sendo compreendidos por eles (Léry).

Divisão interna: segundo Vasconcelos, dividiam-se em três grandes grupos, a saber, goitacá guaçu, goitacá mopi e goitacá jacoritó, todos inimigos entre si, além dos três serem hostis a todos os outros povos indígenas. O inimigo capturado tinha a cabeça quebrada. Eram considerados excelentes guerreiros. Léry acrescenta que os uetacás eram ferozes e viviam em permanente guerra contra os vizinhos e estrangeiros. Perseguidos por seus inimigos, que jamais os venceram ou dominaram, corriam a pé com muita velocidade. Aliás, uma das acepções do termo goitacá é aquele que corre. Eram tidos entre os mais cruéis e terríveis que se encontravam na América. Souza diz que costumavam guerrear em campo aberto.

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Tecnologia: conheciam o arco (Vasconcelos) e eram peritos na flecha (Souza); nadavam no mar (Souza) para capturar tubarões com um pedaço de pau pontiagudo que lhes enfiavam na garganta (Vasconcelos), não para comê-los, mas para tirar-lhes os dentes e com eles faziam pontas de flechas (Souza).

Economia: eram caçadores e pescadores, percorrendo toda a região (Vasconcelos e Souza); comiam a caça e a pesca no local em que a capturavam, mal assadas e sangrentas; não praticavam a agricultura e a criação de animais (Vasconcelos); eram tão rápidos que capturavam, na carreira, animais velozes, como veados e corças (Léry); alimentavam-se de peixes e caça, abundantes na região (Roteiro dos Sete Capitães); não eram muito dados à lavoura, plantando somente alguns legumes (Souza); eram antropófagos (Léry e Vasconcelos). Souza diz que não eram muito amigos de comer carne humana.

Trocas: não tinham nem queriam ter comércio com europeus; quando os vizinhos os procuravam e eles aceitavam recebê-los, mostravam de longe o que pretendiam trocar, geralmente plumas e pedras verdes que usavam nos lábios ou outros produtos do seu território; colocavam os objetos em local combinado, sem manterem contato direto com quem faziam a troca; terminado o escambo, cada qual procurava recuperar aquilo que trocou (Léry). Forneciam pescado e caça em troca de miçangas e aguardente (Roteiro dos Sete Capitães).

Cultura: andavam nus, homens e mulheres (Vasconcelos), como todos os brasileiros (Léry); usavam cabelos compridos e pendentes até as nádegas, de forma diversa da dos outros povos indígenas (Léry); o cabelo anterior da cabeça era raspado e o posterior, crescido até o ombro (Vasconcelos); dormiam no chão, sobre folhas (Souza); construíam casas muito pequenas e cobertas de taboa sobre uma única estaca de madeira dentro d’água, com portas tão estreitas que exigiam do morador entrasse de gatinhas (Vasconcelos); aqui, Vasconcelos se contradiz, pois fala que os goitacás acumulavam ossadas humanas no terreiro de suas aldeias, junto à porta de suas casas. Como acumular ossadas num terreiro de água e junto a casas construídas sobre um único esteio? Quanto a esse aspecto, as informações fornecidas pelo Roteiro dos Sete Capitães, por mais controvertido que se considere este documento, são mais serenas: em seus aldeamentos, havia choupanas grandes em cima de uns montinhos. Pesquisas arqueológicas conduzidas por Ondemar Dias Júnior, nos arredores do cemitério municipal de Campos, além de outros estudos, mostram que o padrão de assentamento dos primeiros habitantes da região se assemelhava aos descritos pelo Roteiro dos Sete Capitães (DIAS JUNIOR, Ondemar F. “Considerações iniciais sobre o terceiro ano de pesquisas no Estado do Rio de Janeiro” Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas 3-Resultados Preliminares do Terceiro Ano (1967-1968). Publicações Avulsas nº 13. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1969. MACHADO, Lilia Cheuiche; SENE, Glaucia Malerba; e RIBEIRO SILVA, Laura P. “Estudo preliminar dos ritos funerários do sítio do Caju, RJ”. Revista de Arqueologia v. 8, 1. São Paulo: Sociedade de Arqueologia Brasileira, 1994. HEREDIA, Raimundo Osvaldo; LIMA, Tania Andrade; e SILVA, Regina Coeli Pinheiro da. “Pesquisas arqueológicas no norte fluminense: o sítio de Jurubatiba”. Arquivos do Museu de História Natural v. VI-VII. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1981-1982; DIAS, Ondemar e NETO, Jandira. Pesquisas arqueológicas no sítio do Caju. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, 2014). Não tinham redes, camas ou qualquer enxoval; bebiam água de cacimba, a despeito da abundância de águas superficiais; alguns afirmam que bebiam também água salgada (Vasconcelos); parecem-se com os tupinambás na arte de cantar, bailar, tingir o corpo de jenipapo, na feição do cabelo e na depilação (Souza); não tinham religião nem concebiam uma vida além desta; contavam apenas com oráculos, não para praticar feitiçaria ou fazer o mal, mas para adivinhar os sucessos de suas guerras e de suas caças (Vasconcelos).

Em confuso relato, Anthony Knivet fala pouquíssimo dos waytacasses (goitacás), não fornecendo praticamente nenhuma informação esclarecedora. Até onde se pode confiar em suas palavras, ele esteve três vezes entre os puris, na última década do século XVI. Diz que viveu nove meses com eles, mas fornece escassas informações. Fala de um velho chefe, com o corpo pintado de vermelho e negro, lábio inferior e faces furadas onde introduzira pedras verdes. Suas habitações ficavam em florestas, o que faz sentido, se levarmos em conta que os puris se localizavam nas matas cerradas do vale do Muriaé. A casa do chefe era grande e nela havia uma rede pendurada em dois postes. Ao chegar, foi saudado por várias mulheres que repousaram a cabeça em seus ombros. Os puris não se mostraram belicosos ao visitante. Com eles, comeu um assado de carne de macaco. Menciona, como armas, o arco e a flecha, bem como a maça de pau (KNIVET, Anthony. As incríveis aventuras e estranhos infortúnios de Anthony Knivet: memórias de um aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomas Cavendish e foi abandonado no Brasil, entre índios canibais e colonos selvagens. Organização, introdução e notas: Sheila Moura Hue. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007).

À exceção dos relatos de Knivet e dos Sete Capitães, todos os demais são de segunda mão, com informações colhidas junto a pessoas que também não tiveram contato direto com os povos pioneiros habitantes da região ou o tiveram muito superficialmente. Eis porque estão eles contaminados pelo fantástico e pelo maravilhoso. Descontado, porém, este traço, pode-se concluir, sem muita dificuldade, que os indígenas do norte-noroeste fluminense tinham uma economia apoiada na coleta, na pesca e na caça. Seria de se esperar, portanto, que tivessem hábitos nômades. Seu deslocamento, contudo, se verificava em área restrita, em função da grande abundância de recursos. A julgar por outras sociedades simples, deviam eles manter relações de equilíbrio com os ecossistemas que habitavam, não só pela baixa densidade demográfica e pela tecnologia rudimentar, como também pela concepção sacralizada de natureza.

 

Cerâmica e enterramento no sítio arqueológico do Caju – Campos dos Goytacazes
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O contato com os europeus

Não sabemos exatamente quando a civilização ocidental rompeu o equilíbrio que mantinha com o meio ambiente, se é que tal equilíbrio existiu alguma vez. Há fortes indícios de que o sistema feudal tendesse ao equilíbrio, com sua economia agropastoril e artesanal de subsistência. No entanto, dentro dele, forjaram-se elementos de desequilíbrio. Segundo Richard Wilkinson (Pobreza e progresso: um modelo ecológico de desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Zahar, 1974), o crescimento demográfico da Europa entre os séculos XI e XIII foi notável. Ele obrigou o sistema feudal a se expandir sobre terras áridas, alagadiças e cobertas de florestas, no âmbito da Europa Ocidental. Não sendo suficiente tal expansão, os europeus partiram para conquistas externas. Alfred W. Crosby (Imperialismo ecológico: a expansão biológica da Europa: 900-1900. São Paulo: Companhia das Letras, 1993) estudou três tentativas de alargamento da civilização europeia. A primeira ocorreu com os escandinavos, que conquistaram inicialmente a Islândia e, depois de cruzarem o oceano Atlântico, invadiram a Groenlândia e o norte do continente Americano. Essa primeira experiência fracassou diante da resistência oferecida pelos povos indígenas e pelas dificuldades de comunicação entre Europa e América. Só a Islândia foi mantida e integrada ao mundo ocidental. Demonstra o autor, todavia, que o desmatamento da ilha gerou erosão e queda de fertilidade do solo, a par da introdução de doenças até então desconhecidas pelos nativos.

A segunda verificou-se entre os séculos XI e XIII, através do movimento das Cruzadas. Novo fracasso acometeu os europeus, pois os povos do oriente se organizavam em sociedades demograficamente densas, dominavam tecnologia equivalente à dos ocidentais e tinham resistência às suas doenças. A bem dizer, os europeus é que não estavam devidamente imunizados para resistir às enfermidades endêmicas do Oriente Médio.

A terceira e mais célebre delas começou no início do século XV, em parte como resposta à grande crise econômica, social, política e também ambiental do século XIV, como mostra Perry Anderson (Passagens da Antigüidade ao Feudalismo. Porto: Afrontamento, 1980). Os primeiros territórios extra-europeus a serem conquistados foram as ilhas de Porto Santo e da Madeira, o arquipélago dos Açores e o arquipélago das Canárias. Em Porto Santo, uma coelha e sua prole, abandonadas pelo navegador Bartolomeu Perestrelo, sogro de Cristóvão Colombo, em pouco tempo causou um fantástico desequilíbrio ambiental, obrigando os primeiros colonos a se transferirem para a ilha da Madeira, que também foi privada de sua abundante cobertura florestal por ação humana. O arquipélago das Canárias foi transformado numa espécie de campo de experiência pelos europeus para suas ulteriores conquistas no além-mar. Lá, eles travaram uma luta de quase um século contra os guanchos, povo nativo que, apesar de resistir bravamente, acabou sucumbindo frente às doenças transmissíveis e às armas europeias.

Há, na América pré-colombiana, casos de sociedades que desenvolveram modos de vida insustentáveis ecologicamente, a exemplo dos maias e dos pascoanos (DIAMOND, Jared. Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2005). Na maior parte dos casos, entretanto, as relações entre as sociedades pré-colombianas e a natureza primavam pelo equilíbrio. Frequentemente, os fatores de desequilíbrio, não apenas responsáveis pela desagregação das sociedades nativas como também dos ecossistemas, foram introduzidos pelos modos de vida europeu. Da leitura da obra de Crosby, depreende-se que a mais letal arma europea era uma nau de qualquer tipo. Em seu interior, vinham embarcados seres humanos portando organismos patogênicos em seus corpos, armas de ferro e de fogo em suas mãos e concepções dogmáticas de fé religiosa e de exploração da natureza. Dizia André Martins da Palma em representação endereçada ao rei de Portugal em 1657: “… grandes lucros, que sua real fazenda pode tirar com pouco cabedal e dispêndios nestes campos dos Goitacases, Paraíba do Sul.” (“Representação sobre os meios de promover a povoação e o desenvolvimento dos campos dos Goitacases em 1657”. Revista Trimensal do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil tomo XLVII, parte I. Rio de Janeiro: Laemmert, 1884). Além do mais, essas naus transportavam também animais desejáveis (cães, cavalos, bois, porcos, cabras, carneiros, gatos, galinhas, patos, abelhas etc.) e indesejáveis (ratos, moscas, baratas) que encontraram ambiente muito favorável à sua proliferação na América por razões ainda bastante discutíveis. Vinham também sementes e mudas de plantas que se alastraram rapidamente nas terras conquistadas. De todas as armas, as mais temíveis eram, sem dúvida, as doenças infecto-contagiosas.

No norte-noroeste fluminense, a desagregação das sociedades nativas e a violação dos ecossistemas se devem à chegada e à instalação dos europeus, com estilos de vida forjados em ambientes ecológicos do chamado Velho Mundo, inteiramente distintos daqueles que se constituíram no depois denominado Novo Mundo. As duas primeiras tentativas de fincar uma estaca europeia na região norte-noroeste fluminense, com Pero de Góis e Gil de Góis, fracassaram por seu caráter incipiente e pela resistência oposta por grupos da nação goitacá. Aliás, Sérgio Buarque de Holanda, examinando a conquista e a colonização da região que futuramente viria a constituir o Centro-Oeste brasileiro, mostra como os pioneiros de origem europeia foram obrigados, nos primórdios do empreendimento, a se conformarem aos constrangimentos impostos pelo meio ambiente e a se valerem da tecnologia desenvolvida pelos povos nativos (Monções, 2a ed. São Paulo, Alfa-Ômega, 1976).

Já a terceira tentativa de colonização da região norte-noroeste fluminense, levada a efeito por sete fidalgos, parentes, agregados e escravos, a partir da planície fluviomarinha, vai encontrar os primitivos habitantes abatidos e retraídos por incursões eventuais de represália feitas por europeus, como procurou demonstrar Theodoro Sampaio (“Peregrinações de Antônio Knivet no Brasil no Século XVI.” Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Tomo especial consagrado ao Primeiro Congresso de História Nacional, parte II). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1915. Gabriel Soares de Souza informa que, quando de sua passagem pela região, os goitacás já estavam interiorizados (Tratado descritivo do Brasil em 1587, 3ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938). O Roteiro dos Sete Capitães revela que os primeiros colonos bem sucedidos colocaram os pés na planície norte-fluminense em dezembro de 1632, precavidos contra a ferocidade dos indígenas, certamente pelas advertências ouvidas de outrem. No entanto, “… tivemos a notícia que os selvagens Eutacazes mais ferozes costeavam pelo norte do rio Paraíba até as cordilheiras das minas de ouro.” Um índio goitacá com quem mantiveram contato ter-lhes-ia dito que “… se fossem os verdadeiros Eutacazes, que costearam o norte do Rio Grande (Paraíba do Sul), nós éramos mortos; que antigamente costeavam estas campinas, porém o seu velho chefe deles era um índio de muito más entranhas e cismático, e por essa razão é que ficou de uma vez costeando pelo norte do Rio Grande.

Numa de suas cartas, Pero de Góis informa que teve uma vista vazada por uma flecha dos goitacás. Teriam sido os goitacás instalados à margem esquerda do rio Paraíba do Sul ou todos os grupos goitacás tentaram resistir à invasão europeia? Pelo relato de Miguel Aires Maldonado e José de Castilho Pinto, um século depois, os goitacás da margem direita revelavam mansidão.
Refração, aculturação e extermínio.

Entre os goitacás com quem provavelmente os Sete Capitães fizeram contato, já se encontravam náufragos europeus. Diz também o documento atribuído a dois deles que um negro foi avistado na localidade onde hoje fica o município de Quissamã. Em troca de alimentos frescos – pescado e caça –, os colonos ofereciam miçangas e aguardente, muito apreciados pelos nativos. Em suma, os goitacás já estavam passando por um franco processo de refração, aculturação e extermínio.

Segundo Simão de Vasconcellos, que escreve no século XVII, os goitacás foram exterminados por portugueses vindos de Cabo Frio e de Reritiba (atual Anchieta) por julgarem que eles haviam devorado náufragos que, na verdade, fugiram com pavor dos temíveis canibais (Op. cit.). Esta versão faz parte da imaginação fantasiosa do padre e de tantos outros viajantes, ao mesmo tempo horrorizados e fascinados pelo componente maravilhoso que cercava os goitacás. Em 1657, André Martins da Palma escreve ao rei de Portugal declarando que “… três anos (…) gastei no propagamento do gentio indômito, que senhoreava estes campos, (…) domei a mor parte de todo ele, (…) vêm hoje ao resgate, trazendo suas mercancias de cera, mel e mais lavouras da terra, a que sua indústria chega para com elas levar ferramentas, enxadas, foices, machados para lavrar a terra, e fazer roçarias, que é o pão da terra… (Op. cit.)

Ataque de índios goitacás. Sem autor e sem data. Reprodução de Alberto Frederico de Morais Lamego
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No último quartel do século XVIII, o criterioso capitão Manoel Martins do Couto Reis dá notícia dos remanescentes das nações indígenas que habitavam a região norte-noroeste fluminense. Sobre os goitacás, já extintos, diz ele que as informações mais fidedignas situam-nos nas campinas “…compreendidas entre a Lagoa Feia, de Carapebus, e Ponta de São Tomé (…), possuindo também toda a costa do mar correspondente, até a vizinhança de Macaé.” Sem poupar críticas aos colonos, ele os fulmina com a seguinte observação: “Neste tempo era o principal, e mais interessante objeto das riquezas na América, fazer oposição aos índios, não só a fim de se lhes aquebrantar os ânimos, e forças; como de os sujeitar debaixo do jugo da escravidão. Nisto tanto se exercitaram os nossos Paulistas antigos, que apesar dos maiores incômodos, se ofereciam a viajar pelos mais ásperos sertões do Brasil; aonde procederem em muitas ocasiões contra aquela miserável, e desgraçada gente, com mais barbaridade, que a dos mesmos bárbaros”.

E, num arroubo de humanismo, ele exclama: “Nada poderá haver mais sensível à vida humana, que a triste sujeição do cativeiro, e em consequência deste, mal pode um coração viver tranquilo, por mais agrados, que receba de um benigno Sr., pois basta a lembrança da perdida liberdade, para serem as mortificações continuadas(COUTO REIS, Manoel Martins do. Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reis, 1785: descrição geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos dos Goytacazes, 2a ed, rev. e atual. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2011).

Em anexo a seu famoso relatório, ele mostra em que estado se encontravam os povos indígenas que habitavam o norte-noroeste fluminense. Das nações que confinavam no passado com os goitacás, os saruçus ainda existiam, habitando as montanhas e vales, entre os rios Macaé e São João. Os coroados, povo guerreiro, assentaram-se entre a margem setentrional do rio Paraíba do Sul (a oeste da primeira cachoeira) e a serra da Frexeira, subindo a barra do rio Pomba até as fronteiras com Minas Gerais. Os puris ocupavam o território que se estendia do rio Pomba, confinando com os coroados, até o norte do rio Muriaé. Esclarece nosso cronista que esse povo errava dentro dos seus limites e era muito cruel. Quanto aos guanhuns, depois de se lhes impor uma diáspora, estavam vivendo entre os rios Imbé e Paraíba do Sul, ao norte da lagoa de Cima. Mostra que os guarulhos se confundiam com os coroados e condena a expressão bugre para nomear nações tão distintas. Em seguida, com a acuidade de um etnógrafo, explica que os idiomas falados por esses povos diferiam muito da língua guarani, chamada língua geral no Brasil, na verdade imposta pelos jesuítas. Aliás, não revela, quanto ao tratamento dado aos índios, a mínima simpatia pelos missionários desta Ordem religiosa, que, segundo ele, levavam numa das mãos a cruz e na outra cadeias ocultas, confinando os nativos em reduções para se apossarem de suas terras. Fala-nos dos acampamentos simples dos puris; das aldeias com casas pequenas e efêmeras; das casas cobertas de palha dos saruçus; das casas grandes dos coroados, construídas com madeira forte e paredes muito bem barreadas, sem janela e porta somente de um lado, sendo o teto feito com casca de madeira ou palha. Descreve práticas agrícolas e hábitos alimentares, tecnologia e crenças religiosas. Enumera as reduções construídas por missionários e deixa transparecer o processo de refração, aculturação e extermínio de tais povos, principalmente por meio das bebidas alcoólicas (COUTO REIS. Op. cit.).

Em 1815, passou pela região, em sua excursão científica, o naturalista alemão Maximiliano, príncipe de Wied-Neuwied. Àquela altura, as nações indígenas estavam a ponto de perder seus derradeiros traços de identidade cultural e à beira da desagregação. Visitou ele uma missão religiosa em São Fidélis reunindo remanescentes de índios coroados, coropós e puris e teve notícia da Aldeia da Pedra (atual Itaocara), onde índios coroados e puris haviam feito guerra recente. Registrou a presença de coropós na margem direita do rio Paraíba do Sul até a zona fronteiriça da embocadura do rio Pomba. Deste até o mar, pela margem esquerda, erravam ainda os puris em “estado selvagem”. Ao encaminhar-se para o Espírito Santo pelas densas florestas estacionais que então se estendiam entre a margem esquerda do rio Paraíba do Sul e a margem direita do rio Itabapoana, arribou na fazenda Muribeca. Soube lá que, no mês anterior à sua chegada, nativos puris ainda hostis haviam atacado e abatido trinta bois e um cavalo da fazenda, além de matar um escravo adolescente. Segundo informações, o rapazote fora descarnado e devorado. Um grupo que saiu para uma operação de represália encontrou ainda pés e mãos da vítima assados e roídos. Mesmo impressionado com a violência atribuída aos nativos, Maximiliano comenta: “É sem dúvida desagradável tê-los tão perto; mas deve ser lembrado que os colonos, pelo mau tratamento que dispensaram aos habitantes aborígenes, logo no começo, foram os causadores principais dessa hostilidade. Nos primeiros tempos, a avidez de lucros e a sede de ouro aboliram todos os sentimentos humanos dos colonizadores europeus; consideravam-se animais esse homens pardos e nus, criados apenas para trabalhar, como o demonstra a controvérsia, no seio do próprio clero da América espanhola, sobre se os selvagens deviam ou não ser considerados homens como os europeus…” (WIED-NEUWIED, Maximiliano de. Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1989).

Purise escalando árvores. São Fidélis. Desenho de Maximiliano de Wied-Neuwied, 1815

As pujantes e temidas sociedades nativas da região norte-noroeste fluminense foram se esfacelando em ritmos diferenciados. Conforme análise de Natan Wachtel, os povos nômades revelam mais dificuldades para a aculturação, uma vez que seu modo de vida é diametralmente oposto ao da sociedade ocidental em suas múltiplas manifestações. Tendendo à irredutibilidade, eles acabam por refugiar-se no interior – até onde possível – ou por serem dizimados (WACHTEL, Nathan. “A aculturação” In: LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre. História: Novos Problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976). Um estudo fartamente documentado de Joaquim Norberto Souza Silva mostra que, em meados do século XIX, os aldeamentos indígenas de Nossa Senhora das Neves e Santa Rita, de Santo Antônio de Guarulhos, de São Fidélis, de São José de Leonissa, de Santo Antônio de Pádua e de São Félix estertoravam. Neles, os índios representavam a minoria da população, invadidos que foram, pouco a pouco, por elementos brancos. Alguns nativos ainda existiam fora das missões, mas muito descaraterizados em sua cultura. Em quase todos os casos, Joaquim Norberto atribui o fracasso a maus missionários, não ao processo internalizado de ocidentalização (SILVA, Joaquim Norberto de Souza. “Memória histórica e documentada das aldeias de índios da Província do Rio de Janeiro”. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, 3a série, no 14. Rio de Janeiro: 2o trimestre de 1854). Os colonos desmontaram as sociedades nativas. Delas não restaram sequer traços físicos nos atuais habitantes da região, apenas a toponímia, mesmo assim de origem tupi. Da mesma forma, foram desmontados os ecossistemas e empobrecida a biodiversidade. Natureza e seres humanos nativos tiveram igual sorte. E das piores.

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