Plantas são mais atentas do que parecem. Um novo estudo mostrou que algumas espécies vegetais são capazes de identificar sons específicos de abelhas e responder a eles de maneira surpreendente: produzindo mais néctar.
Pesquisadores da Universidade de Turim, em colaboração com instituições da Espanha e Austrália, revelaram que o zumbido das abelhas ativa um mecanismo de aumento na produção de néctar em flores como as bocas-de-leão (Antirrhinum majus), especialmente quando se trata de suas polinizadoras naturais, como a abelha Rhodanthidium sticticum, também conhecida como “abelha-caracol”.
A descoberta, apresentada na 188ª Reunião da Sociedade Acústica da América e no 25º Congresso Internacional de Acústica, sugere que as plantas desempenham um papel mais ativo na relação simbiótica com os polinizadores do que se imaginava até então.
Como funciona a resposta das plantas ao som?
As flores reagem a sons muito específicos. No experimento, os cientistas reproduziram gravações do zumbido da abelha-caracol perto das bocas-de-leão. A reação foi clara: aumento imediato na produção de néctar e açúcar e alterações na expressão genética das flores, justamente nos genes ligados à produção e transporte dessas substâncias.
Esse comportamento demonstra que as plantas podem “ouvir” e responder a estímulos vibroacústicos, discriminando os sinais característicos de polinizadores eficientes, em uma sofisticada estratégia de sobrevivência e reprodução.
“Ao responder ao sinal vibroacústico de um polinizador eficiente, as plantas podem impulsionar seu sucesso reprodutivo”, afirmou a líder do estudo, Francesca Barbero, professora de zoologia da Universidade de Turim.

Coevolução e fidelidade dos polinizadores
A hipótese dos cientistas é que esse mecanismo ajude a fidelizar os polinizadores mais vantajosos, favorecendo a permanência desses insetos por mais tempo nas flores que recompensam com maior quantidade de néctar. O estudo também busca entender se esse aumento de néctar atrai somente polinizadores “bons” ou também os chamados “ladrões de néctar” — insetos que consomem néctar sem promover a polinização.
Se confirmado, esse comportamento pode ser uma poderosa ferramenta de adaptação evolutiva das plantas, demonstrando que elas não apenas dependem dos polinizadores, mas atuam ativamente para garantir que o encontro seja vantajoso.
Potencial para a agricultura e conservação
A equipe de Barbero investiga agora se os sons podem ser usados para estimular plantas agrícolas a atrair polinizadores específicos, abrindo portas para novas práticas sustentáveis na agricultura, inclusive em cenários onde há escassez de insetos.
“A variedade de formas com que as plantas percebem o ambiente é surpreendente”, disse Barbero. “De insetos a mudanças climáticas, as respostas que elas desenvolvem são complexas e adaptativas.”
Além de reforçar a importância dos polinizadores para a produção de alimentos e para a biodiversidade, a pesquisa aponta caminhos para uso de bioacústica como ferramenta de manejo agroecológico e para estratégias de conservação da flora e fauna interdependentes.


