São três mil árvores na propriedade, as práticas ambientais viraram rotina e não atrapalham a produção agrícola
O agricultor Francisco Fortunato, o “Chico da Roça” como é conhecido, tinha apenas uma certeza quando colocou os pés na terra há 25 anos: plantar árvores. O desejo vem dando certo, até agora a propriedade que tem 10 hectares e fica no assentamento Zumbi dos Palmares Quatro, em Campos dos Goytacazes, tem cerca de 3.000 árvores plantadas. O plantio é consorciado com plantas de ciclo curto, além da criação de animais. Toda a produção é vendida para a merenda escolar e outras instituições governamentais.
O título de “plantador de água” se deve principalmente pelas proteções as nascentes na pequena propriedade, são três “olhos d´água” e todos recebem cercamento para evitar que animais acessem o local. A proteção faz com que nunca falte água para os cultivos, algumas culturas, Francisco usa a irrigação por gotejamento para atender as necessidades das plantas.

A produção agrícola não impede as práticas sustentáveis que são feitas, na área dedicada as lavouras, ele consegue fazer policultivos como feijão, laranja, mandioca, abóbora, banana entre outros. O agricultor também atua na pecuária de corte com 30 animais, todo o esterco produzido pela criação vai direto para uma compostagem, que depois de passar por processos de decomposição, e serve para a adubação das plantas.

“Comecei a fazer as mudas, não tinha muita noção e nem técnica, mas comecei fazendo com o que achava na roça: arueira, jamelão, mujico, entre outras. O plantio foi feito pensado para não ficar tão próximo ao córrego e para fazer muita sombra. Quando você vem do sol e você chega aqui, embaixo de uma árvore dessa é uma felicidade. Porque o produtor, ele trabalha na roça, né? Ele vive com o lombo no sol. Aí eu fico olhando qual árvore eu tenho mais perto de mim, para ficar descansando um pouco”, explica Francisco.
A mãos grossas de muito trabalho são marcas de uma vida dedicada a roça. Ele tem 67 anos e muita sintonia com a natureza, o agricultor conta que até conversa com as plantas, para ele esse é o resultado de tanta dedicação: o conforto térmico dentro da propriedade. De acordo com o secretário de agricultura, pecuária e pesca, Almy Junior, o pequeno agricultor dedica 30% dos seus 10 hectares para o plantio de árvores, uma preocupação com meio ambiente que não atrapalha na produtividade.

“Ele é um produtor de água. A propriedade dele fica bem perto da Lagoa do Campelo, que é uma das maiores lagoas aqui, tem o tamanho da Lagoa de Cima, e o pessoal não conhece muito. Ele está preservando, reconstituindo a vegetação nativa, com apoio também da UENF, por exemplo, muitos professores fizeram doação de mudas. Se você observar o que ele fala, o que ele diz sobre isso, ele tem o bebedouro para os animais e tem a nascente. E o pé do boi é clássico que ele é um predador, acaba depredando o lugar. Então, a gente dá assistência até para construir os bebedores em lugares específicos. Seu Francisco preserva a nascente. Isso é hoje, a função mais importante do mundo. Quem produz água tem que ser muito bem remunerado”, afirma o secretário de agricultura.
De acordo com o engenheiro agrônomo, Romulo Beltrame, a recomposição vegetal dessa área é importante. Campos é uma cidade muita seca e chove pouco. A ação feita pelo agricultor promove segurança hídrica e estabilidade térmica. As nascentes são floramento do lençol freático. Então, esse floramento é uma área de preservação permanente chamadas de APP hídrica. As áreas são protegidas pela legislação ambiental. Quando identifica um olho d’água, o importante é isolar a área.

“Ele acabou se adaptando, ele planta árvore, cerca a nascente e também consegue fazer o plantio. De maneira simples, tem muita sabedoria, por exemplo, não planta cana porque poderia pegar fogo e queimar, então ele fez também um uso racional do plantio de lavoura que é ideal para proteger as árvores. A gente identificou que ele tem alguns citros plantados, então ele preservando a nascente, vai conseguir garantir a produção, porque o citros é uma cultura exigente em regime hídrico, se faltar água, a produção fica diretamente afetada. Ele foi muito feliz na escolha dele, como um pioneiro de plantador de água, em preservar suas nascentes para futuramente isso impactar na sua produção agrícola” afirma o engenheiro.
Vendas do Governo
A produção agrícola é escoada em programas do governo federal que são executados pelo município de Campos, o Programa de Aquisição de Alimentos, PAA e o Programa Nacional de Alimentação Escolar, PINAE. Onde ele garante que o volume de produção é comprado, além disso, o preço é justo. Com a sazonalidade, as vendas acontecem no decorrer do ano.
“Quando a gente dá assistência, valoriza a produção dele e traz ele pra vender pro sistema público. Isso fortalece um programa robusto de sustentabilidade ambiental, econômica, social. Ele é um exemplo que nos inspira”, acrescenta o secretário de agricultura.

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