O que por décadas foi considerado apenas um “conto popular” da África Central acaba de ser documentado pela ciência com detalhes impressionantes. Um pequeno peixe da bacia do alto Congo, o Parakneria thysi, medindo apenas entre 3,7 e 4,8 centímetros, foi flagrado escalando as rochas verticais das quedas de Luvilombo, vencendo uma altura de 15 metros — o equivalente a um prédio de cinco andares.
O estudo, publicado na revista Scientific Reports, revela uma jornada de persistência extrema que dura quase 10 horas para ser concluída.
A estratégia da subida: 15 minutos de ação, 9 horas de descanso
Diferente do que se possa imaginar, o peixe não sobe a cachoeira em um impulso frenético. A subida é uma maratona de paciência:
- Movimento explosivo: O tempo real gasto em movimento é de apenas 15 minutos. Para vencer um metro de altura, eles precisam de 30 a 60 segundos de esforço intenso.
- Pausas estratégicas: O restante das 10 horas é dedicado ao descanso. Os pesquisadores identificaram 9 “degraus naturais” na rocha onde os peixes param por até uma hora para recuperar as energias.
- Adaptação física: Para não serem varridos pela força da água, eles utilizam nadadeiras com estruturas em forma de gancho e uma musculatura potente que funciona como uma ventosa biológica.

Por que escalar?
A ciência ainda busca a resposta definitiva, mas as hipóteses são fascinantes. Uma delas é que esses peixes foram arrastados rio abaixo durante as violentas enchentes da estação chuvosa e estão apenas “tentando voltar para casa”. Outra possibilidade é a busca por áreas mais calmas, com mais alimento e menos predadores no topo da queda d’água.
Um detalhe curioso: apenas os jovens conseguem o feito. Os adultos, por serem maiores e mais pesados, não possuem a relação força-peso necessária para aderir às rochas úmidas sem cair.

Natureza sob ameaça
O fenômeno ocorre em uma janela curta de tempo, entre abril e maio, no fim da estação chuvosa. No entanto, a sobrevivência desses “alpinistas aquáticos” está em risco. A pesca ilegal e o desvio de águas para irrigação podem secar as rotas de escalada, interrompendo um ciclo milenar de migração.
Para os pesquisadores, entender esse comportamento não é apenas uma curiosidade biológica, mas uma ferramenta para promover o ecoturismo e a conservação dos rios africanos, mostrando que até os menores seres guardam capacidades épicas.


