O mundo das viagens mudou. Após um 2025 recorde, com mais de 1,5 bilhão de turistas cruzando fronteiras, o Barômetro do Turismo Mundial da Organização das Nações Unidas (ONU) revela uma tendência clara: o viajante moderno cansou das multidões de Veneza ou Paris. Em 2026, o crescimento mais acelerado não está na Europa saturada, mas em países que oferecem o que o luxo atual mais deseja: autenticidade, silêncio e conexão profunda com a natureza.
Com um crescimento global de 4%, o setor finalmente se estabilizou nos níveis pré-pandemia, mas a distribuição desse fluxo é inédita. O Brasil lidera essa revolução com um aumento impressionante de 37% nas chegadas, seguido por países como Butão, Egito e Etiópia.
Identidade forte vs. saturação
Segundo Steven Vigor, CEO da consultoria Revigorate, estamos presenciando o nascimento dos “Destinos Emergentes de Identidade”. São locais que já possuem infraestrutura de ponta e acesso facilitado, mas que ainda não perderam sua essência para o turismo de massa.
“O viajante de 2026 busca o que é singular. Países que preservaram suas paisagens e culturas são os grandes vencedores desta década”, afirma Vigor. Mas como esses destinos estão gerindo esse sucesso sem cair na armadilha do sobreturismo?
Nesta matéria, vamos explorar os cinco países que estão redesenhando o turismo global e as estratégias que estão usando para crescer de forma consciente.
1. Brasil: O campeão global de crescimento em 2026
Nenhum destino no planeta registrou um aumento anual tão expressivo quanto o Brasil. Com um salto de 37% nas chegadas internacionais, o país deixou de ser apenas uma “promessa” para se tornar o epicentro do turismo consciente e de luxo na América Latina.

Conectividade: A chave da virada
Este sucesso não foi por acaso. Grande parte do crescimento foi impulsionado por uma estratégia agressiva da Embratur, que em 2024 lançou parcerias público-privadas para subsidiar novas rotas aéreas. Como destaca Marcelo Freixo, presidente do órgão: “Não faz sentido ter interesse internacional se não houver voos diretos e preços competitivos”. O resultado é uma malha aérea mais robusta, ligando o mundo diretamente a diversas capitais brasileiras.
O surgimento do “turista de luxo consciente”
O perfil de quem visita o Brasil mudou. Se antes o foco era apenas o lazer rápido, hoje o país atrai o executivo que viaja com a família e prolonga a estadia.
- Bem-estar e natureza: Com mais de 9.000 km de litoral e um interior vasto, o Brasil tornou-se o destino ideal para quem busca isolamento com sofisticação.
- Câmbio competitivo: O valor do Real frente ao Dólar e ao Euro consolidou o país como um destino de alto valor agregado, onde o turista estrangeiro consegue experiências premium por um preço justo.
O desafio do sobreturismo “diferente”
Diferente da Europa, onde cidades inteiras ficam intransitáveis, o desafio brasileiro é a diversificação. O objetivo atual é tirar o foco exclusivo de Rio de Janeiro e São Paulo (que se consolidou como polo cultural e gastronômico global) e levar o turista para novas fronteiras.
Destaques emergentes em 2026:
- Belém (PA): Com a gastronomia amazônica em alta e o histórico Mercado do Ver-o-Peso, a cidade tornou-se um hub para quem quer “comer a floresta” de forma sustentável — de formigas a temperos únicos.
- Turismo segmentado: Gisele Abrahão, da Global Vision Access, explica que o Brasil “floresceu mais tarde”, o que permitiu ao setor aprender com os erros de outros países e focar em experiências qualificadas e engajamento real com comunidades locais.
“Ao visitar duas cidades brasileiras diferentes, você percebe que existem muitas ‘versões’ do Brasil. Conhecer cada uma delas é uma verdadeira aventura.” — Marco Amaral, Minor Hotels.
2. Egito: O despertar do gigante e o triunfo do “slow travel”
O renascimento do turismo egípcio tem um marco central: a inauguração definitiva do Grande Museu Egípcio (GEM). Localizado à sombra das Pirâmides de Gizé, o museu — que levou mais de duas décadas para ser concluído — tornou-se o principal catalisador para viajantes que aguardavam a confirmação da sua abertura para agendar a viagem.

O efeito do Grande Museu e a nova segurança
Segundo Jorge Salas-Guevara, fundador da New Paths Expeditions, a abertura do GEM resolveu uma “pendência” histórica com o turista global. O aumento de quase 50% nas consultas de reserva entre 2024 e 2025 reflete não apenas a sede por cultura, mas também uma mudança na perceção de segurança.
- Turismo de família e feminino: O país tem visto um crescimento notável de famílias com crianças e mulheres a viajar sozinhas, sentindo-se mais confiantes com os novos protocolos de segurança e infraestrutura turística.
- O eclipse de 2027: O setor já se prepara para o eclipse solar total visível do Egito em 2027, que já está a gerar reservas antecipadas e um interesse renovado por regiões menos exploradas.
A revolução do “slow travel” no Nilo
Para combater o risco de sobreturismo nos templos mais famosos, os operadores estão a implementar estratégias de “viagem lenta”:
- Dahabiyas vs. cruzeiros: Em vez dos grandes navios de cruzeiro, a tendência agora são as dahabiyas — barcos à vela tradicionais de madeira. Elas permitem que grupos menores acedam a templos e vilarejos onde os grandes navios não conseguem aportar, garantindo uma experiência mais íntima e silenciosa.
- Ciclismo no deserto: Uma novidade absoluta em 2026 é o turismo ativo. Pela primeira vez, roteiros de bicicleta ao longo do Nilo permitem que os turistas cruzem plantações de tâmaras e vilarejos rurais, conectando-se com a população local num ritmo que os autocarros de turismo não permitem.
“Ainda visitamos os templos e as pirâmides, mas estamos a chegar lá num ritmo que nos permite aproveitar tudo ao máximo, longe das multidões.” — Laurens Winkel, CEO da Boat Bike Tours.
3. Etiópia: O renascimento do berço da humanidade
A recuperação da Etiópia é o principal destaque do turismo em toda a África, que viu um crescimento regional de 8% no último Barômetro da ONU. O retorno da estabilidade na região de Tigray e a retomada total dos voos domésticos em 2024 foram o sinal verde que o mercado esperava para redescobrir um dos países mais culturalmente ricos do planeta.

Investimento em confiança e infraestrutura
O governo etíope não esperou apenas o fim dos conflitos; ele agiu para modernizar a recepção ao turista. O lançamento da plataforma digital Visit Ethiopia em 2025 facilitou vistos e logística, enquanto novos hotéis de alto padrão começaram a operar nos principais circuitos históricos.
- Público jovem e ativo: Se antes a Etiópia era um destino apenas para arqueólogos e historiadores, em 2026 o país atrai um público mais jovem em busca de atividades ao ar livre e turismo de aventura.
- Segurança em grupos: O aumento da confiança é tão sólido que o setor já registra o retorno de grupos escolares e grandes expedições organizadas, algo impensável há três anos.
Um museu a céu aberto: Arqueologia e Antropologia
Para o mercado de luxo e expedições, a Etiópia oferece uma imersão que poucos lugares conseguem igualar:
- O legado de Axum e Lalibela: No norte, as igrejas escavadas na rocha de Lalibela continuam sendo o “santo graal” dos viajantes. A arquitetura medieval de Gondar completa esse mergulho no passado imperial do país.
- Vida selvagem única: Nas Montanhas Simien, o turismo focado em história natural permite encontros próximos com o raro macaco-gelada, uma espécie encontrada apenas no planalto etíope.
- Mosaico cultural no sul: O Vale do Omo permanece como um dos últimos refúgios onde comunidades mantêm tradições ancestrais intactas, atraindo o “turista consciente” que busca entender a diversidade da experiência humana.
“A Etiópia é um dos destinos mais ricos do mundo para vivenciar arqueologia, antropologia e história natural em grande escala. Estamos vendo um retorno constante de visitantes que haviam adiado seus planos por anos.” — Jorge Salas-Guevara, fundador da New Paths Expeditions.
4. Seicheles: Muito além da lua de mel
Tradicionalmente conhecidas como o destino definitivo para recém-casados, as Seicheles estão operando uma transição inteligente em 2026. O arquipélago conseguiu diversificar seu apelo, atraindo agora famílias e viajantes focados em bem-estar (wellness), sem abrir mão do seu “charme de luxo descontraído”.

Liderança em conservação marinha
O grande trunfo das Seicheles não são apenas as suas areias brancas, mas o que está sob a água. O país tornou-se um líder global em sustentabilidade ao proteger 30% de todo o seu território oceânico.
- Praias para todos: Um ponto de honra para o destino é a inclusão: nas Seicheles, não existem praias privadas. Mesmo os resorts mais luxuosos devem garantir o acesso de moradores locais e turistas às suas faixas de areia, preservando a identidade democrática das ilhas.
- Gastronomia consciente: O setor hoteleiro está se adaptando à demanda por sustentabilidade alimentar. Menu veganos e o uso de ingredientes de fazendas ecológicas locais, como a Vallée des Fruits, estão substituindo a dependência de importações de longo curso.
Experiência de imersão e cultura crioula
Para os líderes do setor local, o segredo do crescimento foi mostrar que há vida além da espreguiçadeira:
- Cultura viva: O incentivo para que os turistas participem de danças tradicionais Moutya ao redor de fogueiras ou visitem oficinas de artesãos locais, como no centro Belliche, criou uma conexão real com a cultura crioula.
- Aventura suave: Caminhadas guiadas até cachoeiras escondidas e mergulho com snorkel em santuários marinhos recuperados tornaram-se as atividades favoritas das famílias que agora buscam o destino.
“Nas Seicheles, você encontrará um luxo profundamente enraizado na cultura local. As ilhas continuam sendo um lugar para todos, onde os moradores apreciam a beleza tanto quanto os turistas.” — Naji Esta, Gerente Geral do Anantara Maia Seychelles Villas.
5. Butão: O antídoto para o cansaço do mundo moderno
O Butão nunca buscou o turismo de massa. Desde que abriu suas fronteiras na década de 1970, o reino adotou a política de “Alto Valor, Baixo Volume”. O salto de 30% em 2025 reflete um novo tipo de viajante: aquele que já conheceu os principais destinos do mundo e agora busca algo “mais profundo”, uma viagem que seja, na verdade, uma jornada interior.

A taxa do valor real
Diferente de qualquer outro destino, o Butão cobra uma Taxa de Desenvolvimento Sustentável (SDF) de US$ 100 por noite. Esse valor não é apenas uma barreira de entrada, mas um investimento direto no país:
- Financiamento público: O recurso arrecadado paga pela saúde e educação gratuitas dos cidadãos butaneses, além de financiar a infraestrutura de carbono negativo do reino.
- Felicidade nacional bruta: Em vez de medir apenas o PIB, o país foca no bem-estar. O turismo é visto como uma forma de troca cultural onde o visitante aprende com os princípios locais de impermanência e espiritualidade.
Silêncio, motocicletas e reflexão
Em 2026, as experiências de luxo no Butão foram redefinidas. O “novo luxo” aqui é o acesso ao sagrado e ao simples:
- Conexão espiritual: Sentar-se com um monge sênior para uma bênção particular ou compartilhar uma refeição em uma fazenda isolada em vales remotos tornou-se mais valioso do que visitar monumentos lotados.
- A imensidão sobre duas rodas: Uma tendência crescente é explorar as estradas sinuosas do Himalaia de motocicleta, uma forma visceral de sentir a solidão e a grandiosidade das montanhas.
- Caminhadas e autoconhecimento: O Butão oferece a rara oportunidade de parar. Como afirma Yeishan Goel, CEO da Himalayan Echoes, o destino atrai quem busca um antídoto para a vida hiperconectada.
“O Butão oferece aos visitantes uma rara oportunidade de refletir, que é, em última análise, o que muitos viajantes buscam hoje, mesmo que não percebam isso a princípio.” — Yeishan Goel, CEO da Himalayan Echoes.
O futuro é local
O panorama de 2026 deixa uma lição clara: o turismo do futuro não é sobre “onde” você vai, mas sobre “como” você interage com o destino. Seja nas florestas do Brasil, nas águas das Seicheles ou nos templos do Butão, os vencedores são aqueles que entenderam que a preservação da identidade local é o ativo mais caro do mercado global.
Fonte: BBC News


