Imagem: Getty Images
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O impacto oculto dos data centers e da inteligência artificial no consumo de energia e água

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Com a crescente demanda por conectividade e inteligência artificial (IA), os data centers — centros de armazenamento e processamento de dados — estão se multiplicando no Brasil. Essas estruturas, essenciais para processar desde fotos em redes sociais até serviços de streaming e apostas online, também são grandes consumidoras de energia e água.

Crescimento acelerado no Brasil

De acordo com a Associação Brasileira de Data Centers, o país já conta com cerca de 162 unidades em operação, com capacidade instalada entre 750 MW e 800 MW — o equivalente ao consumo energético de uma cidade de dois milhões de habitantes.


A previsão para 2038 é que essa demanda cresça mais de 20 vezes, alcançando 17.716 MW, impulsionada pela popularização da IA. Para efeito de comparação, esse consumo seria equivalente ao de uma cidade com 43 milhões de habitantes.

Essa expansão já atrai investimentos bilionários. Um exemplo é o projeto da Casa dos Ventos, no Porto do Pecém (CE), com previsão de 300 MW de capacidade, investimento de R$ 50 bilhões e operação a partir de 2027. O empreendimento desperta interesse de gigantes da tecnologia, como a ByteDance, dona do TikTok.

Data centers têm refrigeração ininterrupta para evitar superaquecimento de componentes elétricos / Getty Images

O enigma do consumo real

Apesar de seu tamanho e relevância, o funcionamento dos data centers ainda é pouco transparente.
Alex de Vries, economista e fundador do projeto Digiconomist, afirma que essas estruturas funcionam como “caixas-pretas”, dificultando estimativas precisas de consumo de energia e impacto ambiental.
Segundo ele, as empresas sabem exatamente quanto gastam, mas optam por não divulgar.

A partir de cálculos indiretos envolvendo chips de alto desempenho, De Vries estima que a IA já consome a mesma quantidade de energia usada por toda a Holanda, podendo dobrar até 2025.

IA e o consumo de água: o caso do ChatGPT

Um estudo da Universidade da Califórnia, Riverside, repercutido pelo Washington Post, estimou que a geração de um e-mail de 100 palavras pelo ChatGPT poderia consumir cerca de 519 ml de água — o equivalente a uma garrafa.
O valor varia de acordo com o sistema de refrigeração e a localização do data center, podendo ir de 235 ml no Texas a 1.468 ml em Washington.

O consumo ocorre de forma direta, no resfriamento das máquinas, ou indireta, quando a energia utilizada vem de hidrelétricas. Existem dois principais modelos de refrigeração:

  • Torres de resfriamento abertas, que consomem mais água devido à evaporação.
  • Ciclo fechado, que demanda menos água — modelo previsto para o data center no Ceará.

Renováveis também têm impacto

Mesmo com uso de energias renováveis, como solar e eólica, há efeitos ambientais. Pesquisas apontam que turbinas eólicas podem gerar poluição sonora e conflitos territoriais com comunidades tradicionais.
No litoral do Ceará, por exemplo, usinas bloquearam acessos, aterram lagoas usadas para pesca e afetaram a subsistência local. A energia solar também apresenta impactos, como uso de agrotóxicos na manutenção de áreas e gasto de água para limpeza de painéis.

Soluções brasileiras e inovação sustentável

Segundo Fabro Steibel, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), o Brasil pode criar soluções mais sustentáveis para data centers, aproveitando a escassez de recursos como incentivo para inovação.
Um exemplo é a lei de fomento à IA de Goiás, que prevê uso de biometano para alimentar data centers. O estado pretende usar os chips mais avançados da Nvidia em oito supercomputadores, integrados a 70 projetos de pesquisa na Universidade Federal de Goiás.

Especialista tenta estimar consumo de energia da IA a partir de dados de chips / Getty Images

O desafio para o futuro

O avanço dos data centers e da IA é inevitável, mas especialistas defendem maior transparência das empresas sobre o consumo real de energia e água.
Com a demanda crescendo em ritmo sem precedentes, o desafio será equilibrar inovação tecnológica, sustentabilidade ambiental e impactos sociais — garantindo que o futuro digital não seja pago com custos ocultos para o planeta.

Fonte: BBC News Brasil

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