Vista aérea da costa iraniana e da ilha de Qeshm, no estreito de Ormuz — Foto: REUTERS/Stringer/Foto de Arquivo
Vista aérea da costa iraniana e da ilha de Qeshm, no estreito de Ormuz — Foto: REUTERS/Stringer/Foto de Arquivo

O Estreito de Ormuz: A maravilha geológica que move (e trava) a economia global

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O Estreito de Ormuz é, simultaneamente, o ponto mais estratégico e o mais vulnerável do planeta. Com apenas 48 quilômetros de largura em seu trecho mais estreito, por aqui circula cerca de 25% de todo o petróleo marítimo do mundo. Mas o que poucos sabem é que a razão de tanta riqueza estar concentrada ali — e o motivo de a passagem ser tão perigosamente estreita — reside em uma colisão colossal de continentes que começou há milhões de anos.

Para geólogos como Mike Searle, de Oxford, o estreito é uma “janela” única para observar a mecânica da Terra. É um dos raros lugares onde podemos ver, a olho nu, o impacto entre duas placas tectônicas.

A gênese de um gargalo: A colisão Arábia-Eurásia

A história do Estreito de Ormuz começa há cerca de 35 milhões de anos. Naquela época, o que hoje conhecemos como Península Arábica e o continente Asiático eram separados por um oceano antigo chamado Tétis.

O processo que moldou a região foi a subducção: a Placa Arábica começou a mergulhar sob a Placa Eurasiática (onde fica o Irã). À medida que a Arábia avançava para o norte, o oceano Tétis foi sendo “engolido” e esmagado entre as massas de terra.

Imagine dois carros colidindo de frente em câmera lenta: o metal se retorce, dobra e sobe. Esse “metal retorcido” geológico formou as Montanhas Zagros, no Irã.

“As colisões continentais não terminam num instante. As forças que movem as placas ainda atuam mesmo após dezenas de milhões de anos”, explica Mark Allen, da Universidade de Durham.

A “régua flexível” e o nascimento do golfo

Como essa colisão criou uma via navegável? O segredo está na flexibilidade da crosta terrestre.

  1. A curvatura: Imagine a Placa Arábica como uma régua de plástico. Ao colocar o peso das Montanhas Zagros em uma das extremidades, a “régua” se curva para baixo, criando uma depressão profunda.
  2. O preenchimento: Essa depressão formou a bacia que hoje abriga o Golfo Pérsico e o próprio Estreito de Ormuz.
  3. O nível do mar: Há 20 mil anos, durante a última era glacial, o Golfo era tão raso que podia ser atravessado a pé. Com o derretimento das calotas polares, o nível do mar subiu cerca de 100 metros, inundando a depressão e criando o canal que os navegadores utilizam hoje.

Por que tanto petróleo?

A mesma colisão que criou o estreito foi a que “cozinhou” e aprisionou o petróleo. Durante centenas de milhões de anos, a Placa Arábica esteve submersa em águas rasas, acumulando sedimentos orgânicos. Quando as placas colidiram, essa matéria orgânica foi enterrada e comprimida sob dobras gigantescas de rocha, criando “armadilhas de petróleo” em escala monumental. É por isso que os campos da região duram décadas, enquanto outros secam em poucos anos.

As joias geológicas: Ofiolitos e geleiras de sal

O Estreito de Ormuz guarda estruturas que normalmente estariam escondidas a quilômetros de profundidade:

  • Ofiolitos de Musandam: Na Península de Musandam (Omã), que avança como uma adaga em direção ao Irã, estão expostos os maiores complexos de ofiolitos do mundo — rochas que faziam parte do antigo manto oceânico e foram “empurradas” para cima durante a colisão.
  • Geleiras de sal: No lado iraniano, a pressão tectônica é tão forte que o sal das profundezas da Terra é espremido para a superfície, descendo pelas encostas das montanhas como se fossem rios de gelo, mas feitos de cristal de sal.

Um destino traçado: O fechamento total

A geologia não parou. A Península de Musandam continua avançando para o norte em direção ao Irã a um ritmo constante. Embora o conflito humano atual possa fechar o estreito politicamente em questão de horas, a natureza fará isso de forma definitiva: em cerca de 10 milhões de anos, a colisão continental será completa e o Estreito de Ormuz deixará de existir, transformando-se em uma nova cordilheira de montanhas.

Fonte: iea / Strauss Center / NOAA / Science Direct / NASA / GeoScienceWorld / National Geographic

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