Enquanto o Brasil busca se posicionar como líder da transição energética, uma herança fóssil no Rio Grande do Sul cobra um preço alto em vidas e recursos públicos. Um estudo inédito do Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA), em parceria com o Instituto Arayara, revela que as atividades carboníferas em Candiota (RS) podem causar até 1.300 mortes prematuras e gerar um impacto de R$ 11,7 bilhões nos cofres da saúde até 2040.
O relatório “Estado da Saúde”, divulgado nesta quarta-feira (25/03), aponta que a poluição ultrapassa as fronteiras gaúchas, atingindo países vizinhos como Argentina, Uruguai e Paraguai.
Ameaça transfronteiriça e silenciosa
O carvão mineral brasileiro possui alto teor de cinzas, o que libera grandes quantidades de material particulado fino (PM2.5) durante a queima, extração e transporte. Essas partículas minúsculas entram na corrente sanguínea e estão ligadas a doenças graves:
- No coração e pulmões: Câncer de pulmão, AVC, infartos e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC).
- Na infância: O estudo estima 1.730 emergências hospitalares por asma e centenas de novos casos entre crianças.
- Na maternidade: Estão previstos 460 partos prematuros e 270 nascimentos com baixo peso devido à exposição das gestantes aos poluentes.
Eficiência questionável, impacto desproporcional
Embora o carvão contribua com apenas 1,6% da matriz elétrica brasileira, seus danos ambientais e sociais são massivos. “O carvão não é um contribuinte significativo para a matriz, mas seus impactos negativos são desproporcionalmente altos”, afirma Vera Tattari, analista do CREA.
Além do custo médico, o setor gera uma perda de produtividade invisível: a previsão é de 510 milhões de dias de faltas ao trabalho por motivos de saúde relacionados à poluição até 2040, afetando múltiplos setores da economia regional.
O contraponto dos subsídios
Mesmo diante desses dados, a Lei 15.269/2025 garante a contratação de usinas a carvão até 2040, mantendo o setor vivo através de subsídios federais e isenções tributárias.
Para Juliano Bueno de Araújo, do Instituto Arayara, o Brasil precisa de um plano real de descomissionamento das usinas, garantindo uma Transição Justa que inclua a requalificação dos trabalhadores e a reparação dos danos ambientais. “A continuidade dessas operações contradiz o potencial do Brasil como líder em renováveis”, destaca o relatório.
Lado das Empresas: A Associação Brasileira do Carbono Sustentável (ABCS) afirma que as emissões são monitoradas em tempo real e seguem parâmetros seguros definidos pelas autoridades.
Fonte: Agência Brasil


