Um novo estudo liderado por pesquisadores da The Nature Conservancy revelou os melhores locais do mundo para o reflorestamento com foco na remoção de carbono e na proteção ambiental. Os mapas atualizados identificam 482 milhões de acres — cerca de 195 milhões de hectares — com alto potencial para restaurar florestas densas, sequestrar dióxido de carbono da atmosfera e, ao mesmo tempo, evitar conflitos sociais e impactos negativos à biodiversidade.
As áreas mapeadas incluem oeste do Canadá, leste dos Estados Unidos, Colômbia, Brasil, Europa e Austrália. Se restauradas, essas regiões seriam capazes de remover até 2,43 bilhões de toneladas de CO₂ por ano, valor próximo ao total das emissões anuais da União Europeia, segundo estimativas publicadas pelo The Guardian.
Por que reflorestar?
O reflorestamento tem se consolidado como uma das estratégias mais promissoras e de baixo custo para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Ele faz parte das chamadas Soluções Climáticas Naturais (SCNs) — práticas que visam restaurar e conservar ecossistemas naturais para gerar benefícios climáticos, sociais e econômicos.
De acordo com os autores, o novo mapeamento adota uma abordagem mais prudente e realista do que estudos anteriores, evitando incluir áreas de alto risco social, conflitos fundiários ou baixa viabilidade ecológica. O foco foi em locais com:
- Florestas densas e copas fechadas
- Baixa incidência de incêndios florestais recentes
- Potencial para benefícios climáticos, hídricos e de biodiversidade
- Baixo risco de impactos negativos sobre populações locais e povos indígenas
Critérios de seleção: benefícios múltiplos e riscos mínimos
O estudo priorizou três pilares na definição das áreas elegíveis:
1- Conservação e biodiversidade: florestas restauradas devem melhorar a qualidade da água e proteger habitats críticos.
2- Viabilidade social: evitar locais com alta densidade populacional, presença de comunidades vulneráveis sem segurança fundiária ou dependência direta dos recursos naturais.
3- Aderência política: regiões onde já existem metas de reflorestamento assumidas por governos, o que facilita a implementação prática das iniciativas.
Essa abordagem reduziu drasticamente as estimativas otimistas anteriores. Os novos mapas representam uma redução de 90% em relação a estudos passados, mas oferecem maior precisão, aplicabilidade e realismo político e social.
O papel das árvores no equilíbrio climático
A cientista-chefe do estudo, Susan Cook-Patton, destacou que plantar árvores continua sendo a opção de remoção de carbono mais escalável e econômica disponível atualmente:
“Mesmo se parássemos de emitir hoje, ainda precisaríamos remover o excesso de CO₂ da atmosfera. Árvores são especialistas naturais nessa tarefa. Agora é o momento de escalar essas soluções baseadas na natureza com inteligência e urgência.”
Cook-Patton enfatiza que não se trata de uma solução isolada, mas de um complemento às reduções de emissões de combustíveis fósseis.
Preocupações com conflitos e injustiças sociais
O estudo também lança luz sobre os efeitos colaterais negativos de planos mal executados. O professor Forrest Fleischman, coautor da pesquisa, alerta que ações de reflorestamento em regiões com governança fraca ou insegurança fundiária podem resultar na marginalização de comunidades rurais e indígenas:
“Reflorestar sem considerar os impactos sobre os mais vulneráveis pode perpetuar a pobreza. É essencial que as soluções sejam desenhadas com justiça social e participação comunitária.”
Essa preocupação levou os autores a excluir grande parte da África e do Sudeste Asiático do novo mapeamento, apesar do grande potencial dessas regiões. A decisão, embora conservadora, reflete o receio de intensificar conflitos territoriais ou implementar projetos sem base em direitos locais.
Impacto final: menos área, mais resultado
Mesmo com a exclusão de áreas de risco social ou ecológico, os 195 milhões de hectares identificados ainda podem remover cerca de 1,65 bilhão de toneladas de carbono por ano. Além disso, essas áreas são estrategicamente distribuídas em nações com capacidade institucional e infraestrutura para executar projetos de reflorestamento eficazes.
Segundo Dr. Simon Lewis, da University College London, é preciso equilibrar a prudência com a ambição:
“Não queremos trocar pastagens naturais, como o Serengeti, por plantações de árvores, nem plantar florestas em locais que queimam com frequência. Mas também não podemos ignorar países pobres com potencial de restauração apenas por dificuldades de governança. Os investimentos certos podem proteger o clima e ainda melhorar a vida de comunidades locais.”
Onde e como reflorestar importa
A nova geração de mapas publicada por The Nature Conservancy oferece uma ferramenta estratégica para governos, ONGs e investidores ambientais que buscam priorizar ações com maior retorno climático e menor risco social. A iniciativa também reforça a necessidade de ações urgentes e coordenadas, com base na ciência, no respeito às comunidades locais e na cooperação internacional.
O estudo deixa claro: reflorestar, sim — mas com inteligência, ética e foco nos múltiplos benefícios que as florestas podem proporcionar.


