No laboratório do Professor Chunlei Guo, na Universidade de Rochester, pesquisadores desenvolveram um dispositivo de dessalinização solar com metal preto superabsorvente gravado a laser, uma tecnologia que produz água doce a partir da água do mar, capturando sais e minerais em vez de gerar resíduos de salmoura prejudiciais.  / Crédito: Universidade de Rochester / J. Adam Fenster
No laboratório do Professor Chunlei Guo, na Universidade de Rochester, pesquisadores desenvolveram um dispositivo de dessalinização solar com metal preto superabsorvente gravado a laser, uma tecnologia que produz água doce a partir da água do mar, capturando sais e minerais em vez de gerar resíduos de salmoura prejudiciais. / Crédito: Universidade de Rochester / J. Adam Fenster

Nova tecnologia de dessalinização solar produz água doce sem gerar salmoura tóxica

Compartilhe:

Sistema revolucionário desenvolvido nos EUA utiliza painéis metálicos tratados a laser e física de fluidos para purificar a água do mar e, de quebra, minerar lítio sólido de forma sustentável.

De acordo com dados consolidados pelas Nações Unidas, cerca de 2,2 bilhões de pessoas em todo o mundo ainda sofrem com a falta de acesso a água potável gerenciada de forma segura. Para tentar fechar essa conta, diversas regiões — da seca Califórnia a extensas áreas do Oriente Médio — tornaram-se dependentes de usinas de dessalinização. O grande problema é que os métodos tradicionais (como a osmose reversa e a destilação térmica) são caros, consomem energia em excesso, exigem forte tratamento químico e geram a temida salmoura: um resíduo líquido hipersalino que, ao ser devolvido ao oceano, sufoca os ecossistemas marinhos ao reduzir os níveis de oxigênio.

Para romper com esse ciclo destrutivo, pesquisadores da Universidade de Rochester desenvolveram uma nova abordagem hidrológica. Publicado na renomada revista Light: Science & Applications, o estudo detalha um sistema movido a energia solar que purifica a água de forma ultraeficiente, opera sem insumos químicos prévios e elimina completamente a produção de resíduos líquidos poluentes.

Passo a passo: A engenharia do metal negro capilar

A pesquisa, liderada por Chunlei Guo, professor de óptica e física e cientista sênior do Laboratório de Energética a Laser, funciona por meio de um mecanismo de fluxo contínuo guiado por lasers de precisão:

Passo 1 (Entrada): Captação da água do mar real.

Passo 2 (Condução): A água passa pelos sulcos microestruturados a laser na superfície do metal negro.

Passo 3 (Separação Líquida): Ocorre a evaporação ativa, gerando o vapor que se transforma em água doce filtrada.

Passo 4 (Separação Sólida): Simultaneamente, a física do “efeito anel de café” entra em ação, empurrando e isolando os sais e minerais em sua forma sólida para as bordas do painel.

A Texturização com laser de Femtosegundo: Os pesquisadores bombardearam painéis de metal comuns com lasers de velocidade extrema, transformando-os em um “metal preto” altamente texturizado. Essa superfície ganha duas propriedades: absorve quase 100% da luz solar e desenvolve uma superabsorção capilar (atrai a água com força extrema).

Separação de zonas de evaporação: A água do mar é puxada mecanicamente formando uma película fina sobre a “região ativa” do painel. O calor do sol evapora a água rapidamente, gerando vapor limpo que se condensa em água doce.

Migração do ssal: Enquanto a água vira vapor, os sais e minerais dissolvidos são forçados a se deslocarem para longe da zona de calor, sendo depositados secos nas bordas do metal, chamadas de “regiões passivas”.

O segredo físico: Dominando o “efeito anel de café”

Muitas tecnologias de dessalinização solar funcionam bem em laboratório usando água salgada sintética (apenas água e cloreto de sódio), pois o sal de cozinha forma cristais frouxos fáceis de limpar. Porém, a água do mar real é complexa e contém magnésio e cálcio, que criam crostas duras e densas capazes de entupir os chuveiros, chaleiras e os próprios painéis solares.

Para impedir esse bloqueio, a equipe de Rochester desenhou ranhuras microscópicas específicas na superfície do metal e utilizou a seu favor o efeito anel de café. Trata-se do fenômeno físico cotidiano onde, ao deixarmos uma gota de café secar em uma mesa, a evaporação empurra todas as partículas de poluição e pigmento para a borda externa, formando um anel perfeito.

O design do painel usa essa exata dinâmica de fluidos para arrastar o sal para fora da zona de evaporação. O sistema foi testado com sucesso absoluto utilizando amostras reais coletadas nos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico, mantendo a extração contínua de água doce sem sofrer qualquer tipo de entupimento.

Transformando lixo químico em mineração de lítio

A maior disrupção da tecnologia está no destino do resíduo. Em vez de produzir toneladas de salmoura corrosiva para descartar no mar, o sistema de Rochester entrega o sal completamente sólido e seco.

Esses minerais cristalizados deixam de ser um passivo ecológico e viram matéria-prima industrial preciosa. Em um desdobramento do estudo publicado no Journal of Materials Chemistry A, a equipe de Guo incorporou nanopartículas de titanato de hidrogênio nos microssulcos do painel metálico. Essa modificação permitiu ao sistema isolar e capturar seletivamente o lítio contido no sal residual — o “ouro branco” essencial para a fabricação de baterias de carros elétricos e smartphones.

Utilizando amostras do Grande Lago Salgado de Utah, a tecnologia de prova de conceito foi capaz de recuperar cerca de 50% de todo o lítio presente na água, oferecendo uma rota de mineração urbana infinitamente mais barata e ecológica do que a extração terrestre convencional. Financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates e pela National Science Foundation, o projeto entra agora em fase de testes de escala industrial para levar água potável e tecnologia de baterias limpas para o mercado global nos próximos anos.

Fonte: Universidade de Rochester

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *