O aumento nos níveis de dióxido de carbono atmosférico alcançou um ritmo sem precedentes no último ano, segundo cientistas que classificaram essa elevação como “incompatível” com os objetivos do Acordo de Paris. O Met Office do Reino Unido, em dados divulgados pela BBC News, apontou que os níveis de carbono estão agora mais de 50% acima do registrado antes do início da queima massiva de combustíveis fósseis pelos seres humanos. O professor Richard Betts, especialista em impactos climáticos do Met Office e da Universidade de Exeter, enfatizou que, mesmo com a dificuldade de atingir a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C, esforços contínuos ainda são cruciais. “1,5 °C não é um ponto de não retorno onde tudo se perde. Há muitas soluções disponíveis que já podem ser implementadas. Isso deve servir de motivação para redobrarmos nossos esforços”, afirmou Betts ao The Guardian.
Dados recentes do observatório Mauna Loa, no Havaí, que monitora os níveis de dióxido de carbono há mais de seis décadas, indicam que a taxa de aumento começou a ultrapassar os cenários projetados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para limitar o aquecimento global a 1,5 °C. Segundo o Carbon Brief, o recorde de emissões foi impulsionado pelo uso contínuo de combustíveis fósseis e outros fatores como incêndios florestais e secas, além de mudanças no uso da terra para agricultura. Os sumidouros naturais de carbono, como florestas e oceanos, desempenharam um papel reduzido na absorção de CO2 em 2024, agravando a situação. Parte dessa diminuição está relacionada ao fenômeno El Niño, que contribuiu para condições mais secas e quentes nos trópicos, dificultando o crescimento da vegetação e aumentando as emissões provenientes de incêndios florestais e decomposição.
O impacto dessas mudanças foi evidente no recorde de temperaturas globais registradas no último ano, que exacerbaram eventos climáticos extremos, incluindo ondas de calor, incêndios florestais e inundações em várias partes do mundo. Durante a Assembleia Geral da ONU, o Secretário-Geral António Guterres destacou os custos humanos e financeiros da crise climática, criticando a indústria de combustíveis fósseis por continuar a obter lucros enquanto suas atividades agravam a destruição ambiental. “Todos os dias, pessoas em todo o mundo pagam o preço: com suas vidas, seus meios de subsistência, com prêmios de seguro mais altos, contas de energia voláteis e alimentos mais caros”, disse Guterres.
As emissões de dióxido de carbono aumentaram 3,6 partes por milhão (ppm) em 2024, o dobro do ritmo necessário para alcançar as metas de zero emissões líquidas e limitar o aquecimento global a 1,5 °C. Esse número também superou a previsão do Met Office de 2,8 ppm. Para 2025, a estimativa é de um aumento menor, em torno de 2,3 ppm, devido às condições mais favoráveis para o crescimento da vegetação esperadas com a influência do fenômeno La Niña. No entanto, Betts alerta que isso não deve ser interpretado como uma solução para o problema, mas como uma pausa temporária em uma trajetória preocupante.
Guterres também destacou a disparidade nos investimentos globais, com os governos gastando nove vezes mais para subsidiar combustíveis fósseis do que para tornar a energia limpa mais acessível. “Precisamos desmontar esses muros e priorizar a transição para fontes de energia sustentáveis”, concluiu o Secretário-Geral, reforçando a urgência de ações coordenadas e ambiciosas para enfrentar a crise climática global.


