Terraços de arroz no condado de Congjiang, província de Guizhou, sudoeste da China, em 3 de abril de 2025. CFOTO / Future Publishing via Getty Images
Terraços de arroz no condado de Congjiang, província de Guizhou, sudoeste da China, em 3 de abril de 2025. CFOTO / Future Publishing via Getty Images

Estudo alerta: mudanças climáticas aumentarão níveis de arsênio no arroz até 2050

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Nova pesquisa indica que o aquecimento global intensificará a contaminação do arroz por arsênio, afetando milhões de pessoas na Ásia e no mundo

O arroz, alimento básico para mais da metade da população global, pode se tornar um veículo ainda mais tóxico para o consumo humano até 2050, segundo um estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health. A pesquisa revela que as mudanças climáticas devem elevar significativamente os níveis de arsênio inorgânico (iAs) nos grãos, aumentando os riscos à saúde pública em escala global.

Realizado por cientistas da Universidade de Columbia (EUA), em parceria com a Academia Chinesa de Ciências e a Universidade Johns Hopkins, o estudo é o primeiro a examinar com profundidade os efeitos combinados do aumento da temperatura global e das emissões de CO₂ sobre o acúmulo de arsênio no arroz.

“Com o avanço do aquecimento global, a contaminação do arroz por arsênio poderá aumentar drasticamente, elevando os riscos de câncer, doenças cardíacas, diabetes e outros problemas graves de saúde”, alerta Lewis Ziska, principal autor do estudo e pesquisador da Escola de Saúde Pública Mailman da Universidade de Columbia.

Arsênio no arroz: um problema crescente com raízes no solo

O arsênio é um metal tóxico naturalmente presente em solos e águas subterrâneas, mas sua absorção pelo arroz tende a se intensificar sob certas condições ambientais — entre elas, temperaturas elevadas e altos níveis de dióxido de carbono na atmosfera.

A equipe analisou 28 variedades de arroz em campo, ao longo de uma década, utilizando a técnica FACE (Enriquecimento de CO₂ em Ar Livre), além de modelos de projeção para sete países asiáticos: China, Índia, Bangladesh, Indonésia, Filipinas, Mianmar e Vietnã.

As simulações indicaram que, até 2050:

  • A absorção de arsênio pelos grãos aumentará com a elevação de 2 °C na temperatura
  • A exposição alimentar ao arsênio se tornará mais frequente e intensa
  • A incidência de câncer de pulmão e bexiga poderá crescer significativamente
  • Somente na China, 13,4 milhões de pessoas podem desenvolver cânceres relacionados ao consumo de arroz contaminado

Impactos preocupantes à saúde pública

Além dos tipos de câncer já reconhecidos, o estudo aponta que a exposição crônica ao arsênio está associada a:

  • Doenças cardiovasculares
  • Diabetes tipo 2
  • Problemas neurológicos e no desenvolvimento infantil
  • Efeitos sobre o sistema imunológico
  • Complicações durante a gravidez

“Esses resultados revelam um impacto direto das mudanças climáticas sobre a qualidade nutricional e segurança alimentar de um dos alimentos mais consumidos no mundo”, reforça Ziska.

O que pode ser feito?

Para mitigar os impactos previstos, os pesquisadores defendem uma abordagem integrada que envolva:

  • Melhoramento genético de cultivares menos propensas à absorção de arsênio
  • Gestão adequada dos solos e práticas de irrigação mais seguras
  • Boas práticas no processamento do arroz, desde o descascamento até o cozimento
  • Monitoramento constante de níveis de contaminação nos países mais vulneráveis
  • Educação do consumidor e ações de saúde pública voltadas à segurança alimentar

Um alerta global para políticas alimentares e climáticas

O estudo traz um importante recado: as mudanças climáticas impactam não apenas a produção de alimentos, mas também sua qualidade e segurança. Isso reforça a necessidade urgente de políticas públicas que integrem agricultura, saúde e meio ambiente, sobretudo em regiões onde o arroz é a base alimentar.

“Além da água potável, o arroz já é a maior fonte de arsênio inorgânico na dieta de milhões de pessoas. Com o aquecimento global, isso tende a piorar”, concluem os autores.

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