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Arthur Soffiati

- Historiador com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaborador com a imprensa e autor de 26 livros.

Mangue e areia

Originalmente, a lagoa do Açu era um rio que se formou nos últimos dois mil anos na planície dos Goytacazes, norte do estado do Rio de Janeiro. Sua nascente situava-se na grande lagoa Feia e corria na parte interna do alto cordão arenoso que separa o mar do continente. Esse curso tão rente à costa só admitia afluentes pela margem esquerda. E eram muitos. Não apenas braços com origem na lagoa Feia como tamém no rio Paraíba do Sul em tempos de cheia. Correndo em nível mais baixo que todas as lagoas e o grande Paraíba do Sul, as águas desses ecossistemas corriam para o Iguaçu e engordavam seu curso, que se estendia na planície aluvial na parte alta e na restinga na parte baixa. Alargando-se em várias lagoas, ele ganhou vários nomes, pois acreditava-se que seu curso morria numa lagoa e nascia na mesma sucessivamente, mas como outro rio. O nome geral, contudo, era Iguaçu.

Informações provenientes dos séculos XVIII e XIX são contraditórias. Umas o descrevem como um rio de fluxo permanente com foz sempre aberta e caudaloso nas cheias. Outras mostram um rio cuja foz se abria nas cheias e se fechava nas estiagens. Sujeito à ação das marés, seu trecho final (cerca de 8 a 10 km) foi colonizado por manguezais. Talvez seja o manguezal mais longo do norte fluminense.

Obras de drenagem foram progressivamente transformando o rio numa lagoa alongada. Primeiro foi uma sangria feita no século XVII ao sul da lagoa Feia para abreviar seu escoamento para o mar: a Vala do Furado. O rio ganhou duas fozes. A rasgada por ação humana precisava ser aberta na estação das chuvas, pois a energia do mar a fechava na estação seca. Com obras sistemáticas a partir de 1935, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento substituiu definitivamente o rio Iguaçu pelo canal da Flecha. O rio transformou-se então na lagoa do Açu, com barra logo abaixo do cabo de São Tomé, aberta por ação humana periodicamente para a entrada de peixes. Um grande empreendimento portuário se instalou junto à barra no século XXI. Como compensação ambiental, foi criado o Parque Estadual da Lagoa do Açu, que protege as lagoas do Açu e Salgada bem como o longo manguezal remanescente. A barra só pode ser aberta agora em casos de extrema necessidade.

A área coberta por plantas de mangue situa-se no trecho da restinga. Os ventos fortes tendem a formar, no lado da praia, pequenas dunas. Esses ventos sopram parte da areia para dentro da lagoa, assoreando-a. A salinidade é alta, ultrapassando com frequência à do mar. Sem contato com o mar por longos períodos, a lâmina d’água se estabiliza demoradamente. Esses os três fatores de estresse do manguezal: alta salinidade, lâmina d’água relativamente estabilizada e assoreamento.

Mas o manguezal da lagoa do Açu demonstra o que os estudiosos vêm afirmando: cada manguezal é único. Não se pode mais estabelecer padrão de zonação para esse ecossistema. No caso da lagoa do Açu, a zonação é a seguinte: na barra, em substrato arenoso, cresce o mangue-de-botão (“Conocarpus erectus”), não considerado por todos os especialistas como uma espécie típica e exclusiva de manguezal. Segundo consta, trata-se da maior população dessa espécie no estado do Rio de Janeiro. Mas exemplares da planta também mergulha os pés na água e vivem muito bem, embora, na literatura especializada, encontre-se a afirmação de que a espécie não aprecia desenvolver-se em terreno sujeito a inundações.

População de mangue-de-botão na barra da lagoa do Açu (dezembro de 2022)
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Em seguida, cresce o mangue branco (“Laguncularia racemosa”), que ocorre ao longo de todo o manguezal da lagoa, desde o trecho hipersalino dela até o trecho em que a água se torna doce. A espécie domina as margens, mas também cresce dentro d’água, cuja lâmina oscila pouco e raramente deixa a rizosfera da espécie emersa. Sabe-se que o mangue branco é uma das espécies que desenvolveu raízes respiratórias (pneumatóforos) para trocar gases num substrato muito compacto. A espécie está adaptada a um ambiente úmido. Quando a maré sobe e submerge as raízes respiratórias, a planta resiste. Quando a maré baixa, ela volta a respirar pelos pneumatóforos. Submersa por um longo período ou permanentemente, o mangue branco tende a morrer ou a desenvolver raízes acima do nível d´água, indicando estresse. Na lagoa do Açu, ele cresce tanto nas margens como dentro d’água em lâmina que submerge os pneumatóforos por longuíssimos períodos.

População de mangue branco em lâmina d’água estabilizada (dezembro de 2022)

O mangue-branco está claramente soterrado por uma duna móvel, que encobriu alguns galhos mais recentemente. Mas se mostra saudável, florescendo normalmente.

Mangue branco florescendo em pequena duna, lagoa do Açu (dezembro de 2022)

A segunda espécie que mais ocorre na lagoa é o mangue vermelho (“Rhizophora mangle”), tanto na barra quanto no interior. Mas não vai tão longe quanto o mangue branco. Em certos trechos da barra, a espécie se torna monodominante e forma galerias como se fossem igarapés. Ela cria ambientes de raro encanto.

Igarapé formado por bosque de mangue vermelho. Lagoa do Açu (dezembro de 2022)

Mas o mangue vermelho cresce também dentro d’água, em lâmina com pequenas oscilações, já que as marés não afetam mais o sistema diuturnamente. Contudo, dá para entender que os exemplares continuem vivo e saudáveis. No caso da lagoa do Siri, no sul do Espírito Santo, a estabilização da lâmina d’água eliminou o mangue branco e a siribeira. Apenas o mangue vermelho sobreviveu. As lenticelas subiram pelas ramificações caulinares e permitiram que as plantas vivessem normalmente. Foi o que aconteceu na lagoa do Açu. Mas, na barra, encontram-se exemplares de mangue vermelho crescendo também na areia.

Exemplar de mangue vermelho em lâmina d’água estabilizada. Lagoa do Açu (dezembro de 2022)

A siribeira (“Avicennia germinans”) é mais rara. Quando comecei a estudar os manguezais da região norte-fluminense, nos anos de 1990, creio ter encontrado dois enormes exemplares de “Avicennia schaueriana” na lagoa. Eles foram cortados. Da A. germinans, existem apenas alguns exemplares localizados nas proximidades da barra da lagoa. Também eles se desenvolveram numa lâmina d’água relativamente estável para uma espécie resistente à salinidade, mas que precisa da oscilação da marés.

Exemplar de siribeira na lagoa do Açu (dezembro de 2022)

Os estudiosos de manguezal, quer me parecer, estão concentrados na produção primária, na ciclagem de nutrientes e na capacidade desse ecossistema como sumidouro de carbono. Não sei se esses detalhes de sobrevivência vêm tanto ao caso: plantas exclusivas de manguezal vivendo em condições adversas. Em consulta remota à Yara Schaeffer-Novelli, Uma referência internacional em estudos do ecossistema manguezal, propôs ela atenção para o lençol freático. De fato, sabe-se que ele é muito elevado no entorno da lagoa da Açu, aflorando com escavação superficial ou com sua saturação por chuvas contínuas. No caso do mangue-vermelho e da siribeira, os exemplares encontrados sugerem que o recuo do espelho d’água associado aos ventos (também frequentes e intensos na área) As plantas teriam sido assoreadas com a redução do nível d’água, enquanto os ventos teriam soterrado a rizosfera. Mas eles mantêm contato com o lençol freático. No caso da população de mangue-branco, a primeira avaliação sugere que propágulos caíram da planta-mãe em pequenas dunas e germinaram. Mesmo assim, os exemplares teriam contato com o lençol freático, sendo que seus pneumatóforos estariam em atividade, embora ocultos, em substrato arenoso e poroso. Pode ter ocorrido também a formação de pequenas dunas sobre terreno alagado anteriormente. Contudo, esses aparentes enigmas mostram que a lagoa do Açu carece de mais estudos.

Para um historiador que trabalha com relações materiais das sociedades humanas com ecossistemas, o comportamento de espécies vegetais e animais equivale a uma fala. Afinal, o rio Iguaçu sofreu considerável intervenção humana no final do século XVII e profunda mudança estrutural no século XX. O rio foi transformado em lagoa, assim como seus afluentes foram suprimidos. A lagoa do Açu é um laboratório nesse aspecto, além de seu enorme valor ambiental, estético e turístico.

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