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Infratores ambientais lucram com crédito de carbono na Amazônia, revela investigação

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Uma investigação da agência Reuters revelou que parte significativa dos projetos de crédito de carbono na Amazônia brasileira está beneficiando pessoas e empresas acusadas de desmatamento ilegal. Dos 36 projetos avaliados nos principais registros do mercado voluntário — como Verra e Cercarbono — ao menos 24 estão ligados a infratores ambientais, com multas aplicadas pelo IBAMA.

As infrações vão desde derrubada de árvores sem autorização até fraudes em sistemas de controle florestal e transporte ilegal de madeira. Em 20 dos projetos, os responsáveis já haviam sido autuados antes de entrarem no mercado de carbono. E em sete casos, as multas ambientais continuaram mesmo após o início dos projetos.

Quando a preservação financia o desmatamento

Criado para combater as mudanças climáticas, o mecanismo de compensação por créditos de carbono permite que empresas invistam em projetos ambientais para “neutralizar” suas emissões de gases de efeito estufa. Na prática, no entanto, parte desses recursos pode estar alimentando a própria destruição que deveriam conter.

“É um fracasso de toda a ideia”, afirma Raoni Rajão, ex-diretor do programa de combate ao desmatamento do Ministério do Meio Ambiente.

A Amazônia perdeu 20% de sua cobertura florestal nos últimos 50 anos. Mesmo assim, a região continua sendo o centro das operações do mercado voluntário de carbono, que movimentou US$ 7,6 bilhões em cinco anos. Empresas como Boeing, Telefónica e Ecopetrol compraram créditos gerados por projetos da região.

Casos emblemáticos e fraudes

Um dos exemplos mais graves envolve o médico Ricardo Stoppe Junior, preso em 2024 por envolvimento com extração ilegal de madeira e grilagem de terras públicas. Apesar de ser multado pelo IBAMA desde 2014, Stoppe vendeu créditos de carbono que somam cerca de US$ 15 milhões. Segundo a Polícia Federal, ele usou os projetos para lavar madeira extraída ilegalmente.

As entidades certificadoras, como Verra e Cercarbono, abriram investigações internas após a denúncia, mas declararam não haver evidências de que os projetos falharam em conter o desmatamento. Já o Ministério do Meio Ambiente ressaltou que seus dados podem e devem ser usados para verificar a integridade dessas iniciativas.

Justiça age contra desmatadores reincidentes

Em paralelo, a Justiça Federal determinou o bloqueio de R$ 49 milhões em bens de quatro pessoas acusadas de desmatar mais de 2.600 hectares em Lábrea (AM), entre 2004 e 2007. A ação, movida pela Advocacia-Geral da União (AGU), proíbe os réus de explorarem a área degradada, que deverá ser reflorestada.

A decisão, noticiada por Carta Capital e O Globo, também suspende benefícios fiscais dos envolvidos. De acordo com a AGU, os danos vão além da destruição florestal: houve perda de biodiversidade, emissões ilegais de carbono e desequilíbrio hidrológico, prejudicando um bioma reconhecido como patrimônio nacional pela Constituição.

Fontes:
Reuters, IBAMA, Polícia Federal, Ministério do Meio Ambiente, Verra, Cercarbono, AGU, Carta Capital, O Globo.

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