O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e o Serviço Florestal do país receberam ordens para remover todas as referências às mudanças climáticas de seus sites e páginas oficiais. A determinação, detalhada em diretrizes internas obtidas por veículos como Politico, The Hill e The Guardian, faz parte de um movimento mais amplo da administração Trump para reconfigurar a comunicação oficial do governo em relação às questões ambientais e climáticas.
Segundo o memorando interno, o USDA deveria “identificar, arquivar ou despublicar quaisquer páginas de destino focadas em mudanças climáticas” e registrar todas as ocorrências dessas referências em uma planilha até o prazo final estipulado. A medida afeta diretamente conteúdos que abordavam temas como resiliência agrícola, incêndios florestais e adaptação climática.
Apesar de algumas páginas ainda permanecerem ativas, como a seção Climate Hubs e a de adaptação climática na agricultura, outras já foram retiradas do ar. Por exemplo, uma página do Serviço Florestal sobre mudanças climáticas, que ainda estava acessível no dia 31 de janeiro, foi removida em seguida. Agora, qualquer tentativa de acessar esse link resulta em uma mensagem de erro informando que o usuário “não está autorizado a acessar esta página”.
A remoção de conteúdo relacionado às mudanças climáticas em sites governamentais não é um caso isolado. A administração Trump já havia ordenado ações semelhantes em sua primeira gestão, apagando informações sobre sustentabilidade e aquecimento global de sites como o WhiteHouse.gov e outras plataformas institucionais. No Departamento de Segurança Interna, por exemplo, a página dedicada à resposta às mudanças climáticas foi arquivada, deixando de exibir informações atualizadas sobre o tema.
Atualmente, uma busca pelo termo “mudança climática” no site oficial da Casa Branca gera poucos resultados, sendo a maioria relacionada a ordens executivas que favorecem o setor de combustíveis fósseis e retiram o país de compromissos internacionais, como o Acordo de Paris.
Além da exclusão de conteúdos ambientais, novas diretrizes da administração também afetam outros setores. Funcionários do Escritório de Gestão de Pessoal (OPM) foram instruídos a remover pronomes de assinaturas de e-mails e dissolver grupos de recursos voltados para questões de gênero. Outras modificações incluem a eliminação de informações sobre métodos contraceptivos, apoio a crianças transgênero e dados sobre o Dia Nacional de Testagem de HIV para a população trans dos sites dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).
As ordens de silêncio não param por aí. Agências federais de saúde também foram instruídas a interromper a comunicação pública, conforme relatado pelo Axios. Além disso, Trump tomou a polêmica decisão de retirar os Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS), o que levanta preocupações sobre o impacto dessa ação na resposta a crises sanitárias globais.
Especialistas alertam para os riscos de tais medidas, especialmente diante do aumento de eventos climáticos extremos e da necessidade de monitoramento da disseminação de doenças, ambos agravados pelas mudanças climáticas. Cientistas expressam receios sobre a perda de acesso a dados essenciais para a pesquisa e formulação de políticas públicas.
“Nos Estados Unidos, nunca houve um momento em que pesquisadores estivessem tão preocupados em perder acesso a dados essenciais para suas carreiras”, afirmou Jonathan Gilmour, cientista de dados da Harvard TH Chan School of Public Health, em entrevista ao The Journalist’s Resource. “Se os dados deixarem de estar disponíveis, não teremos um quadro completo da realidade climática e de saúde pública nos EUA e no mundo. E isso coloca em risco nosso modo de vida.”
A censura de informações ambientais e de saúde pública pelo governo levanta questionamentos sobre a transparência e a responsabilidade na tomada de decisões políticas. O impacto dessas mudanças pode ser profundo, afetando a capacidade de resposta do país a crises ambientais e sanitárias nos próximos anos.


