Nova política de gestão de risco substitui modelo rígido e amplia capacidade de desembolso para mitigar os impactos dos cortes de verbas promovidos pelos EUA e Reino Unido.
O Fundo Verde para o Clima (Green Climate Fund – GCF), principal braço financeiro multilateral da Organização das Nações Unidas (ONU), aprovou uma reformulação estrutural em sua política de reservas que injetará US$ 4,3 bilhões adicionais em sua capacidade de financiamento para o biênio 2026-2027. A decisão, confirmada pela diretora-executiva do fundo, Mafalda Duarte, permite expandir os desembolsos diretos para US$ 5,65 bilhões no período. A medida visa dar vazão a uma fila de solicitações que atinge a marca de US$ 11 bilhões em projetos climáticos submetidos por nações em desenvolvimento focadas em redução de emissões e resiliência a eventos extremos.
A mudança de diretriz ocorre sob forte pressão macroeconômica, em um momento de retração nos aportes financeiros de grandes doadores globais, o que vinha comprometendo as rodadas de reposição de recursos da entidade.
A nova lógica de alocação de capital do GCF
A reestruturação aprovada pelo conselho do fundo substitui o antigo modelo de imobilização financeira “dólar por dólar” por uma matriz moderna baseada em riscos reais, dividida em quatro etapas operacionais:
- Diagnóstico dos cortes geopolíticos – A reforma tornou-se urgente após o Reino Unido anunciar um corte de aproximadamente US$ 1 bilhão em suas contribuições programadas até 2027. O desfalque somou-se à retirada prévia de US$ 4 bilhões por parte dos Estados Unidos. Esse cenário de escassez de doações governamentais obrigou o fundo a buscar eficiência interna.
- Segregação de ativos rígidos – O modelo anterior imobilizava preventivamente 100% do valor de qualquer operação logo após a sua aprovação pelo conselho. Com a nova regra, essa reserva integral de 100% foi mantida exclusivamente para repasses a fundo perdido (doações) e investimentos diretos em participação acionária.
- Transição para o modelo baseado em risco – Para os empréstimos e garantias financeiras — que equivalem a 40% de toda a carteira de investimentos do GCF —, o fundo implementou uma reserva de conservação de capital de apenas 15% do valor total financiado. A segurança contábil é complementada por uma reserva de liquidez flutuante, calculada com base no histórico de desembolsos dos últimos dois anos.
- Trava de prudência financeira – Embora uma proposta técnica mais agressiva para liberar até US$ 6 bilhões tenha sido colocada em votação, o conselho optou por uma transição inicial mais conservadora. O modelo atual libera os recursos imobilizados nas contas de garantia sem arranhar o rating de solidez do fundo, deixando a porta aberta para futuras flexibilizações.
Próxima fronteira: Capital filantrópico e doações voluntárias
Além de destravar os recursos internos, a governança do Fundo Verde para o Clima prepara uma quebra de paradigma em sua base de financiadores. Em outubro, o conselho deliberará sobre uma proposta inédita para permitir a captação de recursos diretos vindos de entidades não governamentais e grandes organizações filantrópicas globais.
Paralelamente, o GCF planeja estreitar laços com economias emergentes e países em desenvolvimento de maior porte para estimular o ecossistema de contribuições voluntárias. Desde a sua fundação, em 2010, na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), o mecanismo já chancelou mais de US$ 20 bilhões em projetos. O atual redesenho sinaliza que, diante do aperto fiscal das grandes potências, o futuro do financiamento climático dependerá da sofisticação técnica e da atração do capital privado e institucional.
Fontes: bloomberg Línea / Um Só Planeta




