Descoberta por acaso em Nova York, a concentração da espécie Andrena regularis é uma das maiores e mais antigas já registradas e reforça o papel de necrópoles como santuários ecológicos.
Uma nova pesquisa publicada na prestigiada revista científica Apidologie desvendou um caso extraordinário de biodiversidade urbana nos Estados Unidos: o Cemitério East Lawn, localizado em Ithaca, Nova York, abriga uma das maiores e mais antigas concentrações de abelhas que nidificam no solo já documentadas no planeta. Estima-se que mais de 5,5 milhões de abelhas selvagens vivam em uma imensa rede subterrânea sob as alamedas do local.
A descoberta, que surpreendeu a comunidade acadêmica, começou de forma despretensiosa. Rachel Fordyce, técnica de um laboratório de entomologia na Universidade Cornell, costumava estacionar seu carro perto do cemitério. Intrigada com a quantidade massiva de insetos que sobrevoavam o gramado, ela coletou alguns exemplares em um frasco e os levou para análise.
Junto ao seu supervisor, o professor Bryan Danforth, ela identificou os insetos como espécimes da Andrena regularis — popularmente conhecida como “abelha-mineira-comum”. Trata-se de uma espécie selvagem, de hábitos solitários, que cava seus ninhos diretamente na terra em vez de construir colmeias tradicionais em árvores.

O impacto econômico: Defensoras da fruticultura
Conduzido pelo pesquisador Steve Hoge durante sua graduação no laboratório de Cornell, o estudo detalhou aspectos biológicos até então pouco explorados sobre essa espécie. Longe de ser apenas uma curiosidade biológica, a presença massiva dessas abelhas cumpre uma função econômica crucial para a região:
- Polinização de Alto Valor: A Andrena regularis é uma das polinizadoras agrícolas mais eficientes e importantes para culturas de grande relevância comercial, como as maçãs — um dos produtos agrícolas mais valiosos e emblemáticos do estado de Nova York.
- Equilíbrio Ambiental: Por não viverem em colmeias sociais agressivas, elas realizam o trabalho de polinização de forma dispersa e silenciosa, garantindo a reprodução e a variabilidade genética da flora local.

Por que os cemitérios viraram oásis de biodiversidade?
A escolha do Cemitério East Lawn como habitat por gerações de abelhas não foi um acidente. O estudo reforça uma tendência já observada em necrópoles antigas de grandes centros urbanos na Europa: esses locais estão se transformando em verdadeiras reservas ecológicas involuntárias.
De acordo com Keven Morse, superintendente do cemitério — cuja família gerencia a organização privada sem fins lucrativos do local há 46 anos —, o espaço é frequentemente frequentado por veados, gansos, falcões, raposas e coiotes. As abelhas, segundo ele, convivem pacificamente com os funcionários e visitantes e nunca registraram incidentes com picadas.
Os cemitérios oferecem as condições perfeitas para espécies terrestres devido a três fatores principais:
- Tranquilidade contínua: A dinâmica de silêncio e o respeito ao espaço evitam grandes movimentações de massa.
- Ausência de defensivos químicos: A gestão desses espaços raramente faz o uso de pesticidas ou inseticidas pesados que dizimam colônias em áreas agrícolas tradicionais.
- Solo intocado: Como grandes extensões de terra não sofrem com aragem profunda ou tráfego pesado de maquinários, a arquitetura dos ninhos subterrâneos permanece intacta por décadas.
“A pesquisa ressalta o valor incomensurável das abelhas solitárias e mostra o quão abundantes e vitais elas são para o nosso abastecimento alimentar. Precisamos mapear com urgência esses locais de nidificação para garantir sua preservação integral”, alertou o pesquisador Bryan Danforth em entrevista ao portal Science Daily.


