A Via Láctea fotografada sobre o deserto ocidental do Egito. A faixa escura que atravessa o centro da imagem, conhecida como Great Rift, pode ter inspirado representações na arte funerária egípcia. Foto: Osama Fathi. (Osama Fathi/Reprodução)
A Via Láctea fotografada sobre o deserto ocidental do Egito. A faixa escura que atravessa o centro da imagem, conhecida como Great Rift, pode ter inspirado representações na arte funerária egípcia. Foto: Osama Fathi. (Osama Fathi/Reprodução)

Antigos egípcios podem ter retratado a Via Láctea há mais de 3 mil anos em sarcófagos

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Uma nova pesquisa conduzida pelo astrofísico Or Graur, da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, revela que os antigos egípcios podem ter sido os primeiros a representar visualmente a Via Láctea — o gigantesco “rio de estrelas” que atravessa o céu noturno — em obras funerárias que datam de mais de 3 mil anos. A descoberta, publicada no Journal of Astronomical History and Heritage, analisa representações celestes presentes em sarcófagos e tumbas egípcias, especialmente aquelas que envolvem a figura da deusa Nut, divindade associada ao céu.

Uma galáxia nas estrelas da deusa

Em cinco registros funerários distintos, os pesquisadores identificaram uma linha preta ondulada contornando o corpo de Nut, pintada entre estrelas e outros elementos astronômicos. O traço visual se assemelha à estrutura conhecida como Great Rift, uma densa faixa de poeira interestelar que corta a Via Láctea, criando uma divisão visível no céu em noites muito escuras.

A mais emblemática dessas representações foi identificada na tampa externa do sarcófago de Nesitaudjatakhet, uma cantora devota dos deuses Mut e Amon-Rá, que viveu entre 1077 e 943 a.C., durante a XXI dinastia. Nela, Nut aparece arqueada sobre o deus Geb, como é comum na iconografia egípcia, mas uma curva espessa e escura atravessa seu corpo, destacando-se entre as estrelas — um detalhe raro e simbólico.

Outras representações semelhantes foram encontradas em tumbas de faraós no Vale dos Reis, incluindo os reis Ramessés IV, VI e IX, na tumba de Seti I, e em um sarcófago do Museu Nacional do Tartaristão, na Rússia.

Representação da deusa Nut no caixão de Nesitaudjatakhet, com uma linha ondulada decorada com estrelas contornando seu corpo — possível referência simbólica à Via Láctea (Odessa Archaeological Museum, OAM 52976/Mykola Tarasenko/Reprodução)
Detalhe do teto da tumba de Ramessés VI, no Vale dos Reis, com a deusa Nut e uma linha ondulada dourada acima (Francis Dzikowski / Theban Mapping Project./Reprodução)

A Via Láctea como parte do céu, não uma deidade

Embora Nut seja frequentemente relacionada ao cosmos, Graur aponta que os egípcios não associavam diretamente a deusa à Via Láctea, mas sim incluíam a galáxia como um dos muitos elementos celestes que decoravam seu corpo. “Nut não é a Via Láctea. A Via Láctea é um fenômeno celeste que está presente no corpo de Nut — junto com o Sol, as estrelas e outros símbolos do firmamento”, explica o astrofísico.

Essa observação é reforçada pela raridade do traço ondulado nos registros funerários. Dos mais de 550 artefatos analisados, apenas cinco continham essa representação, o que demonstra que a galáxia era um símbolo cosmológico específico, mas não onipresente na arte egípcia.

Um “caminho de águas em curva” no firmamento

O estudo também sugere que o nome egípcio para a Via Láctea poderia ter sido mr-nḫ3, expressão que pode ser traduzida como “canal sinuoso” ou “caminho das águas em curva”. O termo aparece em textos das pirâmides, frequentemente relacionados às travessias pós-morte dos faraós, indicando que o fenômeno galáctico possuía também funções mitológicas e religiosas.

A presença dessa estrutura celeste nas práticas funerárias reforça como os egípcios incorporavam observações astronômicas reais ao seu imaginário espiritual. As estrelas, planetas e galáxias não eram apenas fenômenos distantes: faziam parte do caminho que o faraó deveria trilhar rumo à imortalidade.

Um elo entre ciência, arte e espiritualidade

A pesquisa conduzida por Graur amplia o conhecimento sobre como antigas civilizações integravam ciência, religião e arte, muito antes da consolidação do conhecimento astronômico moderno. A representação da Via Láctea nos sarcófagos não apenas comprova a capacidade de observação astronômica dos egípcios, mas também revela uma cosmologia sofisticada, em que fenômenos naturais eram compreendidos como parte de uma ordem divina.

Em tempos de crescente interesse por história da ciência, arqueoastronomia e mudanças climáticas ao longo da história, estudos como esse ajudam a resgatar o vínculo ancestral entre humanidade e cosmos.

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