O que antes era um resíduo doméstico problemático e poluente agora é ouro líquido para a economia circular brasileira. Em uma agenda histórica realizada sexta-feira (20/3), em Betim (MG), o protagonismo dos catadores de materiais recicláveis foi consolidado como pilar estratégico na produção de biocombustíveis. A parceria entre o Governo Federal e a Petrobras coloca as cooperativas no centro da cadeia do Diesel R, o novo combustível sustentável do país.
O anúncio, que contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na refinaria de Minas Gerais (Regap), detalha um investimento de R$ 9 bilhões para modernizar a produção e ampliar o uso de conteúdo renovável.
A magia do Diesel R: Tecnologia e inclusão
O Diesel R é produzido através do coprocessamento de derivados de petróleo com matérias-primas vegetais, como o óleo de cozinha usado (UCO – Used Cooking Oil). É aqui que entram os catadores: as associações e cooperativas passam a atuar como os principais agentes de coleta desse óleo junto à população e grandes geradores (restaurantes e indústrias).
Essa dinâmica resolve dois problemas de uma vez:
- Ambiental: Evita o descarte irregular de óleo, que contamina milhões de litros de água e entope redes de esgoto.
- Social: Gera uma nova e poderosa fonte de renda para os catadores, em um momento crítico de queda nos preços de outros recicláveis, como o plástico e o papel.
Centros de distribuição (Hubs): O próximo passo
A visão para o futuro do programa é ambiciosa. Segundo Roberto Rocha, presidente da ANCAT (Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis), o objetivo é transformar as redes de cooperativas em hubs logísticos.
Esses centros funcionariam como agregadores de grandes volumes, conectando diretamente os catadores à indústria pesada e às refinarias da Petrobras, eliminando atravessadores e garantindo que o valor da transição energética fique com quem trabalha na coleta.
Simbolismo e soberania
A presença da catadora Madalena, de Contagem (MG), no palco com as autoridades, foi o gesto simbólico que marcou o evento. Para o Movimento Nacional dos Catadores (MNCR), isso representa o reconhecimento de que não existe “Brasil Sustentável” sem a inclusão produtiva de sua base.
“Vi de perto o que significa soberania nacional de verdade. Estamos investindo na refinaria, gerando empregos e apontando para o futuro da nossa energia”, destacou o presidente Lula durante a visita.
O impacto no ecossistema
O programa deve ser expandido para outras refinarias da Petrobras ao redor do Brasil. Essa iniciativa é o exemplo perfeito de que a transição energética não precisa ser apenas “verde”, ela precisa ser justa. Ao integrar o óleo de cozinha na matriz de transporte, o Brasil fortalece sua soberania energética e prova que a tecnologia de ponta pode (e deve) caminhar de mãos dadas com a justiça social.
Fonte: www.ancat.org.br


