O dióxido de carbono (CO₂), principal gás responsável pelo efeito estufa e pelo aquecimento global, está deixando de ser apenas um vilão ambiental para se tornar matéria-prima de combustíveis sustentáveis. Pesquisadores e empresas brasileiras desenvolvem tecnologias para converter o gás, capturado de processos industriais ou diretamente da atmosfera, em metanol, gasolina e diesel renováveis.
No mundo, a produção de combustíveis a partir de CO₂ já começa a ganhar escala industrial. No Brasil, dois projetos podem colocar o país na vanguarda dessa tecnologia, atendendo setores de difícil eletrificação, como transporte marítimo, rodoviário e aéreo.

E-metanol: a aposta da USP para o transporte marítimo
No Instituto de Química da USP (IQ-USP), em parceria com o Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) — que une a Fapesp e a Shell —, pesquisadores criam uma rota sustentável para produzir e-metanol. O combustível será obtido a partir de CO₂ capturado de usinas de etanol e hidrogênio gerado com energia renovável, visando a propulsão de navios.
Segundo o engenheiro químico Pedro Vidinha, o Brasil reúne vantagens estratégicas para a produção: alta disponibilidade de CO₂ de pureza superior a 90% nas usinas sucroalcooleiras, energia elétrica proveniente da queima do bagaço de cana e vapor para o aquecimento dos reatores.
O projeto inclui o desenvolvimento de um catalisador inovador à base de óxidos de titânio e rênio, capaz de converter o CO₂ em metanol com 98% de seletividade. Uma planta-piloto deverá ser construída até 2026 na USP, com meta de gerar 3 litros diários e, futuramente, escalar para 100 mil toneladas por ano.
Gasolina e diesel renováveis: projeto CO2CHEM
A Repsol Sinopec Brasil, em parceria com a Hytron, o Senai-CETIQT e a USP, desenvolve o CO2CHEM, projeto que transforma CO₂ e hidrogênio em gasolina e diesel renováveis. A unidade-piloto, em operação assistida desde março em Campinas, pode produzir até 20 litros por dia.
O sistema utiliza CO₂ de qualquer fonte, inclusive capturado diretamente do ar por meio da tecnologia Direct Air Capture (DAC), que remove carbono da atmosfera. O hidrogênio é gerado por eletrólise da água com energia renovável, criando um ciclo fechado de produção e consumo de CO₂.

Pioneirismo internacional e desafios no Brasil
Embora a tecnologia brasileira ainda esteja em desenvolvimento, a produção comercial já é realidade na Dinamarca. Em 2024, entrou em operação em Kasso a primeira fábrica de e-metanol do mundo, com capacidade para 42 milhões de toneladas por ano, abastecida por energia renovável. A Maersk, gigante do transporte marítimo, já utiliza o combustível para reduzir em até 65% as emissões de gases de efeito estufa de suas embarcações.
No Brasil, além dos projetos da USP e da Repsol, Petrobras, Braskem e HIF Global anunciaram iniciativas para produzir e-metanol. O desafio está no custo: enquanto o e-metanol custa cerca de US$ 1.300 por tonelada, o óleo combustível fóssil usado em navios sai por aproximadamente US$ 300.


Potencial para descarbonizar o transporte
O transporte marítimo responde por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa e busca zerar suas emissões líquidas até 2050. A Organização Marítima Internacional (IMO) já definiu metas graduais e multas pesadas para quem descumprir os limites.
A transformação do CO₂ em combustível sustentável pode ser uma das chaves para essa transição, unindo inovação tecnológica, redução de impacto ambiental e oportunidades econômicas para o Brasil.
Fonte: Revista Pesquisa Fapesp
Projetos
1. Centro de Pesquisa e Inovação de Gases de Efeito Estufa – RCG2I (nº 20/15230-5); Modalidade Centros de Pesquisa em Engenharia (CPE); Convênio/Acordo BG E&P Brasil (Grupo Shell); Pesquisador responsável Julio Romano Meneghini (USP); Investimento R$ 25.376.639,63.
2. Unidade integrada de produção de hidrogênio a partir da reforma autotérmica de etanol (nº 14/50183-7);Modalidade Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Acordo de cooperação Finep Pipe/Pappe Subvenção; Pesquisador responsável Daniel Lopes (Hytron); Investimento R$ 618.861,42.
3. Desenvolvimento e integração de unidade integrada de reforma de etanol para produção de hidrogênio (nº 05/50908-2); Modalidade Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável João Carlos Camargo (Hytron); Investimento R$ 614.193,25.
Artigos científicos
GOTHE, M. L. et al. Selective CO2 hydrogenation into methanol in a supercritical flow process. Journal of CO2 Utilization. v. 40, 101195. set. 2020.
YE, J. et al. Hydrogenation of CO2 for sustainable fuel and chemical production. Science. v. 387, n. 6737. 28 fev. 2025.


