No Estado mexicano de Chihuahua, a seca prolongada já dura 30 meses sem chuvas consistentes. Às margens da represa La Boquilla, em San Francisco de Conchos, moradores e agricultores recorrem à fé em busca de alívio, enquanto o reservatório registra apenas 14% de sua capacidade. A paisagem ressecada revela o que já foi o leito do lago Toronto, hoje coberto por pedras e pó.
A crise hídrica local ganhou contornos internacionais com o agravamento da disputa por água entre México e EUA, estabelecida pelo tratado de 1944, que obriga o México a fornecer anualmente 430 milhões de metros cúbicos de água do rio Grande. Em contrapartida, os EUA enviam cerca de 1,85 bilhão de m³ do rio Colorado às cidades mexicanas da fronteira.
Pressões políticas e escassez histórica
A pressão por parte de legisladores do Texas levou os EUA a alertarem o México: ou a dívida hídrica é quitada, ou o fornecimento do Colorado será suspenso. Em abril, o presidente Donald Trump intensificou a retórica, acusando o México de “roubar água” e ameaçando com tarifas e sanções.
A presidente Claudia Sheinbaum reconheceu o déficit e iniciou a transferência emergencial de 75 milhões de m³ de água da represa Amistad. Contudo, o volume cobre apenas uma fração do passivo, estimado em 1,5 bilhão de m³.
A tensão remonta a 2020, quando dois mexicanos foram mortos em confronto com a Guarda Nacional ao tentarem impedir o redirecionamento de água em La Boquilla. “Não se pode tirar o que não existe”, afirma Rafael Betance, morador local e voluntário da autoridade hídrica há 35 anos.

Impactos agrícolas e modelos de irrigação ineficientes
Do lado texano, agricultores como Brian Jones reclamam de prejuízos recorrentes: há três anos, ele cultiva apenas metade de sua propriedade por falta de água para irrigação. Para Jones, o México não cumpre sua parte e ainda acumula água para competir no mercado agrícola.
Já no lado mexicano, produtores insistem que o tratado só exige o repasse quando houver excedente. A realidade no vale do rio Conchos é de plantações ameaçadas e irrigação precária. Culturas como nogueiras e alfafa, altamente dependentes de água, ainda são irrigadas por alagamento — método considerado ineficiente e ultrapassado.
O ex-prefeito Jaime Ramirez defende a adoção de tecnologias mais sustentáveis, como irrigadores automatizados. “Reduzimos em 60% o uso de água nas nogueiras. Mas muitos agricultores ainda não têm acesso ou incentivo para migrar de técnica”, explica.

Um tratado que não acompanha o clima
O tratado de 1944, assinado em um contexto muito diferente, é hoje questionado por diversos setores do México. A população cresceu, o clima mudou drasticamente, e a seca prolongada é cada vez mais frequente. “Se não chover este ano, no próximo não haverá mais agricultura — a água será exclusiva para consumo humano”, alerta Ramirez.
Para os agricultores texanos, no entanto, o acordo ainda é válido e precisa ser respeitado. “Foi firmado na época do meu avô. Não plantar metade da fazenda por falta d’água é revoltante”, desabafa Brian Jones.
Seca afeta turismo e ecossistemas
Com o lago Toronto em níveis mínimos, o calor faz a água remanescente esquentar rapidamente, o que coloca em risco a vida aquática e compromete a economia local baseada no turismo. “Rezar por chuva é tudo o que nos resta”, lamenta Rafael Betance.
A crise revela os limites da diplomacia hídrica em tempos de colapso climático. Sem mudanças estruturais no uso da água e sem revisão dos acordos internacionais à luz das novas realidades, a escassez hídrica pode se tornar um dos principais focos de tensão entre nações nas próximas décadas.
Fonte: BBC News


