Neve em Londres durante uma tempestade de inverno. SHansche / iStock / Getty Images Plus
Neve em Londres durante uma tempestade de inverno. SHansche / iStock / Getty Images Plus

Colapso da AMOC pode mergulhar Europa em invernos glaciais, revela estudo

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Um novo estudo publicado na Geophysical Research Letters alerta para os possíveis efeitos devastadores do colapso da Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), um dos principais sistemas de correntes oceânicas do planeta. Caso esse sistema enfraqueça severamente, partes da Europa podem enfrentar invernos com características de uma nova era do gelo, mesmo em um cenário de aquecimento global moderado.

A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Utrecht, na Holanda, indica que o colapso da AMOC causaria um “resfriamento profundo” no noroeste da Europa, especialmente nas estações mais frias. Londres, por exemplo, poderia enfrentar invernos com temperaturas mínimas próximas a -20°C. Em Oslo, capital da Noruega, as mínimas poderiam despencar para cerca de -48°C.

O que é a AMOC e por que ela importa?

A AMOC é responsável por transportar águas quentes dos trópicos para o Atlântico Norte, ajudando a regular o clima em diversas regiões, especialmente na Europa Ocidental. Esse sistema inclui a famosa corrente do Golfo e desempenha um papel central na redistribuição global do calor.

Entretanto, o aquecimento global está desestabilizando essa engrenagem climática. O derretimento acelerado do gelo do Ártico e da Groenlândia, junto com o aumento das chuvas, está diluindo a salinidade e, portanto, enfraquecendo a densidade da água — um fator crucial para manter o sistema de correntes em funcionamento.

Se a AMOC atingir seu “ponto de inflexão”, um colapso abrupto poderá ocorrer, com consequências globais significativas.

E se a AMOC colapsar?

A pergunta central do estudo foi: “O que acontece com o clima da Europa se a AMOC entrar em colapso em um cenário de aquecimento global intermediário?” Para responder, os pesquisadores utilizaram um modelo climático moderno e de alta resolução, algo inédito nesse nível de simulação.

O cenário modelado envolve um mundo cerca de 2°C mais quente do que os níveis pré-industriais, combinado com uma redução de 80% na força da AMOC.

Mesmo com o aquecimento global, o resfriamento causado pela falência da AMOC supera os efeitos do aquecimento. Isso significa que, em vez de um clima mais quente e úmido, o noroeste europeu enfrentaria:

  • Expansão de gelo marinho até partes da Escandinávia, Holanda e costa nordeste dos EUA;
  • Invernos com ondas de frio intensas e duradouras;
  • Verões ainda quentes, embora levemente atenuados;
  • Oscilações drásticas de temperatura entre as estações, aumentando a imprevisibilidade climática.

“Uma nova era glacial em pleno aquecimento global”

O estudo sugere que, em alguns anos extremos, a Europa poderia alternar entre condições de inverno polar e ondas de calor no verão. O professor Tim Lenton, da Universidade de Exeter, comparou o cenário a “sair de um congelador direto para uma frigideira”.

Já Stefan Rahmstorf, da Universidade de Potsdam, destacou que o novo estudo é o mais avançado já feito sobre o tema. “Confirma preocupações antigas de que o colapso da AMOC teria impactos climáticos massivos sobre a Europa.”

O resfriamento seria acentuado pela maior refletividade da luz solar em superfícies cobertas por neve e gelo, amplificando ainda mais a perda de calor nas regiões afetadas.

Impactos globais e preocupações crescentes

O colapso da AMOC não afetaria apenas a Europa. Mudanças na circulação oceânica podem:

  • Desestabilizar os regimes de monções na África e América do Sul;
  • Reduzir a produção agrícola em diversas regiões;
  • Aumentar o nível do mar na costa leste dos EUA;
  • Aprofundar os contrastes entre hemisférios, afetando a segurança alimentar e hídrica global.

Cientistas já vinham alertando que a AMOC pode colapsar ainda neste século, caso as emissões de gases de efeito estufa não sejam drasticamente reduzidas.

Um alerta para a ação climática

O estudo holandês reforça que a estabilidade do clima europeu depende diretamente da integridade da AMOC. Mesmo num mundo mais quente, a perda desse sistema pode reverter o padrão atual, impondo condições climáticas adversas e inesperadas.

A pesquisa destaca a urgência de limitar o aquecimento global e monitorar de perto os sinais de enfraquecimento da AMOC. Como alertam os cientistas, agir agora é essencial para evitar um futuro de extremos — não apenas quentes, mas congelantes.

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